Intérprete, A

02/10/2005 | Categoria: Críticas

Clássico thriller de suspense sobre política internacional embala pensamento liberal dos EUA no plano internacional

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Todo o prestígio do diretor Sidney Pollack foi necessário para que a produção de “A Intérprete” (The Interpreter, EUA, 2005) conseguisse sua maior e mais extraordinária façanha: receber permissão da ONU para se tornar a primeira produção cinematográfica a utilizar o verdadeiro prédio das Nações Unidas, em Nova York, como principal locação do longa-metragem. Além de enorme economia no orçamento de US$ 80 milhões, o filme também conseguiu um tremendo golpe de marketing, tendo garantido grande credibilidade para uma trama que, de outra forma, poderia ser considerada inverossímil com certa facilidade.

O enredo tem uma apresentação simples e clássica. A poliglota Silvia Broome (Nicole Kidman), que trabalha como intérprete na ONU, ouve sem querer uma estranha conversa travada por desconhecidos em um raro dialeto africano, dentro do prédio. O diálogo cifrado parece indicar um plano secreto para assassinar o presidente de Mutombo, república imersa em uma guerra civil, cujo líder político está prestes a ser denunciado por crimes contra a humanidade. O político, em uma tentativa desesperada para evitar o tribunal, vai fazer um pronunciamento na ONU dentro de alguns dias.

A denúncia de Broome vai parar nas mãos do agente Tobin Keller (Sean Penn), do Serviço Secreto dos EUA. Ele é indicado como responsável por investigar a moça e descobrir se o improvável atentado tem alguma chance de ser mesmo realizado. Ao iniciar a investigação, Keller desconfia da história de Silvia e começa a investigá-la, acabando por descobrir que a mulher morou durante muitos anos em Mutombo e possui relações contraditórias com o alvo do suposto atentado. Será que ela está mentindo? Se sim, quem está protegendo? E qual o interesse dos assassinos em matar um notório criminoso de guerra?

Este é um clássico exemplar de thriller de suspense com conotações políticas. Lembra demais o filme mais famoso de Pollack, “Os Três Dias do Condor”, que também mostrava um funcionário governamental atormentado e perseguido por misteriosos sujeitos que ele não conhece e nem sabe quem são. O diretor acerta, porém, ao colocar atualizar a agenda de preocupações políticas, fazendo com que temas como o terrorismo internacional, bem como os verdadeiros genocídios por questões de raça cometidos em países africanos, ganhem generoso espaço na trama. São temas caros ao mundo pós-atentado de Nova York. “A Intérprete” é sintonizado com a realidade da política internacional do século XXI.

Por outro lado, o filme parece decalcar a trama, o visual e a estrutura narrativa das antigas tramas de espionagem da década de 1970, como o já citado filme de Pollack e “O Dia do Chacal”. Na verdade, “A Intérprete” poderia ter sido tirado de algum best seller de Frederick Forsythe. Algumas pessoas podem considerar o filme fadado ao fracasso por causa dessa aura de cinema clássico, conservador em sua estrutura. Há, aqui, muitos clichês desse tipo de longa-metragem, em especial os muitos reflexos da história pessoal da protagonista, Silvia, dentro do drama particular vivido pelo agente que a investiga.

Existem, também, situações francamente implausíveis que são propostas pelo roteiro. O mais irônico é que o filme não as ignora. Tobin Keller expõe a principal delas em um diálogo interessante: como é possível que duas pessoas, discutindo um plano de assassinato dentro da ONU, em um dialeto que só oito pessoas da casa conhecem, são ouvidas justamente por uma pessoa que conhece a língua? E mais: como é possível que justamente aquela testemunha tenha razões pessoais para esconder fatos e informações ligadas ao atentado da polícia?

