Invasor, O

01/09/2003 | Categoria: Críticas

Relação problemática entre periferia e classe média ganha retrato perturbador no filme de Beto Brant

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Diante do sucesso avassalador e do interminável debate sobre a estética de “Cidade de Deus”, os méritos do último longa de Beto Brant, “O Invasor” (Brasil, 2002), agora parecem bem modestos. Na época do lançamento do grande vencedor do Festival de Cinema do Recife de 2002 nos cinemas, muito se falou do bom desempenho do músico Paulo Miklos, estrando na função de ator. O falatório sobre esse aspecto da película foi tanto que outros méritos do filme – alguns bem mais incisivos e importantes – acabaram relegados a segundo plano.

“O Invasor” representa um contraponto estético muito importante para compreender integralmente o sucesso de “Cidade de Deus”. Como o irmão carioca, o filme de Beto Brant flagra o olhar assustado da classe média brasileira diante de uma fratura social que parece remeter a periferia nacional a um fosso intransponível. Ou melhor, quase instransponível. Porque o enredo do filme trata justamente de um atalho metafórico que liga esses dois mundos, tão diferentes entre si; esse atalho está personificado no invasor do título. E é justamente por causa da tematização dessa ligação entre as classes sociais que “O Invasor” funciona melhor que o filme de Fernando Meirelles.

Emblemático, o nome do filme. A trama tematiza os fatos que sucedem a realização de um serviço do assassino de aluguel Anísio (Miklos, que mostra mesmo boa atuação, mesmo que num papel caricato, que exige menos do ator). Ele mata um executivo e sua esposa, a mando dos engenheiros Ivan (Marco Ricca, muito bem) e Gilberto (Alexandre Borges), e sistematicamente passa a fazer parte do cotidiano dos assustados burgueses, aparecendo na empresa da dupla sem ser chamado e iniciando um romance com a filha do casal que matou, uma adolescente fascinada com a possibilidade de transitar no mundo desconhecido da periferia paulistana, interpretada por Mariana Ximenes.

Em primeiro lugar, chama a atenção a maneira crua, suja, feia até, como os subúrbios de São Paulo são mostrados pelas lentes de Beto Brant. Não que o cineasta tenha optado por um formato menos publicitário, menos glamourizado; “O Invasor” também investe firme na estética da espetacularização da violência, característica dos filmes do cinema hegemônico sobre a periferia. Em “O Invasor”, as cores são estouradas, amplificadas, a edição é nervosa e brutal, as imagens resultam granuladas e distorcidas. Se “Cidade de Deus” busca inspiração em Tarantino, “O Invasor” bebe da fonte de Soderbegh.

Embora possa parecer um tanto sutil, essa diferenciação estética acaba gerando um antagonismo claro entre os dois filmes. Nesse sentido, “O Invasor” parece mais bem resolvido, na medida em que consegue exibir melhor a sensação de perplexidade, o medo, o desamparo da classe média diante de uma realidade social que lhe parece estrangeira. “O Invasor” tem defeitos, mas transforma-se num passo importante para a consolidação da carreira de um dos cineastas mais promissores da nova geração tupiniquim. O DVD, para aqueles que gostam de material extra, possui um documentário, entrevistas com os atores e o cineasta e trailer.

– O Invasor (Brasil, 2002)
Direção: Beto Brant
Elenco: Paulo Miklos, Marco Ricca, Alexandre Borges, Mariana Ximenes
Duração: 97 minutos

| Mais
Tags:


Deixar comentário