Irma Vap – O Retorno

10/08/2006 | Categoria: Críticas

Comédia cínica de Carla Camurati flerta com linguagem do teatro e tem atuação de gala de Marco Nanini

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Uma coincidência curiosa pontua a produção cinematográfica brasileira no primeiro semestre de 2006. A safra possui vários filmes que realizam uma tentativa auto-consciente de transcender a linguagem tradicional do cinema, aproximando-a tanto quanto possível do teatro. Pelo menos três produções que ganharam lançamento no mesmo período, separadas por algumas semanas, buscam, cada um à sua maneira, este mesmo objetivo. Elas são o hermético “Um Crime Delicado”, de Beto Brant, o romântico “A Máquina”, de João Falcão, e a comédia cínica “Irma Vap – O Retorno” (Brasil, 2006), de Carla Camurati. Os dois últimos alcançam um resultado bem parecido, o que faz deles um caso interessante e peculiar de filmes-irmãos.

“Irma Vap” merece menção especial por três motivos. Primeiro, por levar a assinatura de Camurati, autora profundamente identificada com o período de retomada do cinema brasileiro (de 1994 para frente); foi ela quem fez o primeiro grande sucesso de público do período, “Carlota Joaquina” (1995). Segundo, por realizar uma corajosa tentativa de transpor para o cinema uma história difícil de virar filme, pois foi talhada para os palcos e, além disso, possui um histórico de enorme sucesso no Brasil: a peça “O Mistério de Irma Vap”. Terceiro, por se tratar de uma grande produção que aposta todas as suas fichas no poder do ator para cativar a audiência, algo não muito comum nestes dias, quando todos os outros elementos do filme – fotografia, cenografia, música, diálogos – parecem tão mais importante do que as pessoas que desfilam diante das câmeras.

A semelhança entre “Irma Vap – O Retorno” e “A Máquina” não é mera coincidência, uma vez que parte dos envolvidos da produção de João Falcão também consta dos créditos do filme de Carla Camurati. É o caso da roteirista Adriana Falcão, que co-assina o texto de “Irma Vap”, junto com Camurati e Melanie Dimantas (e aparece também numa ponta logo na abertura, durante um enterro). Por isso, não chega a surpreender que os criadores das duas produções cheguem a se referir a ambas, em situações diferentes, utilizando expressões similares. Quando veio ao Recife divulgar “A Máquina”, em março, João Falcão deu entrevistas dizendo que o roteiro do seu filme tinha sido escrito “um tom acima do real”. A mesmíssima frase está impressa no release oficial de “Irma Vap”, atribuída a Carla Camurati.

Nos dois casos, a expressão está correta. “Irma Vap”, como “A Máquina”, não tenta reproduzir a realidade, mas ampliá-la, distorcê-la, reconstruí-la. São duas histórias de faz de conta que se assumem como tal. Em que pese o fato de pertencerem a gêneros fílmicos bem diferentes – a obra de João Falcão é uma leve história de amor que guarda algo da inocência de “Amèlie Poulain”, enquanto Carla Camurati fez uma comédia debochada e cínica que flerta com produções B de mistério – os dois filmes adotam soluções visuais muito semelhantes para atingirem os resultados pretendidos. Figurinos, iluminação, uso de cores e cenários são teatrais, lúdicos, quase oníricos – mais exagerados em “A Máquina”, um pouco mais sutis em “Irma Vap”. Beto Brant é um capítulo à parte nessa história, já que filma com ultra-realismo, mirando outro tipo de público (mais reduzido, mais exigente) e com indisfarçável pretensão artística, algo que em “Irma Vap” e “A Máquina” é secundário. Estas são duas peças de entretenimento, puro e simples.

O projeto de Carla Camurati surgiu em 2001. A cineasta carioca já acalentava a idéia de levar a vitoriosa peça “O Mistério de Irma Vap” para a telona há vários anos. Ainda em 1990, ela fez um curta-metragem, “Bastidores”, documentando o que acontecia atrás das cortinas em uma frenética apresentação do espetáculo, pelo qual era apaixonada. A peça em si dispensa apresentações. Foi apresentada por onze anos consecutivos nos palcos brasileiros, sendo vista por três milhões de espectadores e entrando para o Guiness Book por ser o espetáculo teatral que mais tempo passou em cartaz sem trocar os atores. Marco Nanini e Ney Latorraca, parceiros no teatro, retornam no cinema, novamente interpretando quatro personagens cada um, entre homens e mulheres. Ambos são creditados como produtores executivos.