O tratamento que o roteiro reserva a essa implausibilidade contém maior falha do diretor Sidney Pollack. O veterano cineasta opta por revelar ao público, logo no início, o rosto do homem ouvido por Silvia Broome. Sua câmera faz questão de mostrar que a intérprete está sendo seguida e monitorada pelo grupo responsável pelo atentado. Embora não revele as conexões entre os dois principais líderes rebeldes de Mutombo e o responsável pela trama de assassinato, cuja identidade permanece em segredo até o final, o filme reabilita de imediato a figura de Silvia Broome.

Em outras palavras, a platéia sabe que ela é inocente; sabe que ela ouviu mesmo uma conversa, e sabe que existe um atentado em preparação. Se Broome está deixando de contar uma coisa ou outra ao agente Tobin Keller, o público tem certeza de que esses elementos não são importantes para a resolução do mistério. Ou seja, Silvia Broome é uma pessoa “do bem”, e o espectador tem certeza disso. “A Intérprete” funcionaria muito melhor se o diretor tivesse optado por uma personagem mais misteriosa, cujas motivações permanecessem sob um véu de mistério até o final da trama. Muitas das situações de suspense propostas pelo roteiro são esvaziadas por isso. A polícia desconfia da mulher, mas o público sabe que ela não é uma criminosa.

Apesar desses problemas, e talvez de forma surpreendente, “A Intérprete” não é ruim. Há muitas qualidades aqui. Sidney Pollack, por exemplo, demonstra mais uma vez habilidade na direção de atores. Sean Penn e Nicole Kidman, ambos excelentes profissionais, estabelecem interpretações firmes, cheias de nuances emocionais. Embora o roteiro sugira (e felizmente não aprofunde) o início de uma relação entre os personagens, Penn e Kidman são tão bons que passam pelos diálogos constrangedores sem incorrer no erro do desinteresse ou da superinterpretação. Todo o elenco de apoio, incluindo a sumida – e também excelente – Catherine Keener, está confortável nos papéis.

Em resumo, “A Intérprete” é um thriller à moda antiga, com enredo razoavelmente complexo e elenco de grande qualidade. A fotografia de Darius Khondji (“Clube da Luta”) aproveita bem os imponentes salões da ONU, mas faz ainda melhor nas seqüências que se passam dentro das cabines de tradução onde ficam os intérpretes. Repletas de superfícies espelhadas, que dificultam a captação das imagens sem interferência da luz, as cabines são fotografadas magnificamente, em imagens que usam em proveito da trama misteriosa até mesmo os vidros espelhados, tradicional empecilho que diretores de fotografia gostam de evitar.

Apesar de tudo isso, roteiros, câmeras e atores não são o prato principal de “A Intérprete”. O tema pró-ONU – a diplomacia, no lugar e no momento certo, pode ser mais efetiva do que guerras – é o verdadeiro centro do longa-metragem. Este é um filme que utiliza a clássica moldura do thriller de suspense sobre política internacional para embalar, em um produto para as massas, o pensamento liberal, de “esquerda”, de parte dos grupos de entretenimento dos EUA. Dessa forma, “A Intérprete” se alinha a obras como a refilmagem de “Sob o Domínio do Mal”. Não há nada a comemorar, e nem a condenar, nisso. Trata-se de um filme eficiente, mas nada muito além disso.

A Universal lançou no Brasil o DVD completo, com extras legendados. O filme comparece no formato original (wide 2.35:1) e com áudio em portugûês e inglês (Dolby Digital 5.1). Há um comentário de Sidney Pollack, um final alternativo (3 minutos), cenas cortadas (3 minutos) e quatro featurettes (35 minutos). Um enfoca o trabalho do diretor, outro fala sobre as filmagens na ONU, um terceiro aborda o trabalho de verdadeiros intérpretes das Nações Unidas e o último traz Pollack dando uma pequena aula sobre as diferenças entre o filme exibido com enquadramento original e com cortes laterais/tela cheia. Instrutivo.

– A Intérprete (The Interpreter, EUA, 2005)
Direção: Sidney Pollack
Elenco: Nicole Kidman, Sean Penn, Catherine Keener, Jesper Christensen
Duração: 128 minutos

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