Instinto Selvagem 2

19/09/2006 | Categoria: Críticas

Retorno da sensual escritora interpretada por Sharon Stone xeroca a trama do filme original

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★☆☆☆☆

Vamos ser francos: “Instinto Selvagem 2” (Basic Instinc 2, EUA, 2006) é o tipo de filme que não esconde o olho grande no bolso da platéia. Todo mundo sabe o único motivo para a produção ter saído do papel era a perspectiva de lucro alto, calcada na curiosidade (mórbida, talvez) do público quanto à boa forma da atriz Sharon Stone. E a musa, que não é boba nem nada, andou dando entrevistas dizendo que pressionou os roteiristas Leora Barish e Henry Bean (responsáveis pelo bom “Tolerância Zero”) para que botassem no filme o máximo possível de cenas em que ela aparecesse sem roupa.

O maior motivo pessoal para assinar o contrato da continuação de “Instinto Selvagem” (1992), segundo Stone, era verificar se, aos 48 anos de idade, ainda era capaz de provocar ereções nos rapazes e caretas de ciúme nas meninas. Pois bem, missão cumprida: ela consegue, já que o corpo está com tudo em cima. A verdade é Sharon, os produtores e o diretor Michael Caton-Jones não precisavam ter se dado ao trabalho de filmar uma história confusa, insípida e derivativa, quase xerocada do filme realizado 14 anos antes, apenas para que a platéia pudesse vê-la pelada. Se era só mostrar a estrela nua que os produtores queriam, bastava ter feito um curta-metragem, ao invés de obrigar a platéia a ver uma tortura chique de quase duas horas.

A continuação do já clássico longa-metragem de 1992 era previsível. O thriller sensual com pitadas de noir apareceu no momento certo, quando se falava muito sobre a derrocada do preconceito contra as mulheres. Por mostrar a versão light de uma dominatrix – ou seja, uma gata que fazia o que bem entendia com os homens – fez grande sucesso. Além disso, gerou uma das cenas mais emblemáticas dos anos 1990, a famosa cruzada de pernas de uma Sharon Stone sem calcinha. A seqüência fez da atriz uma estrela de primeira grandeza e entrou direto no imaginário coletivo sobre a década, sendo revisitada em inúmeros filmes e comerciais de TV.

Ocorre que Sharon Stone queria ser uma atriz respeitada. Por isso, passou anos se recusando a discutir a possibilidade de uma continuação. Por força das circunstâncias, porém, a musa só conseguiu um grande papel após o filme com Michael Douglas – “Cassino”, de Martin Scorsese, em 1995 – e foi, aos poucos, sumindo da mídia. Talvez por isso, viu na realização de “Instinto Selvagem 2” a última oportunidade de faturar uma grana preta (fala-se em cerca de US$ 20 milhões), antes de entrar oficialmente na meia-idade, quando os bons papéis femininos ficam reconhecidamente raros em Hollywood, e os salários despencam. O raciocínio acima explica porque “Instinto Selvagem 2” finalmente aconteceu em 2006, não antes, e nem depois.

Para alcançar o maior número possível de espectadores, o diretor Caton-Jones optou pela segurança de um caminho já trilhado antes com sucesso: simplesmente encomendou uma variação do roteiro do filme de 1992. De fato, a trama da continuação xeroca os passos do primeiro longa-metragem de maneira quase idêntica, trocando apenas o local da ação – ao invés de San Francisco (EUA), a escritora Catharine Trammell (Stone) agora mora em Londres. Munida de um atrevido olhar fatal e lingeries cheias de fendas estratégicas, a moça (nem tanto) continua manipulando todos ao seu redor, tanto homens quanto mulheres, com o único propósito de usar essas experiências na literatura que produz.

Logo no princípio do filme, ela provoca um acidente de carro em que um famoso atleta, com quem está tendo um caso, morre. O detetive responsável pelas investigações, Roy Washburn (David Thewlis), desconfia de assassinato e suspeita de Trammell. Pede, assim, que o renomado psicólogo Michael Glass (David Morrisey) faça uma avaliação psiquiátrica da mulher. Daí para a frente tudo é previsível: Glass – o verdadeiro protagonista do filme, já que o ponto de vista da ação é o dele – vai sendo envolvido aos poucos envolvido pela dama fatal, e uma série de assassinatos ligados a um obscuro caso do passado do psicólogo começa a acontecer, tornando ambos suspeitos. Em meio a tudo isso, abundantes cenas de sexo light, com sugestões de sadomasoquismo e lesbianismo, mas sem genitália desnuda.

A falta de pudor do diretor Caton-Jones é tanta que ele chega mesmo a incluir uma cena, absolutamente gratuita, que mostra Catherine Trammell quebrando gelo com o uso de um picador, mesma arma utilizada nos assassinatos do filme de 1992. Pouco importa que nenhum dos crimes cometidos pelo assassino de “Instinto Selvagem 2” use um picador de gelo como arma. O importante mesmo, para o cineasta, é evocar o máximo que pode a iconografia da produção original. E falando em ícones, é preciso dizer que a imagem mais poderosa de “Instinto Selvagem” – Sharon Stone cruzando as pernas – não é repetida aqui. Afinal, a atriz pode estar em forma, mas ainda não ficou maluca.

O disco da Buena Vista é simples e sem extras. A imagem preserva os enquadramentos originais (widescreen anamórfica) e o som é OK (Dolby Digital 5.1).

– Instinto Selvagem 2 (Basic Instinc 2, EUA, 2006)
Direção: Michael Caton-Jones
Elenco: Sharon Stone, David Morrisey, David Thewlis, Charlotte Rampling
Duração: 114 minutos

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