Irmão Urso

05/04/2004 | Categoria: Críticas

Bela animação feita à mão reduz problemas do roteiro, que recicla temas de ‘O Rei Leão’ e ‘Pocahontas’

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

A crise criativa que assola a Disney é realmente braba. Há muito tempo que a decana companhia não acerta a mão no terreno que lhe é mais familiar, a animação infantil. Hoje, o estúdio líder no setor é a Pixar (“Monstros S/A”, “Procurando Nemo”), que corre no sentido oposto – não erra uma. Dessa feita, seria previsível que a Disney tentasse produzir os próximos desenhos animados jogando na defesa, para não tomar gols. “Irmão Urso” (Brother Bear, EUA, 2003) é exatamente isso: o filme de um estúdio com medo da concorrência.

Por isso, “Irmão Urso” é um jogo marcado para acontecer num campo familiar à empresa cinematográfica. A maior parte das idéias do filme recicla temas que a Disney vem trabalhando há décadas. Um deles, particularmente, funcionando de forma mais destacada. É a idéia de que toda forma de vida faz parte do ciclo da natureza. Para os mais religiosos, é até possível enxergar Deus nessa proposta.

Essa idéia, contudo, já fora extremamente bem explorada em “O Rei Leão”, que lida da forma mais educativa possível com a idéia da morte, apresentada para as crianças de maneira didática e natural. Filmes assim ajudam a preparar os meninos para se acostumar com a idéia da morte, cumprindo assim uma importante função educativa. “Irmão Urso”, portanto, repete a receita de “O Rei Leão” para uma geração mais nova.

Outro tema – talvez o principal – é o efeito nocivo dos preconceitos raciais. Kenai (no Brasil, com voz de Selton Mello), o protagonista, é um jovem e impulsivo índio que provoca, acidentalmente, o encontro da família com um grande urso. No confronto, o irmão mais velho dele morre, o que lhe desperta o sentimento de vingança. Assim, ele parte atrás do urso, encontrando-o no alto de uma montanha considerada mágica pelos indígenas da região.

Após matar o animal, o índio é punido, sendo transformado em outro urso. O filme trata, portanto, da jornada de Kenai em busca de recuperar a forma humana. No caminho, ele ainda encontra um urso criança, Koda, e dois alces preguiçosos, que funcionam como o contraponto cômico obrigatório em qualquer animação (apenas como exemplo, pense em Mike Wazowski de “Monstros S/A” ou Dory, de “Procurando Nemo”).

A trama inter-racial também toma emprestados elementos de outros longas recentes da Disney recentes, especialmente “Pocahontas” e “Mulan”. A mensagem, exposta claramente, é que diferentes raças (no caso, homens e animais selvagens) podem conviver pacificamente. Como se vê, “Irmão Urso” não vai muito além da reorganização de elementos tradicionais que correspondem à exaltação da família e dos bons costumes, algo que a Disney sempre defendeu.

Por outro lado, o filme tem uma belíssima animação feita à mão, que vai na contramão dos desenhos atuais (produzidos, na maioria, com o uso de computação gráfica). As cenas que apresentam os espíritos da natureza, por exemplo, utilizam a mistura de cores e a iluminação com rara competência. Esse é um aspecto que o diferencia da produção contemporânea de animações.

Além disso, o enredo é competente o bastante para driblar um sério problema que a Disney ainda reluta em abandonar: os números musicais. Eles existem, mas são poucos e passam rápido. Como todo o filme, aliás. Quando a gente fica 85 minutos dentro de uma sala de cinema com crianças menores de 5 anos e não se ouve ninguém chorar, isso só pode ser um bom sinal. O fato de m filme agradar a essa turminha difícil significa que ele atinge seu público-alvo. E esse, afinal, é o objetivo de todo o cinema.

O DVD nacional do filme tem uma surpresa agradável: um pequeno segmento produzido no Brasil. Nele, o ator Selton Mello explica como navegar no disco, de maneira engraçada. Mas os documentários continuam como maior atração. Eles incluem um segmento interessante sobre a dublagem do filme, dois clipes musicais com Phil Collins e um estudo abrangente das animações. Muito bom.

– Irmão Urso (Brother Bear, EUA, 2003)
Direção: Aaron Blaise e Bob Walker
Animação
Duração: 85 minutos

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