Irina Palm

27/03/2009 | Categoria: Críticas

Discreta e surpreendentemente otimista história de amor sobre a segunda chance de uma senhora de 70 e poucos anos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

A situação de Maggie (Marianne Faithfull) no início de “Irina Palm” (Bélgica/Inglaterra, 2007) é digna de novela mexicana. Viúva na faixa dos 70 anos, oriunda de uma família trabalhadora inglesa, ela não tem condições financeiras de ajudar o neto de seis anos a superar uma doença letal. O tratamento para a enfermidade é caro, precisa ser feito na Austrália, e os pais do garoto não podem bancá-lo. Maggie, que vive uma vida tranqüila cuidando do jardim e fofocando com as vizinhas da mesma idade, também não. Ela decide deixar a zona de conforto alienante da residência, num subúrbio proletário de Londres, para arregaçar as mangas e ajudar a criança a sobreviver. Ela não sabe, mas do processo emergirá uma nova mulher.

O ponto de partida de “Irina Palm” possibilitaria um melodrama lacrimoso com enorme potencial para o dramalhão (pense no quanto esta mulher sofreria, por exemplo, nas mãos de um Lars Von Trier). Por sorte, o jovem e talentoso diretor belga soube transformá-la numa discreta e surpreendentemente otimista história de amor, um drama bem-humorado (ou comédia dramática, você decide) que se insere na abundante linhagem dos filmes que abordam a chamada “segunda chance”. Graças à abordagem sóbria (em certos momentos, até demais), o longa constrói um belo estudo de personagem, enriquecido pelo background pessoal da intérprete Marianne Faithful, cujo passado cheio de excessos adiciona uma camada extra de ironia e mordacidade às situações insólitas vividas pela senhora aposentada.

Sim, insólitas. Porque a solução encontrada por Maggie para arrecadar o dinheiro necessário ao tratamento do neto vem de uma fonte bastante incomum. Após percorrer a tradicional via crucis em bancos e agências de trabalho, tentando conseguir empréstimos ou empregos impossíveis, Maggie acaba esbarrando com uma placa que anuncia vagas, na porta de um sex club. Mesmo horrorizada, ela decide tentar a sorte. É recebida por um imigrante sérvio (Miki Manojlovic), homem de coração endurecido por anos dedicados à causa da pornografia. Ele contém o impulso de mostrar a porta da rua àquela senhora encarquilhada, e reconhece nela mãos macias. É assim que Maggie vira a misteriosa Irina Palm, donzela especializada em masturbar homens que vivem fantasias sexuais esdrúxulas, enfiando os respectivos pênis em buracos na parede para obter prazer de fonte desconhecida.

“Irina Palm” pertence a uma linhagem não muito conhecida de comédias britânicas, em que pessoas de meia-idade recebem uma inesperada segunda chance na vida (“O Barato de Grace”, sucesso no Festival de Sundance em 2000, é o exemplar mais conhecido). Curioso perceber, também, como o filme se adequa perfeitamente ao ambiente cultural de Londres, como bem observou o crítico Kleber Mendonça Filho, e não apenas no sentido sexual (a capital inglesa é conhecida pela relação ambivalente, de fascínio e repulsa simultâneas, a conceitos ligados ao sexo). Este dado é especialmente interessante quando se sabe que o roteiro original, escrito pelo diretor Sam Garbarski, localizava a história em Bruxelas, tendo sido transportado para Londres simplesmente porque o financiamento dos US$ 4,5 milhões do orçamento veio de lá.

Questões como imigração, desemprego e vida na terceira idade – idade na qual a nossa cultura social supõe que as pessoas devam ficar em casa, esperando a morte – são abordadas com delicadeza e sobriedade. Vez por outra, Garbarski se desvia da ação principal para pincelar rápidos comentários sociais, como é o caso da subtrama envolvendo outra trabalhadora do sexo, a jovem Luisa (Dorka Gryllus), encarregada de auxiliar a heroína no período de adaptação à atividade pouco convencional. No entanto, o diretor não cede à tentação de se desviar demais da trama principal. Até mesmo o drama da criança doente, que poderia render um filme inteiro só para si, é abordado de forma lateral, superficial. Garbarski não esquece que a protagonista, aqui, é Maggie.

E a jornada de mulher, além de fascinante, é surpreendente. O asco inicial com que se entrega ao trabalho é, aos poucos, substituído por um espírito empreendedor que ela pensava não ter. Mesmo num ambiente sórdido como um sex club, relações de amizade, admiração e carinhos começam a aparecer. Aos poucos, Maggie começa a perceber que o trabalho lhe deu não apenas um novo círculo de convivência, mas também uma perspectiva de vida inteiramente nova. Ainda que o terceiro ato dissipe um pouco a força do que veio antes, flertando com convenções típicas do melodrama, o filme se sustenta como uma obra original e interessante.

Como aspecto negativo, pode-se apontar apenas o retrato excessivamente pudico, certinho demais, do submundo da pornografia. As drogas que bebidas que estão sempre associadas a este universo nunca dão as caras aqui. E observe como os enquadramentos e ângulos de câmera são cuidadosamente organizados, de forma que nenhuma imagem mais picante seja mostrada. Em se tratando de um filme cuja ambientação acontece quase toda em boates de sexo explícito, esta estética “censura livre” soa estranha, anti-naturalista. Um pouco de crueza e realismo na narrativa – que não precisariam vir necessariamente de imagens explícitas – seriam bem-vindos. De qualquer forma, “Irina Palm” é uma surpresa positiva.

O DVD da Imovision é simples, respeita o enquadramento original (widescreen anamórfico) e traz áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1), mas sem extras dignos de nota.

– Irina Palm (Bélgica/Inglaterra/Luxemburgo/Alemanha/França, 2007)
Direção: Sam Garbarski
Elenco: Marianne Faithful, Miki Manojlovic, Kevin Bishop, Dorka Gryllus
Duração: 103 minutos

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