Instinto Selvagem

04/12/2006 | Categoria: Críticas

Thriller erótico de Paul Verhoeven criou uma das mais emblemáticas imagens do cinema dos anos 1990

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

cdA cada década que se passa, o cinema de Hollywood consegue produzir algumas imagens icônicas poderosas, que penetram diretamente no imaginário coletivo popular. São imagens maiores, muito maiores do que os filmes às quais pertencem; o espectador pode até não ter visto o longa-metragem em questão, mas vai reconhecer sem problemas uma foto da tal cena, se a vir. O assassinato no chuveiro em “Psicose” (1960) é um exemplo desta teoria. Já para a década de 1990, a imagem mais poderosa produzida pelo cinema comercial pertence a “Instinto Selvagem” (Basic Instinct, EUA, 1992). Não é preciso ser nenhum cinéfilo para saber de que seqüência estou falando. Você já sabe.

A lendária cruzada de pernas da atriz Sharon Stone, diante de um grupo de boquiabertos detetives da polícia de San Francisco (EUA), representa perfeitamente um microcosmo da aura de controvérsia e polêmica que se fechou sobre o trabalho do diretor holandês Paul Verhoeven. Cada um dos envolvidos na seqüência tem uma versão particular sobre o que aconteceu nos bastidores. Stone jura de pés juntos que o diretor pediu que ela retirasse a calcinha, na hora de gravar, porque o tecido branco estaria jogando um reflexo involuntário na câmera. Ela diz que não sabia que teria os pêlos pubianos filmados em close. Já Verhoeven dá risada dessa história e garante que Sharon sabia perfeitamente de que modo seria filmada, e agora está fazendo doce.

De um jeito ou de outro, é fato que o status de Sharon Stone na indústria cinematográfica deu um saldo gigantesco após a intensa polêmica que o nu frontal causou no público. A atriz tornou-se estrela de primeira grandeza, filmou com Scorsese (“Cassino”, de 1995), ganhou fama de devoradora de homens e ficou milionária. A carreira de Verhoeven seguiu o rumo oposto, descendo a ladeira da fama ruidosamente. Até mesmo Michael Douglas, o astro masculino principal, teve o prestígio de homem de família alterado pela repercussão brutal. Ele pediu o divórcio e se internou em uma clínica de reabilitação, para se recuperar de uma crise de compulsão por sexo.

Você pode perguntar: mas, afinal, e o filme? Resposta: é um thriller de mistério correto, interessante sem ser genial, repleto de referência pouco sutis à obra de Alfred Hitchcock (todos os vestidos usados por Sharon Stone são cópias das roupas utilizadas por Kim Novak em “Um Corpo que Cai”) e entupido de palavrões. A história enfoca o relacionamento obsessivo que nasce entre o detetive Nick Curran (Douglas) e a escritora Catherine Trammell (Stone). Ele é um agente cheio de problemas pessoais, encarregado de investigar o assassinato de um astro do rock aposentado. Ela é uma milionária panssexual, com uma compulsão toda especial por furadores de gelo, que se torna principal suspeita do crime e parece disposta a levar à cama qualquer ser com duas pernas que cruze seu caminho.

Como história de detetive, “Instinto Selvagem” não traz grandes novidades, e segue a tradicional fórmula “whodunit”, que estimula o espectador a tentar descobrir a identidade do assassino por contra própria – pena que as opções não sejam muitas, e mais ou menos na metade já seja possível ter uma boa idéia do que está acontecendo em torno do pobre diabo Nick, cada vez mais enterrado em problemas. Curiosamente, o filme acabou gerando muita discussão, inclusive em nível acadêmico, por seu retrato misógino do comportamento sexual feminino, que passava então por uma período particularmente agressivo naqueles tempos pós-Madonna. Por um motivo ou por outro, vale uma boa conferida. Só não espere uma obra-prima.

O DVD nacional, lançado pela Universal, é duplo e tem grande quantidade de material extra. O disco 1 traz o filme com qualidade boa de imagem (wide 2.35:1 anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1), mais dois comentários em áudio, um reunindo o diretor Verhoeven e o fotógrafo Jan De Bont, ambos holandeses, e o segundo oferecendo uma análise detalhada dos personagens com a crítica literária Camille Paglia. O disco 2 tem como prato principal uma longa e franca entrevista de Verhoeven para a TV holandesa (48 minutos), mais um featurette da época (7 minutos), uma bizarra amostra de como o filme foi dublado para aparecer sem palavrões na TV norte-americana, três cenas com comparações entre storyboards e resultado final, mais um trailer.

– Instinto Selvagem (Basic Instinct, EUA, 1992)
Direção: Paul Verhoeven
Elenco: Sharon Stone, Michael Douglas, Jeanne Tripplehorn, George Dzundza
Duração: 128 minutos

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