Intervenção Divina

01/08/2006 | Categoria: Críticas

Elia Suleman faz filme diferente, refrescante, que representa um tipo de cinema reflexivo e subjetivo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que concede o Oscar todos os anos, provocou um tremendo mal estar na cerimônia de 2003 quando recusou a inscrição, entre os concorrentes à estatueta de filme estrangeiro, o filme palestino “Intervenção Divina” (Yadon Ylaheyya, Palestina/França/Marrocos/Alemanha, 2003). A obra vinha de carreira elogiada no circuito de arte europeu, tendo inclusive faturado o Grande Prêmio do Júri em Cannes. O motivo da recusa de Hollywood, pasme, não era estético, mas político mesmo. É que as regras da Academia dizem que, na categoria específica, qualquer filme deve representar um país, e Hollywood não considerava, em 2003, a Palestina como uma nação estabelecida.

Ao invés de eliminar o interesse pela obra do cineasta Elia Suleiman, no entanto, o episódio provocou o efeito oposto. “Intervenção Divina” conseguiu distribuição norte-americana e, de quebra, abriu os olhos de muitos produtores independentes, como a Casablanca Filmes, que lançou a obra no Brasil. Sorte nossa: “Intervenção Divina” é um filme diferente, refrescante, e representa um tipo de cinema reflexivo e subjetivo, algo que não encontra lugar facilmente dentro daquilo que o Ocidente convencionou como cinema: a arte de contar uma história com começo, meio e fim.

“Intervenção Divina” está além disso. É um filme feito de impressões, de registros imprecisos, de fragmentos de histórias. Oferece, dessa forma, um painel agudo da questão palestina no Oriente Médio, mas vista sob os olhos ao mesmo tempo críticos, apaixonados e pacifistas de um verdadeiro artista. Elia Suleiman não é panfletário e nem objetivo. O sentimento principal quer emana de suas observações sobre o mundo em que vive é de tristeza, de solidão. “Intervenção Divina” é o olhar de alguém que se sente um estrangeiro dentro de sua própria terra, mas que a ama acima de tudo.

O filme é composto por uma série de esquetes, alguns ligados entre si, outros não. O ritmo é lento e silencioso, episódico e nem um pouco explicativo, próprio do cinema do Oriente Médio. Há uma nítida influência do movimento de filmes iranianos que inundou os cinemas de arte brasileiros na segunda metade da década de 1990, com nomes como Abbas Kiarostami. “Intervenção Divina” é cinema humanista e reflexivo, uma espécie de réquiem melancólico pela terrível situação de violência e privação de direitos individuais que existe na Palestina. O rosto do diretor, que é também o ator principal do filme, resume tudo. O olhar tristonho e contemplativo traduz a maneira como Suleman vê a situação da Palestina.

Apesar da ausência quase absoluta de trilha sonora e dos raros diálogos, há muito humor em “Intervenção Divina”. É um humor estranho, contudo, talvez exótico para nós, brasileiros, que estamos tão distantes da vida no Oriente Médio. A seqüência de abertura já realiza uma brilhante reflexão sobre a situação. Ela se passa em Jerusalém, a cidade onde Jesus foi crucificado. Em tomadas panorâmicas, vemos uma figura vestida de vermelho fugindo de um grupo de adolescentes raivosos. A figura se aproxima lentamente da câmera, até percebermos que se trata de um Papai Noel. Enquanto foge, ele vai deixando presentes caírem do saco. No alto de uma colina em ruínas, acaba esfaqueado. Não há palavras. É uma seqüência forte, que pode ser lida como comentário crítico cheio de humor politicamente incorreto.

O filme vai caminhando dentro de seu próprio ritmo e encontra alegorias e metáforas tão originais quanto brilhantes para traduzir a situação na região fronteiriça. Um homem joga o seu lixo, todos os dias, no quintal do vizinho. Outro constrói um muro que passa no meio da rua, sem a menor cerimônia. Há um senhor que insiste em empilhar metodicamente garrafas vazias no telhado da residência, por um motivo que só fica evidente após vários minutos de projeção. Alguns esquetes são interrompidos por outros e voltam depois. Outros não retornam.

A história mais longa é a que conta com a participação do diretor, chamado no filme pelas suas iniciais verdadeiras, ES. Ele dirige todos os dias até o posto de fronteira entre as cidades de Ramallah e Nazaré, controlado por uma patrulha israelense, e pára no estacionamento. Passa os dias olhando o tráfego, em silêncio. Depois, uma bela mulher palestina (Manal Khader) se junta a ele. Eles assistem ao movimento, impassíveis, de mãos dadas e sem dar uma única palavra. A mulher é protagonista de uma das seqüências mais surreais, perto do final do filme, ao se transformar em uma ninja voadora que evoca “Matrix” em poses à Jesus Cristo para bater toda uma guarnição do exército de Israel.

“Intervenção Divina” é uma estranha mistura de amor, ódio e carinho: amor pelos seres humanos, ódio por uma situação de conflito gerada por diferenças culturais inconciliáveis, carinho pela terra dividida que é o Oriente Médio. O filme não tem uma mensagem óbvia, mas possui imagens e personagens perturbadores, que ficam martelando na mente do espectador horas após terminar. É uma película poética, cheia de originalidade, e que merece uma conferida atenta de qualquer um que ainda deseja ser desafiado em uma sessão de cinema.

O lançamento em DVD é da Casablanca Filmes. O disco preserva o formato de imagem original (widescreen) e o áudio, em Dolby Digital 5.1. Não há extras.

– Intervenção Divina (Yadon Ylaheyya, Palestina/França/Marrocos/Alemanha, 2003)
Direção: Elia Suleman
Elenco: Elia Suleman, Manal Khader, Amer Daher, Jamel Daher
Duração: 92 minutos

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