Intriga Internacional

16/11/2009 | Categoria: Críticas

Cenas de ação física antológicas e subtexto de alusão sexual fazem deste um dos filmes mais lembrados de Alfred Hitchcock

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Há dois filmes distintos dentro de “Intriga Internacional” (North by Northwest, EUA, 1959). Um deles é um thriller empolgante, que insere o tema predileto de Alfred Hitchcock – o homem inocente, perseguido por um crime que não cometeu – dentro de um terreno não muito comum dentro da obra dele, que é o mundo da espionagem profissional. O outro, muito mais ousado para a época mas também bastante caro ao mestre do suspense, aborda a paixão escandalosa que nasce entre um homem e uma garota após uma tórrida noite de sexo casual dentro de um trem. A paixão é escandalosa porque ela, apesar de corresponder ao sentimento dele, também dorme com outro sujeito por dever profissional.

Cinéfilos e bons conhecedores da obra de Hitchcock não devem demorar a fazer a ponte entre “Intriga Internacional” e “Interlúdio” (1946). É uma ligação possível, sim, por pelo menos quatro motivos: 1) ambos estão entre os melhores filmes do diretor inglês; 2) têm como protagonista o galã Cary Grant; 3) envolvem espiões internacionais em enredos que giram em torno de McGuffins (dispositivos narrativos que colocam como centro da ação dramática um objeto ou pessoa cuja existência não tem qualquer significado prático); e 4) focalizam um casal apaixonado cuja mulher tem a obrigação de dormir com o inimigo.

Apesar das semelhanças e da qualidade cinematográfica idêntica, “Intriga Internacional” tem muito mais fama do que “Interlúdio”. Isso se deve basicamente a duas razões: primeiro, porque se trata de um filme colorido, realizado durante a fase mais espetacular vivida pelo diretor inglês (ele acabara de fazer “Um Corpo que Cai” e faria “Psicose” logo em seguida); e segundo, pois existem pelos menos duas seqüências de ação antológicas, reconhecíveis por qualquer cinéfilo, que estão entre as melhores de toda a obra de Hitchcock – e as cenas de ação física não existiam em “Interlúdio”, longa-metragem mais delicado, que trabalhava o drama sentimental dos personagens muito mais no subtexto do que de forma direta.

Como de hábito, Hitchcock constrói o enredo de forma simples, linear, apresentando os personagens principais e rapidamente introduzindo uma cena para colocar a platéia em posição de saber mais sobre a trama do que qualquer habitante do mundo ficcional. O enredo gira em torno de um espião chamado George Kaplan, que está sendo perseguido através do país pela gangue de Philip Vandamm (James Mason), um contrabandista de segredos políticos. Por acidente, o publicitário Roger Thornhill (Cary Grant) é confundido com o espião pelos bandidos. Ele escapa de um atentado, tenta investigar o caso por conta própria e acaba acusado cometer um assassinato dentro do prédio das Nações Unidas.

O que nem Thornhill e nem Vandamm sabem é que George Kaplan não existe. O espião que não pára de viajar foi criado como uma isca da CIA para despistar o ladrão de segredos que, sentindo-se ameaçado, pôs uma mulher encantadora no encalço de Thornhill. Eve (Eva Marie Saint) é digna integrante do clube deloiras fatais e sexualmente ousadas que Hitchcock sempre incluiu em seus filmes. Ela seduz o publicitário, mas se deixa apaixonar – e aí o filme se bifurca em duas tramas paralelas, ambas absolutamente hipnotizantes. Na superfície, o homem inocente continua sua cruzada para se livrar da acusação infundada, inclusive escapando da perseguição de um avião monomotor dentro de uma plantação de milho, em uma das seqüências de ação mais lembradas da história do cinema. O clímax do filme, que acontece sobre o Monte Rushmore (aquela montanha com os rostos de quatro presidentes dos EUA), também não fica nada a dever em termos de emoção e drama.

“Intriga Internacional” é um grande filme, realizado por um dos maiores cineastas de todos os tempos, durante uma fase em que a confiança andava nas nuvens. Graças a essa confiança, Hitchcock se permitiu rechear os diálogos com grande quantidade de alusões sexuais, de conteúdo bem mais explícito do que o habitual (uma das falas da personagem de Eva Marie Saint, quando ela diz que “não costuma fazer amor de estômago vazio”, teve que ser dublada posteriormente por causa do teor explícito). A tomada que encerra o filme – um trem entrando em um túnel – também não tenta disfarçar uma alusão sexual atrevida. Além de tudo isso, o excelente trabalho de efeitos especiais, especialmente nas já citadas seqüências de ação, contribuiu para fazer de “Intriga Internacional” um dos filmes favoritos de Hitchcock para o público cinéfilo. Uma fama merecida.

Existem duas versões em DVD, ambas da Warner. A mais antiga é simples, mas contém uma cópia digital muito boa do filme, com enquadramento original (widescreen 1.85:1 anamórfico) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1). Um ótimo documentário (40 minutos), com entrevistas dos principais envolvidos nas filmagens, é o extra mais importante. Há ainda comentário em áudio com o roteirista Ernest Lehman, dois trailers, um comercial de TV e galeria de fotos. A trilha sonora de Bernard Herrmann também pode ser ouvida isoladamente. A edição dupla traz o mesmo disco (desta vez com extras legendados em português) acompanhado de um segundo DVD, que por sua vez contém um documentário sobre a obra de Hitchcock (60 minutos) e outro sobre a carreira de Cary Grant (90 minutos).

– Intriga Internacional (North by Northwest, EUA, 1959)
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: Cary Grant, Eva Marie Saint, James Mason, Martin Landau
Duração: 131 minutos

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