Irmãos Grimm, Os

08/02/2006 | Categoria: Críticas

Fábula adulta cheia de encantamento e energia imagina aventura que teria dado origem a fábulas famosas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Os irmãos Jakob e Wilhelm Grimm ficaram mundialmente conhecidos como autores de algumas das fábulas infantis mais famosas do planeta. Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve, Bela Adormecida, João e Maria, Rapunzel e muitas outras histórias pertencem à lavra da dupla alemã. Você imagina qual a origem de uma imaginação tão fértil, responsável pela criação dos 181 contos publicados por eles? “Os Irmãos Grimm” (The Brothers Grimm, EUA/República Tcheca, 2005), do cineasta Terry Gilliam, ficcionaliza a resposta a essa pergunta. O filme, uma fábula adulta cheia de encantamento e magia, propõe uma solução divertida para o dilema, teorizando que os elementos integrantes dessas histórias imortais teriam sido retirados de uma aventura verdadeira, que os dois teriam vivido no ano de 1796.

O longa-metragem retrata Wilhelm (Matt Damon) e Jakob (Heath Ledger) como se fossem artistas mambembes que ganham a vida com pequenas trapaças. Os dois vivem em uma Alemanha decadente, ocupada pelo poderoso império francês de Napoleão, perambulando de vilarejo em vilarejo. Eles se aproveitam das superstições e crendices populares para se apresentarem como exorcistas, exterminando bruxas e quebrando feitiços de mentirinha que eles mesmos preparam. Aprenderam a agir assim depois que, durante uma infância miserável, foram enganados por um trapaceiro da mesma estirpe. O sujeito convenceu Jakob a trocar uma vaca, única propriedade da família Grimm, por um punhado de feijões supostamente mágicos. A cena é mostrada num prólogo.

Os dois irmãos têm personalidades muito diferentes. Will é pragmático, frio, calculista. Não tem nenhum problema moral em se aproveitar da ingenuidade dos mais carentes. Quando acaba de dar um golpe, já tem outro preparado na cabeça. Jakob, ao contrário, é um sonhador nato. Apesar de tomar parte nos golpes, ele acredita em feitiçaria, e sonha com isso todas as noites. Também sofre por ter que enganar pessoas não esclarecidas para sobreviver. O diretor Terry Gilliam, ele mesmo um homem com fama de sonhador, não esconde quem é o seu “filho” favorito. Se prestar atenção, o espectador vai perceber que “Os Irmãos Grimm” é narrado do ponto de vista de Jakob.

Em determinado momento, a dupla é capturada pelo interventor francês da Alemanha, general Delatombe (Jonathan Pryce), e enviada para uma pequena aldeia onde ocorrem estranhos desaparecimentos de crianças. Delatombe deseja que a dupla descubra quem é o impostor responsável pelos raptos; em troca, deixará de aplicar em ambos a pena de morte pelo crime de trapaça. O que eles não sabem é que o sumiço dos garotos pode ter uma origem sobrenatural verdadeira. É um desafio que os dois irmãos são obrigados a encarar, cada um de sua maneira, sob o olhar atento do ajudante de ordens do general, o torturador Cavaldi (Peter Stormare), e com a ajuda de uma caçadora destemida, Angelika (Lena Headey).

“Os Irmãos Grimm” é um verdadeiro banquete de referências ao imaginário das fábulas infantis. A todo momento, situações e personagens que aparecerão mais tarde em fábulas narradas pelos verdadeiros irmãos Grimm apontam na tela: uma velha desdentada segurando uma maçã, uma garota de capuz vermelho que caminha por um bosque, uma criança que atira migalhas de pão enquanto passeia numa floresta, uma mulher que beija um sapo para que este lhe aponte o caminho certo a percorrer. O filme sugere que os verdadeiros irmãos Grimm tiraram de uma aventura extraordinária a matéria-prima da ficção que produziram depois. Reconhecer essas referências é uma das delícias experimentadas por quem assistir a “Os Irmãos Grimm” – mas não a única, e nem sequer a mais importante.

Uma característica que chama a atenção é a razoável semelhança com um dos melhores filmes de Tim Burton, “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”. O esqueleto narrativo é muito parecido (o protagonista é enviado a um vilarejo para combater uma suposta assombração que se revela verdadeira) e os personagens principais também utilizam geringonças tecnologicamente avançadas. Além disso, a época é o final da Idade Media, e o cenário é um bosque assombrado. Nos dois casos, também temos um visual gótico e excêntrico. Mas as diferenças também começam nesse ponto. Tim Burton tem uma veia cômica mais infantil, e isso resulta num filme mais colorido, de imaginário mais recente (Burton, convém lembrar, reprocessa o universo dos filmes de monstros da Universal, da primeira metade do século XX; os ícones utilizados por Gilliam remetem a pelo menos 100 anos antes).

