Invasões Bárbaras, As

17/05/2004 | Categoria: Críticas

Roteiro dinâmico é apenas um dos inúmeros acertos no divertido e comovente longa de Denys Arcand

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

O título de “As Invasões Bárbaras” (Les Invasions Barbares, Canadá/França, 2003) pode dar uma impressão errada do conteúdo do longa-metragem. Este não é um filme histórico sobre o guerreiro Átila, mas uma pequena obra-prima que examina com agudeza o estado de coisas da civilização contemporânea. Amparado numa coleção de diálogos abundantes, fortes e bem-humorados, o filme de Denys Arcand exibe um amplo espectro de emoções humanas sem ficar lento ou chato em nenhum segundo. Um filme inteligente que diverte e emociona sem apelar para a pieguice é, nos dias de hoje, um triunfo.

A explicação para o estranho título está numa entrevista concedida por um acadêmico canadense, a que um dos personagens assiste na TV, durante o filme. A teoria do sujeito (que é, na verdade, a teoria de Arcand) realiza uma metáfora histórica para o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001. O acontecimento representaria a primeira fissura simbólica no império cultural norte-americano, tornanso-se assim o que as hordas de bárbaros foram para o império romano, no século V – o primeiro sinal evidente da ruína iminente.

“As Invasões Bárbaras” não pode ser classificado como uma continuação, mas traz de volta um grupo de personagens que Arcand criou e desenvolveu num filme de 1987, “O Declínio do Império Americano” (cujo título, aliás, tem ressonância evidente na obra posterior). Eles são professores universitários que estiveram na vanguarda dos movimentos esquerdistas do Canadá. No primeiro filme, verborrágico e provocador, os amigos discutem interminavelmente sobre sexo, política e relações humanas, traçando um espectro ambicioso sobre os rumos políticos e ideológicos do planeta.

Dezesseis anos depois, eles estão afastados pelas circunstâncias da vida, cada um morando em uma cidade diferente. No início do filme, somos apresentados a Rémy (Rémy Girard), o mais hedonista e carismático dos integrantes do grupo. Ele sofre de câncer em estado terminal. Seu filho, Sebástien (Stéphane Rousseau), vem da Inglaterra para acompanhar os últimos dias do pai, com quem jamais conseguiu estabelecer um diálogo. O rapaz, um rico operador da bolsa de valores, lida com a situação familiar do pai usando a mesma estratégia empresarial que aplica nos negócios. É ele que reúne os velhos amigos de Rémy, para que eles façam companhia ao doente nos últimos dias.

O câncer do personagem, claro, é mero pretexto para o cineasta retomar a discussão do filme anterior. Vem daí o interesse irresistível de “As Invasões Bárbaras”. O filme mostra como atitudes que parecem idealistas podem virar egoístas (ou cínicas, ou estúpidas), se examinadas após alguns anos de vida. A perspectiva dos personagens, portanto, reflete a mudança que o tempo se encarregou de realizar na maneira como eles vêem o mundo, ainda que permaneçam fiéis às mesmas idéias políticas e/ou ideológicas.

O roteiro, vencedor em Cannes 2003, é realmente excepcional, pois dá conta tanto desse microcosmo (o universo dos amigos esquerdistas) como da ambiciosa proposta de Arcand, que é reavaliar sua própria visão da trajetória cultural norte-americana. O cineasta faz isso abordando sutilmente aspectos diversos da vida urbana em metrópoles ocidentais. O texto cria situações constantes que levam o espectador a refletir sobre esse complexo sistema de vida, abordando tomas como o abismo cultural entre duas gerações, os falidos sistemas de saúde pública, a corrupção sindical, o tráfico de drogas.

Como cineasta, Arcand prova que evoluiu bastante, embora permaneça fiel ao estilo verborrágico e provocador, algo que o irresistível caráter de Rémy comprova inteiramente. Os diálogos continuam a ser o ponto forte dos filmes do diretor, mas ele constrói uma teia de relações humanas muito mais densa, conseguindo estabelecer nuanças para cada pessoa na tela, o que dá tridimensionalidade aos personagens.

Você não precisa ter assistido ao longa de 1987 para compreender esse filme, já que nenhuma ação ou cena do trabalho anterior é retomada aqui. De qualquer forma, são duas obras que travam um diálogo interessante e documentam publicamente a maturidade de um autor cinematográfico muito sólido. “O Declínio do Imperito Americano” foi lançado em vídeo e no Brasil e pode ser encontrado em locadoras com acervos antigos e bem cuidados.

– As Invasões Bárbaras (Les Invasions Barbares, Canadá/França, 2003)
Direção: Denys Arcand
Elenco: Rémy Girard, Stéphane Rousseau, Marie-Josée Croze, Dorothée Berryman
Duração: 100 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »