Inverno de Sangue em Veneza

08/03/2007 | Categoria: Críticas

Horror atmosférico de Nicolas Roeg não está interessado em uma história linear, mas em sensações

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

A grande maioria dos filmes persegue o objetivo de contar uma história onde a continuidade seja perfeita. Quando um trabalho assim é bem sucedido, o espectador compreende tudo claramente e mergulha na história de tal maneira que acaba esquecendo que está vendo ficção. “Inverno de Sangue em Veneza” (Don’t Look Now, Itália/Inglaterra, 1973) não está interessado em continuidade e nem em uma narrativa linear. É um filme de sensações, que não deseja comunicar objetivamente uma história, mas construir cuidadosamente uma atmosfera de desorientação e mistério.

A primeira seqüência, verdadeira aula de montagem descontínua, deixa claro este objetivo e apresenta o filme de modo brilhante. As cenas mostram duas ações paralelas em uma mansão rural da Inglaterra. Do lado de fora, duas crianças brincam à beira de um lago; dentro da casa, um homem e uma mulher trabalham à mesa. Roeg monta as duas cenas de maneira sensacional. Ele cria conexões entre os personagens onde não existem, através de associações, sempre procurando evocar a idéia de que os adultos sentem algum tipo de pressentimento sobre o que ocorre com os meninos.

Em certo momento, por exemplo, o arqueólogo John Baxter (Donald Sutherland) olha a foto do interior de uma igreja. Ele se concentra em um ponto vermelho por trás do altar. Há um corte, e a tomada seguinte mostra a filha dele, correndo pelo gramado, vestindo uma capa de chuva… vermelha. A menina dá um grito, há outro corte, e a mãe levanta a cabeça, como se ouvisse algo. Depois a criança se aproxima perigosamente do lago, e a ação corta para dentro de casa, onde o pai derrama sem querer uma taça de vinho nas fotos, deixando uma enorme mancha vermelha na silhueta da igreja. A mensagem não é linear, mas é clara: sangue. Algo está errado.

Não há palavras. Mesmo assim, a platéia compreende perfeitamente o que Nicolas Roeg está fazendo, ao manipular a técnica do “jump cut” (cortes que rasgam a continuidade do espaço e do tempo) com uma ousadia impressionante: aqui, neste lugar isolado, acontece algo esquisito, estranho, talvez sobrenatural. Não sabemos o que é. Os personagens também não. Todos estamos desorientados, confusos; sabemos que algo ocorre, mas não sabemos o quê. Esta sensação continuará até o final do filme (e talvez até bem depois dele).

A idéia-chave para entender o filme pode ser resumida em uma palavra: pressentimento. John Baxter pressente a morte da filha, mas não consegue evitá-la. Para tentar superar o trauma, ele e a esposa Laura (Julie Christie) viajam juntos a Veneza, onde ele trabalha na restauração de uma velha igreja. Querem juntar os cacos emocionais e tentar salvar o casamento. Eles encontram duas velhas videntes em um restaurante, e elas afirmam que conseguem ver a criança morta. Dizem ter uma mensagem do além para os dois, mas não compreendem o que é. Eles pressentem que algo está por acontecer, mas não sabem o quê nem quando. Todo mundo, personagens e platéia, fica confuso.

A ambientação do longa-metragem é virtualmente perfeita. Veneza é quase um personagem: os canais escuros e becos apertados contribuem para acentuar mais e mais a sensação de desorientação. As gárgulas fazem caretas nas portas das igrejas diabólicas, como se o casal Baxter não fosse bem-vindo ali. É uma cidade úmida e fria, nada convidativa. Ainda por cima, Nicolas Roeg filmou tudo com iluminação em chave baixa, enchendo as imagens com muitas sombras e grandes contrastes.

Além disso, usou um truque inteligente para realçar o isolamento emocional do casal: retirou todo mundo das ruas, nas cenas em que John e Laura caminham pela cidade. Quando os dois estão passeando, em especial nas cenas noturnas, não há uma viva alma na rua. Está tudo deserto. O clima é lúgubre, desolado, escuro. Para conseguir esse efeito, Roeg dirigiu a câmera ele mesmo em diversas seqüências, embora o design do visual seja do fotógrafo Anthony Richmond.

Para completar, o cineasta britânico dá um uso estilizado à cor vermelha, retirando-a dos cenários e das roupas dos personagens. O vermelho só aparece em determinadas situações, sempre com grande impacto, fisgando o olho do espectador e indicando-o os elementos estranhos nas cenas mais importantes. É a presença do vermelho que desorienta tudo. A cada aparição da cor vermelha, surgem mais dúvidas. As visões de John são reais? Ele está imaginando tudo? Está à beira de um colapso nervoso, talvez? O tratamento de cores de “Inverno de Sangue em Veneza” é uma influência decisiva na obra do italiano Dario Argento.

Boa parte dos espectadores, mesmo entre aqueles que amaram cada fotograma do longa-metragem, despreza o polêmico final. A última cena é mesmo inclassificável. Chocante? Bizarra? Decepcionante? Adequada? Desimportante? Tudo isso junto? Ao final de “Inverno de Sangue em Veneza”, apenas uma certeza: este é um filme original, tremendamente criativo, feito por um cineasta cheio de confiança e no auge de sua habilidade como contador de histórias. E se nada disso é suficiente, saiba que Julie Christie está belíssima e protagoniza uma longa e visceral cena de sexo com Sutherland na metade da produção.

O filme não está disponível no Brasil em DVD, mas pode ser adquirido em lojas virtuais que vendam a edição da Região 1 (EUA), onde foi lançado pela Paramount em um disco simples, tendo apenas o trailer como extra. A qualidade de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfico) e de som (Dolby Digital 2.0) é boa.

– Inverno de Sangue em Veneza (Don’t Look Now, Itália/Inglaterra, 1973)
Direção: Nicolas Roeg
Elenco: Donald Sutherland, Julie Christie, Hilary Mason, Clelia Matania
Duração: 110 minutos

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