Invasores

21/02/2008 | Categoria: Críticas

Nada se salva na ficção científica boba, rasa e ilógica que marcou a catastrófica estréia hollywoodiana de Oliver Hirschbiegel

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★☆☆☆☆

Elevado à condição de cineasta-sensação da Alemanha após o sucesso de “A Queda” (2004), Oliver Hirschbiegel resolveu que o passo seguinte seria o mais óbvio para todos os diretores de cinema na posição dele: emigrar para Hollywood. O resultado, ao contrário do ocorrido no passado com compatriotas do naipe de Billy Wilder e Fritz Lang, foi catastrófico. A ficção científica “Invasores” (The Invasion, EUA, 2007) passou dois anos na ilha de edição e sofreu com trechos refilmados à revelia do diretor. O resultado, ironicamente, lembra o comportamento dos alienígenas que invadem a Terra na trama: gelado, inexpressivo, completamente sem emoção. Um trabalho burocrático que abusa dos clichês e afunda num roteiro raso, bobo e ilógico.

Para se ter uma idéia do tamanho da interferência da Warner, estúdio responsável pela produção, basta dizer que foi durante as filmagens que o ator britânico Daniel Craig recebeu a notícia de que tinha sido escolhido para viver 007 pela primeira vez. Pois bem: a aventura do agente secreto fez sucesso nos cinemas, foi lançada em DVD e depois arremessada para a prateleira das antiguidades, nas locadoras, e nada de “Invasores” dar as caras nos cinemas. E o pior de tudo é que a rejeição da versão filmada por Hirschbiegel foi tão grande que o produtor Joel Silver sequer lhe pediu para modificar o resultado final, contratando os irmãos Larry e Andy Wachowski (“Matrix”) para reescrever trechos do roteiro, com cenas adicionais comandadas por James McTeigue (“V de Vingança”). Nenhum dos três recebeu crédito pelo trabalho. Natural – quem gostaria de ser associado a um filme tão ruim?

A história, baseada num romance escrito por Jack Finney nos anos 1950 e já levada três vezes ao cinema antes, modifica bastante a premissa original. De fato, cada uma das versões anteriores usava a máscara da invasão alienígena como metáfora para discutir uma agenda social (Guerra Fria, Vietnã, AIDS). Este subtexto político foi retirado por completo de “Invasores”. Sobrou apenas o senso de entretenimento – e nem mesmo neste nível básico o filme consegue funcionar. Os personagens são rasos, unidimensionais, quase constrangedores. O problema é tão sério que se pode perceber o ar de desânimo de bons atores como Jeffrey Wright (“Flores Partidas”). O papel dele, de um médico que consegue descobrir a maneira como o vírus alienígena atua dentro do corpo humano, é o pior de todos. Nas poucas cenas em que aparece, Wright se limita a recitar um discurso pseudo-científico que tenta explicar a situação. Ou seja, diálogos expositivos repletos de blá-blá-blá.

Na verdade, há pouca ficção científica em “Invasores”. A história se limita a mostrar uma mãe lutando para salvar o filho do vírus extraterrestre, que se funde com o DNA dos terráqueos depois que uma nave espacial se desintegra ao tentar entrar na atmosfera do planeta. A personagem principal, Carol (Nicole Kidman), é psiquiatra, e começa a desconfiar de algo errado quando diversos pacientes começam a se queixar que maridos, filhos e esposas não parecem mais os mesmos. O único sinal visível de que um humano está infectado é que ele se torna apático, sem demonstrar emoções. Porém, todos os atores – Daniel Craig faz um médico que é o interesse romântico de Kidman – parecem inexpressivos desde o primeiro minuto de projeção, a impressão é de que eles já estavam infectados antes mesmo que o vírus chegasse à Terra.

Para completar a catástrofe, a produção é pobre em efeitos especiais e quase não tem cenas agitadas, limitando-se a mostrar Carol e o filho correndo de um lado para outro de Washington (EUA), cenário da história. Os furos de lógica também vão se amontoando, inclusive com erros factuais graves, como na cena em que um helicóptero desce no topo de um arranha-céu, quando se sabe que uma lei federal norte-americana impede a construção de edificações mais altas do que o Capitólio na cidade em que o filme se passa. Como se não bastassem tantos equívocos, o final consegue ser, simultaneamente, exageradamente melodramático e extremamente implausível. Ou seja, “Invasores” é um daqueles filmes raros nos quais nada se salva.

O DVD da Warner contém o filme com qualidade OK de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1), além de quatro featurettes enfocando os bastidores da produção.

– Invasores (The Invasion, EUA, 2007)
Direção: Oliver Hirschbiegel
Elenco: Nicole Kidman, Daniel Craig, Jeremy Northam, Jeffrey Wright
Duração: 99 minutos

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