Invenção de Hugo Cabret, A

22/02/2012 | Categoria: Críticas

Com direção de arte espetacular e excelente uso do 3D, Scorsese exalta o passado e honra os pioneiros do cinema, ao mesmo tempo em que nos aponta um caminho possível para o futuro

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Martin Scorsese é um apaixonado por cinema. Além de sua atuação como diretor de alguns dos maiores filmes dos anos 1970 e 1980, há muitas décadas ele tem trabalhado ativamente na preservação de filmes antigos. Suas ações chamam constantemente atenção para a necessidade de preservar a história do Cinema. Em “A Invenção de Hugo Cabret” (Hugo, EUA, 2011), seu primeiro filme em 3D, Scorsese presta uma homenagem comovente ao passado do cinema, entrelaçando-a diretamente ao seu futuro através de um tratamento honesto da questão da tecnologia, que perpassa o filme diante da tela (robôs, invenções mecânicas) e fora dela (o uso do 3D, técnicas digitais de produção e manipulação de imagens).

De certo modo, o tratamento dispensado por Scorsese ao tema do cinema como fábrica de sonhos põe lado a lado, via tecnologia, o passado dos primeiros filmes do pioneiro George Mèliès aos épicos digitais em 3D que parecem estar por vir no futuro. O interessante é que, ao contrário do que muitos podem pensar, “A Invenção de Hugo Cabret” guarda muitas semelhanças inusitadas com os filmes de máfia dirigidos por Scorsese, se não nos temas e no tratamento gráfico da violência, certamente no caráter e na trajetória do protagonista. O filme poderia ser considerado uma espécie de quase-autobiografia disfarçada do próprio Scorsese, já que ele mesmo foi uma criança salva pelo cinema de uma vida na criminalidade.

O primeiro trabalho infanto-juvenil assinado por Scorsese conta a história de um menino (Asa Butterfield) que vive nos subterrâneos de uma enorme estação de trem em Paris dos anos 1930. O garoto acerta a hora dos relógios da estação, na esperança de não se fazer notar pelo severo inspetor do lugar (Sacha Baron Cohen). Hugo passa várias horas por dia tentando consertar o complicado mecanismo de um robô autômato, deixado a ele como herança pelo pai. Este autômato será o elemento de conexão entre Hugo e o dono de uma pequena loja de brinquedos na estação (Ben Kingsley), cuja fisionomia carrancuda e taciturna esconde o desgosto pessoal de um dos maiores – senão o maior – pioneiro da história do cinema.

Nesse filme, Scorsese mostra que nas mãos de um grande diretor o 3D pode ser mais do que uma tecnologia que serve apenas para lotar salas de cinema de curiosos; pode ser uma ferramenta útil na criação de um filme. Enredos que possuem essa textura onírica, de sonho, podem se beneficiar da tecnologia, apropriada para fazer os espectadores imergirem dentro de mundos estilizados, como aquele construído por Scorsese, com a colaboração da sempre ótima direção de arte de Dante Ferretti. Juntos, os dois profissionais criam uma estação de trem que funciona quase como um personagem orgânico, vivo, apinhada de gente nos grandes salões luxuosos e decorados com enormes relógios barulhentos, mas paradioxalmente cheia de labirínticos corredores sombrios e desertos, por onde os passos de um menino magricela ressoam com o eco dos pés de um gigante. Vale acrescentar que Scorsese, junto com Ferretti, consegue equilibrar visualmente com maestria os grandes cenários reais, construídos por Ferretti, e a grandiosidade dos cenários virtuais.

Isso nos leva a outro destaque técnico, que é a fotografia incrível do expediente Robert Richardson. A bela iluminação quase expressionista (mas sem fugir do tom sombrio e ameaçador da realidade, que “tenta” se impor sobre o jovem Hugo em toda a trama) rende imagens expressivas, em particular na segunda metade do filme, quando Richardson e Scorsese investem numa paleta básica de cores, para simular os processos artesanais de colorização dos filmes realizados nas primeiras décadas da história do cinema. A dupla também trabalha de maneira muito sofisticada com a profundidade de campo do 3D, explorando extensivamente as coreografias de encenação em diagonal e movendo a câmera insistentemente em linhas circulares e elípticas, de modo a reforçar os efeitos de profundidade o máximo possível, mas sem abusar das técnicas tradicionais (e já gastas) de atirar objetos na plateia para pegar peças.

A devoção de “A Invenção de Hugo Cabret” para com a história do cinema, associada à atmosfera de encantamento criada por Scorsese, pode dar aos amantes do cinema antigo o sabor de obra-prima. No entanto, não é justo afirmar que o filme inteiro chega a esse status. “Hugo” parece melhor para cinéfilos e conhecedores da história do cinema porque mexem com eles num nível emocional profundo (até porque, convenhamos, a oportunidade de ver originais de Mèliès e dos irmãos Lumière em tela grande, coloridos e em 3D, é mesmo imperdível e emocionante), e no entanto o roteiro do filme tem problemas que precisam ser lembrados.

“Hugo” pode ser dividido em duas metades bem distintas. Na primeira parte, o protagonista é o órfão; esse trecho do longa é “apenas” bom. Os conflitos que movem a história de um menino em busca de um figura paterna que garanta sua sobrevivência e felicidade guarda certa convencionalidade e depende basicamente dos diálogos expositivos para funcionar. Já a segunda metade está alinhada ao melhor que Scorsese já produziu. Essa é a parte em que a narrativa coloca os conflitos de Mèliès em primeiro plano, e o público cinéfilo pode acompanhar todo o sofrimento provocado pela falta de reconhecimento na indústria cinematográfica – dilema que tem ressonância não apenas entre amantes do cinema antigo, mas também entre os interessados na restauração de filmes clássicos pioneiros e naqueles que vêem com preocupação o futuro do cinema. John Logan, o roteirista, é esperto o suficiente para amarrar as conclusões dos dois percursos dramáticos em cenas curtas e que se sucedem, mas não há como negar que o drama de Hugo empalidece, em relação ao espírito resignado do triste diretor veterano interpretado por Ben Kingsley.

Numa leitura alternativa, também é possível propor que o filme de Scorsese não fala apenas do longínquo passado da Sétima Arte, mas também do seu futuro. Scorsese está falando do cinema como fábrica de sonhos; está falando da importância de reconhecer os pioneiros e, também, da influência inevitável que os recursos técnicos proporcionam àqueles que lidam com uma arte que depende, fundamentalmente, da tecnologia. Ele está exaltando o passado ao mesmo tempo em que nos aponta um caminho possível para o futuro. Não é por acaso que o filme foi meticulosamente planejado para ser realizado em 3D, enquanto seu diretor ao mesmo tempo honra uma arte clássica e presta sincera homenagem aos pioneiros.

– A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, EUA, 2011)
Direção: Martin Scorsese
Elenco: Ben Kingsley, Asa Butterfield, Chloe Grace Moretz, Sacha Baron Cohen
Duração: 126 minutos

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