O ex-integrante do Monty Python, por sua vez, possui um senso de humor mais rarefeito, mais soturno, e optou por construir um mundo de fantasia mais escuro, mais lúgubre, de textura quase realista. Isso posto, é bom deixar claro que “Os Irmãos Grimm” é, antes de tudo, uma fábula, que segue inclusive a famosa estrutura inventada pelos verdadeiros Jakob e Wilhelm Grimm – o filme começa com a lendária expressão “era uma vez” e encerra com a não menos famosa “e foram felizes para sempre” (acredite, a felicidade nesse caso é um pouco diferente da que sempre esperamos de uma produção de Hollywood). Como tal, tem uma atmosfera de pesadelo. Merece menção o trabalho dos diretores de fotografia, Nicola Pecorini e Newton Thomas Sigel, que iluminam a maior parte das cenas com tons avermelhados, o que dá ao filme um caráter onírico.

É curioso perceber que a iluminação também tem uma relação com o estado de espírito de Jakob, o narrador informal da película (o filme não tem um narrador formal, mas é ele quem anota todos os acontecimentos num caderno com capa de couro, e o livrinho vai evidentemente se transformar na fonte para a posterior transformação da aventura nas famosas fábulas que todos conhecemos). Enquanto ele age como o verdadeiro sonhador que é, a película tem muitas sombras e brumas. Quando ele sofre uma decepção, os tons subitamente se tornam mais vívidos, mais realistas, como se ele tivesse acordado do sonho; quando vive uma grande alegria, a tela se enche de tonalidades douradas, ensolaradas.

O esmero visual sempre foi uma característica importante no trabalho de Terry Gilliam, e o diretor mais uma vez comprova a sensibilidade nesse campo. Aqui ele vai ainda mais longe, providenciando o contexto histórico adequado ao seu enredo. Em 1796, a Alemanha era um país desagregado. Invadido pela França de Napoleão, não tinha unidade administrativa ou cultural, sendo composto basicamente por pequenas cidades, afastadas uma das outras, e grandes florestas. Gilliam foi minucioso nesse aspecto, mostrando até mesmo personagens do filme cantarolando trechos de canções infantis até hoje populares na Alemanha (os brasileiros talvez tenham dificuldade para reconhecê-las).

Por outro lado, a interferência dos irmãos Bob e Harvey Weinstein, que financiaram a obra, aparece na americanização de alguns aspectos do longa-metragem. Embora o filme tenha personagens alemães, franceses e italianos, a língua falada por todos eles é o inglês (em alguns casos, com um pavoroso sotaque carregado). O filme seria historicamente correto se falado em francês, pois o principal império cultural e militar da época era a França, mas o uso de inglês cheira a mera armadilha para a escalação de atores famosos – são eles os responsáveis por garantir boas bilheterias, certo? Além disso, os apelidos pelos quais os irmãos Grimm são chamados no filme são nomes tipicamente norte-americanos, Will e Jake, o que é francamente irritante.

São deslizes perdoáveis. De toda forma, é muito bom ver Terry Gilliam em ação de novo, após sete longos anos sem dirigir. Nesse intervalo, o talentoso cineasta teve quatro projetos recusados por estúdios e um ambicioso épico, “Dom Quixote”, abortado por uma combinação de doenças, guerras e fenômenos naturais que destruíram um set de filmagens e paralisaram a megaprodução em andamento. De certa forma, a gana de apresentar um bom filme depois de tanto tempo parado é perceptível na energia com que o filme é conduzido. Por tudo isso, “Os Irmãos Grimm” não deixa de ser um ato de afirmação de criatividade e (relativa) independência, vindo de um cineasta instintivo e teimoso, que insiste em remar contra a maré. Daí o carinho com que Gilliam dirige sua câmera na direção de Jakob Grimm – como ele, um sonhador que não desiste dos seus sonhos.

O DVD brasileiro é da Europa, e tem má qualidade. A imagem possui cortes laterais (4:3) e mutila o enquadramento original. o som em inglês tem duas opções: Dolby Digital 5.1 e DD 2.0. Não há extras.

– Os Irmãos Grimm (The Brothers Grimm, EUA/República Tcheca, 2005)
Direção: Terry Gilliam
Elenco: Heath Ledger, Matt Damon, Jonathan Pryce, Peter Stormare
Duração: 118 minutos

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