Instinto Secreto

09/01/2008 | Categoria: Críticas

Pura fórmula, thriller sofre de excesso de personagens e linhas narrativas, que contribuem para confundir o espectador

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Filmes que narram perseguições de gato e rato envolvendo policiais espertos e criminosos geniais são, em geral, sempre bem recebidos pelo público. Quando o bandido em questão é um assassino serial, figura que exerce um intenso fascínio mórbido nas pessoas, a coisa fica ainda atraente. É o caso de “Instinto Secreto” (Mr. Brooks, EUA, 2007), um thriller bem-comportado de tintas dramáticas que segue direitinho o filão aberto por “O Silêncio dos Inocentes” (1991) e “Seven” (1995), duas produções elogiadas que costumam ser sempre citadas entre as obras mais influentes deste subgênero cada vez mais popular.

Por ter sido lançado no mesmo ano de “Zodíaco”, o retorno de David Fincher ao gênero, a comparação entre os dois títulos é inevitável – e rende um exercício crítico bem interessante. Enquanto Fincher se recusa a repetir a fórmula de “Seven”, realizando um meticuloso estudo de personagem e abordando o tema de um ângulo totalmente novo, “Instinto Secreto” não traz nenhuma novidade. Ou seja, é pura fórmula. O longa-metragem, escrito e dirigido por Bruce A. Evans (roteirista de “Conta Comigo”), sofre de excesso de personagens e linhas narrativas, que contribuem para confundir o espectador. O resultado? Um suspense previsível, que se pretende mais inteligente do que realmente é.

A história gira em torno do Sr. Brooks (Kevin Costner) do título original. Ótimo marido e pai amoroso, o milionário filantropo tem uma identidade secreta – ele é o misterioso Assassino da Impressão Digital, que vem agindo em Boston (EUA) há vários anos. Na mesma noite em que recebe o prêmio de Homem do Ano na cidade, Brooks mata um jovem casal de dançarinos. Ao contrário da frieza de antes, contudo, o milionário agora anda pensando em parar. Até vem freqüentando reuniões dos Alcoólicos Anônimos. A confusão mental o leva ao erro de deixar uma janela aberta na cena do crime. Assim, acaba sendo fotografado junto aos cadáveres por um estranho (Dane Cook) que pode ser sua ruína.

Na outra ponta do enredo, temos a detetive Tracy (Demi Moore). Encarregada de investigar os crimes do assassino misterioso, ela é filha de outro milionário, e vem enfrentando um desgastante processo de divórcio. Demonstrando dificuldade para manter a ação se movendo com rapidez e fluência, em seu segundo trabalho na direção, Bruce Evans leva metade do filme desenvolvendo nada menos que cinco linhas narrativas independentes entre si: 1) a chantagem que o fotógrafo faz ao Sr. Brooks; 2) o retorno inexplicado da filha do assassino, que abandona a faculdade e alega estar grávida; 3) a investigação do crime mais recente do serial killer; 4) o divórcio de Tracy; 5) a fuga de outro criminoso preso meses antes pela detetive.

Em meio a tantas possibilidades, Evans perde oportunidades de dar à narrativa um caminho original. Em certo ponto, o filme insinua uma crise de consciência moral no serial killer, depois que ele descobre uma informação vital a respeito da filha. Tivesse tido a coragem de trilhar este rumo estimulante e inusitado, o diretor poderia alcançar um resultado mais interessante e original. No entanto, Evans recua. Ele se mantém conservador e utiliza da fórmula clássica do manual de filmes sobre gênios do crime.

Isto significa, na prática, que todo o terceiro ato do filme está reservado para que o público acompanhe, passo a passo, o desenrolar de um golpe genial dado pelo criminoso, a essa altura bem mais humano do que no início (a principal função da trama 3 é provocar empatia no público). Como quase todos os exemplares do subgênero, a narrativa sugere que o criminoso fará uma coisa, e depois o faz passar a perna em todos (personagens e platéia), elaborando um intrincado plano que une os cinco fios da narrativa num final que pode ser plausível, mas é também melodramático e exagerado.

Como de hábito nos thrillers mais convencionais, “Instinto Secreto” serve de plataforma para tentativas de retorno de atores decadentes. Se Kevin Costner até fica bem na fita, auxiliado por um William Hurt sarcástico (ele interpreta a metade sombria do serial killer e está presente em todas as seqüências que contam com o protagonista, embora nenhum personagem além do próprio possa vê-lo), Demi Moore é prejudicada mais pelo papel do que pelas parcas qualidades como intérprete. Tracy, a detetive, não tem função ativa em nenhum momento da trama e jamais se mostra intelectualmente à altura do vilão.

Os fãs mais fiéis do gênero vão perceber que Bruce Evans pinçou muitos elementos dos títulos mais lembrados entre as histórias de serial killers. Há até uma seqüência, mostrando os detetives invadindo uma casa, que copia descaradamente uma cena idêntica de “Seven”. A dinâmica entre os personagens de Costner e Hurt remete diretamente a “Clube da Luta” (1999), filme do mesmo David Fincher. Mas é óbvio que a influência maior é mesmo “O Silêncio dos Inocentes” – Evans dá um jeito até de incluir dois serial killers na mesma trama, algo bem raro. O problema é que o Sr. Brooks, protótipo do sujeito pacato, familiar e desinteressante, está longe de ter o charme mórbido de Hannibal Lecter.

O DVD da Swen Filmes é simples e sem extras.

– Instinto Secreto (Mr. Brooks, EUA, 2007)
Direção: Bruce A. Evans
Elenco: Kevin Costner, Demi Moore, William Hurt, Dane Cook
Duração: 120 minutos

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