Invictus

15/06/2010 | Categoria: Críticas

Narrado de modo clássico e com a categoria típica de Clint Eastwood, filme dramatiza evento real da vida de Nelson Mandela

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Difícil não pensar nos heróis estóicos, taciturnos e atormentados que o ator Randolph Scott interpretou em uma série de sete westerns do cineasta Budd Boetticher, realizados no final dos anos 1950. A intimidade de seu diretor com o finado gênero nos autoriza perfeitamente a interpretar “Invictus” (EUA, 2009) como uma espécie de western contemporâneo, que resgata um dos temas mais arquetípicos do gênero: o pária social humilde e virtuoso que, após sofrer todo tipo de preconceito e humilhação, acaba sendo responsável por unir uma comunidade fraturada e decadente em torno de um ideal nobre.

A diferença crucial entre “Invictus” e a grande maioria dos westerns é que o filme de Clint Eastwood dramatiza uma situação real, protagonizada em 1995 por um dos personagens históricos mais famosos do século XX: Nelson Mandela, o símbolo da queda do apartheid na África do Sul e primeiro presidente negro da nação africana. Ao contrário do que muitos podem pensar, contudo, “Invictus” não consiste numa cinebiografia de Mandela. O filme ficcionaliza apenas uma curta passagem da vida dele, focalizando o papel que o líder negro exerceu, nos bastidores da histórica conquista da Copa do Mundo de rugby, pelo país africano, no torneio disputado lá mesmo, em 1995.

O investimento de Eastwood na caracterização de Mandela como um herói clássico do faroeste é visível em certas escolhas narrativas operadas pelo diretor. Ele se concentra, ao longo dos 133 minutos do filme, em mostrá-lo como um homem hiper-atarefado, que tinha a consciência exata do papel que precisava exercer durante a passagem pela Presidência do país: um unificador. Mandela não estava ali para vingar os séculos de humilhações sofridas pela sua raça (algo que tanto brancos quanto negros esperavam que ele fizesse), mas sim para ajudar a alcançar a paz. Nesse sentido, o filme sinaliza que a atuação dele nos bastidores esportivos foi planejada cuidadosamente para cumprir essa tarefa através do esporte.

Significativamente, Eastwood fez um filme que prioriza a relação complexa entre Mandela e o jovem capitão da seleção de rugby, François (Matt Damon), loiro filho de família aristocrática francamente hostil ao presidente. Filmando de maneira clássica, com cenas longas e decupadas em planos gerais que não se apressam para sair do caminho, Eastwood valoriza o trabalho dos dois ótimos atores, que brilham sem precisar fazer grande esforço. O ponto de vista do filme não é o de Mandela, mas o de François. Aos poucos, o esportista vai compreendendo o plano do líder negro, sem que este precise dizer-lhe explicitamente, enquanto sua hostilidade dá lugar a uma crescente admiração.

Ótimo diretor de melodramas, Eastwood filma tranqüilo e faz jus ao velho ditado de que os bons vinhos melhoram quando envelhecem. Ele parece narrar a história sem esforço, fazendo o enredo se desdobrar diante do espectador de forma orgânica. Embora tenha 133 minutos, a economia narrativa é evidente. O cineasta opta por descartar toda a vida pessoal de Mandela, fazendo uma única referência velada aos seus problemas familiares (numa cena curta em que o presidente sai para caminhar com os seguranças e retorna, contrariado, quando um deles lhe pergunta sobre a família). Boa parte do filme é dedicada à reconstituição das partidas de rugby, momentos em que a narratyiva poderia ficar chata, mas Eastwood evita o problema editando as partidas com abundantes inserts da reação do público às jogadas, o que permite a quem não entende nada do esporte – como a maioria dos brasileiros – compreender o que está se passando dentro de campo.

Além disso, o diretor veterano ainda nos brinda com cenas curtas, pequenos momentos de suspense e drama, aparentemente desconectados da ação dramática principal, e que ajudam a modular a tensão do filme. É o caso da seqüência do vôo rasante de um avião comercial em direção ao estádio, justo no dia da final (obviamente, uma cena que ecoa de modo bem mais dramáticos nos norte-americanos), e também da cena final,m que envolve dois policias brancos e um menino negro. “Invictus” não chega ao nível de “Menina de Ouro” ou “Sobre Meninos e Lobos”, mas mostra que Clint Eastwood continua cheio de fôlego, energia e categoria.

O DVD da Warner traz o filme no formato correto de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1) e um punhado de extras que incluem making of do filme, documentário sobre a obra de Eastwood e um featurette curioso com Matt Damon aprendendo a jogar rugbi.

– Invictus (EUA, 2009)
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Morgan Freeman, Matt Damon, Adjoa Andoh, Tony Kgoroge
Duração: 133 minutos

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