A história contada, porém, não é a mesma. Nem poderia. Logo ao começar a pré-produção do filme, em 2001, Camurati percebeu que não poderia simplesmente transportar a peça para a tela grande. Grande parte do charme do espetáculo, afinal, era o ritmo frenético com que Nanini e Latorraca trocavam de figurinos, várias vezes por apresentação. Sem falar que os dois estavam bem mais velhos, o que inviabilizava alguns personagens. Por isso, Carla preferiu escrever uma história totalmente original, partindo de uma brincadeira metalingüística com a realidade. Ela imaginou uma dupla de produtores teatrais (Marco Caruso e Leandro Hassum) tentando reunir os dois atores (fictícios, mas interpretados por Nanini e Latorraca, em uma brincadeira com o que acontecia fora da tela, na produção do filme) da tremendamente bem-sucedida peça, para colaborar em uma nova montagem.

O toque final veio de uma pequena obra-prima do cinema grand guinol, o assustador horror psicológico “O que Terá Acontecido a Baby Jane?” (1962), um dos grandes sucessos de Bette Davis. A história do filme dirigido por Robert Aldrich é reproduzida em detalhes na trama que envolve os dois principais personagens de Marco Nanini: Tony, um dos dois protagonistas da peça original, é agora um recluso homem paralítico, controlado com mão-de-ferro pela psicótica irmã Cleide, que não deixa ninguém se aproximar dele e detém os direitos da peça original. De fato, “Irma Vap” acaba se revelando um filme feito sob medida para Nanini brilhar: ele é o sol do filme, que gira totalmente em torno dele, apesar de abrir algum espaço para Ney Latorraca aqui e acolá.

Pode não ter sido uma decisão consciente, mas isso funciona a favor de “Irma Vap”. Embora sejam dois grandes atores, Nanini possui um estilo mais versátil, que lhe permite dotar seus dois principais personagens de características muito diferentes. Cleide é uma mulher histérica e desconectada da realidade, como uma Norma Desmond (a atriz decadente de “Crepúsculo dos Deuses”, de Billy Wilder) de dentadura; Tony é um homem soturno, solitário e traumatizado. Ney Latorraca responde pelos excessos da produção, fazendo personagens que falam exatamente da mesma forma e encarnando uma mulher – Odete, a mãe do outro ator da peça original – que não possui nenhuma função narrativa. Odete está no filme apenas para que Carla Camurati possa travestir Ney Latorraca. Todas as cenas com ela poderiam ser eliminadas sem o menor prejuízo para a história.

O que nos leva a outro problema: para um curto filme de apenas 80 minutos, é surpreendente, e lamentável, que “Irma Vap” possua tanta gordura narrativa. Há uma boa quantidade de cenas que parecem longas demais, e que poderiam ser encurtadas sem dificuldade. É o caso, por exemplo, da longa seqüência perto do final, quando durante quase 5 minutos a peça original, “O Mistério de Irma Vap”, é encenada em frente às câmeras. Provavelmente encantada pelo material – é fato que o texto teatral é mais inspirado do que o cinematográfico, pois são esses momentos que provocam na platéia o maior número de risadas– que homenageava, Carla Camurati simplesmente alongou demais a edição dessa seqüência.

No fim das contas, “Irma Vap” deixa a impressão de que poderia ser um curta-metragem interessante que foi alongado em demasia e acabou se tornando um longa irregular, alternando momentos inspirados (principalmente aqueles em que Marco Nanini está em cena) com cenas mornas e sem graça.

O lançamento da Europa Filmes é um disco simples e sem extras, mas contém o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1).

– Irma Vap – O Retorno (Brasil, 2006)
Direção: Carla Camurati
Elenco: Marco Nanini, Ney Latorraca, Thiago Fragoso, Fernando Caruso
Duração: 80 minutos

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