Interlúdio

16/04/2008 | Categoria: Críticas

Hitchcock constrói um híbrido perfeito de thriller de espionagem e drama romântico ousado

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Ao entrevistar o mestre do suspense para o famoso livro que lançou na década de 1960, François Truffaut afirmou considerar “Interlúdio” (Notorious, EUA, 1946) o melhor filme da primeira fase de Alfred Hitchcock (1940-1950) em Hollywood. É uma afirmativa difícil de fazer, mas fácil de concordar. O clássico romance de espionagem compete com obras-primas do naipe de “Rebecca” (1940), único trabalho do inglês a faturar o Oscar de melhor filme, e “Festim Diabólico” (1948) – e mesmo assim, Truffaut parece ter razão. Ancorado na simplicidade narrativa e na elegância visual, Hitchcock conseguiu construir um híbrido perfeito de thriller de espionagem e drama romântico ousado.

“Interlúdio” consiste, na verdade, de dois filmes organizados habilmente em uma só estrutura narrativa. Ambas são histórias eletrizantes, emocionantes, perfeitas. Na superfície, o longa-metragem é uma história de espionagem, em que dois espiões norte-americanos precisam desvendar um diabólico plano concebido por fugitivos nazistas no Rio de Janeiro, logo após a II Guerra Mundial. Neste nível, “Interlúdio” é empolgante, mesmo sem conter uma única cena de ação física. A outra história – aquela que realmente interessa – é mais profunda, mais dramática e mais universal. Trata-se do velho triângulo amoroso clássico, em que dois homens disputam o amor de uma mulher. Uma segunda camada de significados, ainda mais rica e eletrizante do que a primeira.

A gigantesca fama adquirida pelo mestre do suspense se solidificou a partir de uma constatação: durante um filme de Hitchcock, a platéia se sente absolutamente envolvida pela ação dramática, muitas vezes sem se dar conta de que existe, por trás daquelas tramas fluidas e absolutamente vibrantes, um contador de histórias se esforçando para fazê-lo da melhor maneira possível. Os filmes de Hitchcock parecem simples. As histórias que o mestre do suspense conta parecem se desdobrar naturalmente diante do espectador, sem que este sinta o esforço realizado pelo diretor para narrá-las da forma clara. São raros os cineastas que alcançam o grau de segurança de Hitchcock. E “Interlúdio” está entre as histórias mais bem contadas pelo cineasta.

O enredo, concebido em parceria por Hitchcock e Ben Hetch, é construído do ponto de vista de uma mulher de caráter duvidoso. Alicia (Ingrid Bergman) é a filha americana de um ex-líder nazista. Ela trabalha como acompanhante de homens mais velhos, e é vista freqüentemente bêbada. Cooptada por Devlin, um charmoso agente dos EUA (Cary Grant), a moça viaja ao Rio de Janeiro para executar uma missão secreta – tão secreta que nem ela sabe qual é. Os dois se apaixonam, embora ele não reconheça isto abertamente. Mas a relação é abalada quando a missão finalmente se revela. Alicia precisa criar uma conexão romântica com Sebastian (Claude Rains), velho amigo do pai dela, que lidera uma conspiração nazista no pós-guerra. Uma vez infiltrada na gangue, a moça poderá passar informações para os EUA, de forma que os norte-americanos saibam o que eles estão tramando.

Obviamente, há aí um componente sexual que Hitchcock, graças à rígida censura da época, não pode enfatizar abertamente. Para cumprir a missão, Devlin precisa deliberadamente jogar a amada nos braços de outro. Alicia, por sua vez, deve encarar a insuportável idéia de ir para a cama de outro, bem nas barbas do homem que ama. Em circunstâncias normais, eles se negariam a fazê-lo e iriam viver a tórrida paixão em outro lugar, mas aí não haveria filme. As circunstâncias não são normais. Devlin é um sujeito orgulhoso, e o passado promíscuo de Alicia o assombra. O mesmo passado, por sinal, que a impede de pressionar o amado para impedir que o plano seja levado a cabo. Alicia espera que Devlin reconheça que a ama e a tire das garras dos nazistas. Isto nunca acontece. Sem que nenhum dos dois fale sobre o assunto, as coisas seguem em frente, apenas para se complicarem mais e mais.

Hitchcock faz um trabalho brilhante com o roteiro, recusando-se a expor o drama íntimo dos protagonistas em palavras. A tensão sexual é trabalhada no subtexto, através de insinuações, diálogos de duplo sentido e olhares. Algumas das melhores cenas do trabalho lidam magnificamente com este subtexto, de forma que apenas Devlin e Alicia (e a platéia) compreendem inteiramente a natureza do drama que se desenrola. É o caso, por exemplo, da magnífica cena em que a moça, um tanto desorientada, procura o escritório dos agentes americanos no Rio de Janeiro para comunicar que o vilão acaba de lhe pedir em casamento. Secretamente, ela guarda a esperança de que o amado impeça o plano de seguir em frente. Do outro lado, ele se tortura com as dúvidas. Será que ela abandonou mesmo o passado condenável? Será que está se divertindo nas noitadas ao lado de Sebastian? Será que ela o ama?

Como thriller de espionagem, “Interlúdio” também é maravilhoso, como comprova a extraordinária seqüência da festa de apresentação de Alicia à alta sociedade do Rio de Janeiro. Trabalhando junto, apesar das animosidades sempre crescentes, o casal precisa invadir um cômodo proibido para descobrir o que exatamente os nazistas estão tramando. A tomada de abertura da seqüência é uma tour-de-force visual: um plano geral, visto do alto, em que a câmera faz um movimento fluido até focalizar, em close, a mão de Alicia, que segura um objeto essencial para os planos dos agentes norte-americanos. Hitchcock usa e abusa da montagem paralela como recurso para gerar mais tensão, e conta com um desempenho maravilhoso de Ingrid Bergman para dar vida e cor à personagem. Talvez seja a melhor interpretação da atriz sueca, o que é notável, considerando que ela fez “Casablanca” (1942).

Por sua vez, Cary Grant não fica atrás da parceira. A cena em que ele esquece a garrafa de champanhe no escritório, ao descobrir sobre a intenção dos superiores de mandar Alicia direto ao covil do inimigo, é um dos grandes momentos do filme (um momento que Hitchcock amplifica, aliás, ao encerrar a última tomada da cena com um close da garrafa, congelando uma imagem que funciona simultaneamente como símbolo da desorientação do espião apaixonado e como pista de eventos futuros). De quebra, Hitchcock consegue ainda uma performance discreta e poderosa de Claude Rains, o único membro do elenco a conseguir uma indicação ao Oscar (de coadjuvante). O ator alcança a proeza de conferir humanidade ao vilão, interpretando como um homem tão apaixonado que se torna bobo, e isto faz a platéia sentir simpatia por ele. Além de tudo isso, o cineasta nos brinda com uma inesquecível seqüência final, em que as duas tramas paralelas são concluídas de forma surpreendente. Em resumo, um filmaço.

O filme foi lançado no Brasil pela Continental Home Vídeo. A edição é simples, sem extras, e o filme aparece com qualidade razoável de imagem (4:3, fullscreen) e áudio (Dolby Digital 1.0).

– Interlúdio (Notorious, EUA, 1946)
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: Ingrid Bergman, Cary Grant, Claude Rains, Louis Calhern
Duração: 102 minutos

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