Irreversível

15/05/2004 | Categoria: Críticas

Um estupro de onze minutos e uma cabeça humana sendo esmagada por um extintor de incêndio. Em nome da arte, você encara?

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O delinqüente juvenil Alex de Large (Malcolm McDowell), do clássico “Laranja Mecânica”, era obcecado por ultraviolência. O filme de Stanley Kubrick, feito em 1971, expunha a preocupação diante de um futuro social que se anunciava cada vez mais violento. Em termos cinematográficos, de um ponto de vista visual, a era da ultraviolência chegou em 2002, anunciada por um longa-metragem francês polêmico e instigante: “Irreversível” (Irreversible, França, 2002), do cineasta argentino Gaspar Noé.

Algumas pessoas intitulam as perturbadoras imagens que recheiam o segundo trabalho de Gaspar Noé de violência gráfica. Outros preferem chamá-las de violência extrema. O rótulo não importa. É fato que o cinema ainda tivera coragem para exibir imagens tão explícitas, tão chocantes, tão impressionantes, até que o diretor ousou fazê-lo. Por causa disso, “Irreversível” foi recebido entre tapas e beijos pela crítica. Alguns amam, outros odeiam, mas ninguém sai imune de uma sessão deste longa-metragem.

De maneira geral, a melhor maneira de ir ao cinema e assistir a um bom filme é procurar ter poucas informações sobre a obra em questão. Definitivamente, esse não é o caso de “Irreversível”. A melhor maneira de abordar uma película desse tipo parece ser descrevendo o clima geral da obra, as proezas técnicas meticulosas que marcaram a produção e a maneira como as duas seqüências mais violentas foram criadas. O espectador de “Irreversível” precisa estar bem informado sobre aquilo que vai presenciar.

Acompanhado de um amigo, Pierre (Albert Dupontel), um rapaz chamado Marcus (Vincent Cassel) tenta encontrar o homem que estuprou a namorada dele, Alex (Mônica Belluci). Parece uma trama simples, mas não é bem assim. O cineasta Gaspar Noé planejou a obra nos mínimos detalhes, criando todo o filme a partir de uma obsessão: causar o máximo de desconforto possível ao espectador.

Para isso, Noé tomou algumas liberdades pouco comuns, como iniciar as filmagens com um roteiro de apenas três páginas, estimulando ao máximo os improvisos dos atores do filme (em determinada cena, ao ser apresentado a uma pessoa, o protagonista responde que seu nome é Vincent, nome real do ator). O linguajar coloquial e a fluidez dos diálogos estimulam a platéia a encarar o filme como uma experiência informal, bem próxima da vida real.

Além disso, o diretor preferiu filmar no formato 16mm (as câmeras profissionais utilizam uma bitola mais larga, de 35mm), para poder usar um equipamento mais leve. Com isso, Noé passou a ter liberdade para filmar em locações reais, com a câmera na mão, e fotografar todo o filme em tomadas longas, de forma a criar grandes blocos narrativos sem cortes. Tudo isso funciona a favor do planejamento do diretor, pois mergulha o filme em um ambiente extremamente realista: as ruas e o submundo gay de Paris. As duas seqüências-chave acontecem em um clube sadomasoquista e em uma passagem subterrânea da capital francesa.

Tudo isso pronto, e Gaspar Noé foi filmar então as duas cenas mais polêmicas. Na primeira, um homem assassina outro esmagando-lhe a cabeça com repetidas pancadas de um extintor de incêndio, sem cortes e com a imagem em close. A segunda seqüência pode ser ainda mais perturbadora, particularmente para mulheres: um estupro de onze minutos. No mundo inteiro, as reações dos espectadores têm sido parecidas. Muita gente abandona a projeção na metade, a maioria chorando e/ou enjoada. Sem sombra de dúvidas, as duas cenas estão entre as mais chocantes e realistas já exibidas dentro de um cinema. Que atire a primeira pedra quem não vira o rosto ou fecha os olhos, ao menos durante alguns momentos das longas seqüências.

O esmero técnico e narrativo de Gaspar Noé é tão grande que não pára por aí. Ele montou todo o filme em ordem cronológica inversa, de trás para a frente, como em “Amnésia”, mas de forma ainda mais radical (até mesmo os créditos aparecem no início). Além disso, o objetivo de atordoar e deixar a platéia desconfortável é perseguido com tal afinco que a câmera manual utilizada na primeira e longuíssima seqüência, que tem mais de 30 minutos e mostra os dois homens entrando num clube gay para procurar o estuprador, simplesmente não permite compreender com clareza qual o eixo vertical e qual o horizontal. Em outras palavras, a platéia é colocada na mesma posição (e sensação) da dupla, que vê tudo rodar, como alguém com tontura.

Em outro requinte de crueldade, Noé acompanha o balançar da câmera com um ruído baixo e grave, semelhante a um ronco, gravado na freqüência de 28 Hz. Se exposto a essa freqüência durante algum tempo, um homem pode ser acometido de náuseas e tontura. Por isso, há um motivo fisiológico para que a platéia do filme fique realmente nauseada com as imagens violentíssimas que vai presenciar, após o bombardeio de meia hora de imagens tremendo, luzes estroboscópicas girando (tudo acontece dentro de uma boate, lembre-se) e um ruído surdo que incomoda até a alma.

Agora, as perguntas que não querem calar: que tipo de reflexão um filme desse tipo pode gerar? Há alguma mensagem na tortura consentida a que o espectador se propõe assistir, quando compra um ingresso para “Irreversível”? A meia hora final, que abandona as experiências radicais para apresentar diálogos e situações que evocam idéias existencialistas (as idéias de Albert Camus parecem particularmente pertinentes), justificam intelectualmente o show de horrores da primeira parte do filme?

São perguntas complicadas de responder. Os méritos cinematográficos de Gaspar Noé são inquestionáveis, mas a proposta ética e estética permite muitos questionamentos. Por tudo isso, muita gente sai do cinema pensando que “Irreversível” não passa de um filme gratuito e vazio, enquanto outros acreditam que as reflexões a respeito do slogan defendido pelo filme – “o tempo destrói tudo” – são pertinentes.

Isso faz parte da magia do cinema: cada espectador aplica suas próprias experiências de vida às imagens que aparecem na tela e as traduzem para um repertório particular de causas e efeitos existenciais. Dessa forma, o filme pode fazer sentido para você – ou não. De um jeito ou de outro, trata-se de uma experiência perturbadora.

Detalhe importante: o DVD nacional oficial da produção, lançado pela Europa Filmes (imagens com enquadramento original preservado, áudio Dolby Digital 2.0) disponibiliza um making of, mostrando como a cena do assassinato foi filmada, com a ajuda de efeitos digitais.

– Irreversível (Irreversible, França, 2002)
Direção: Gaspar Noé
Elenco: Mônica Belluci, Vincent Cassel, Albert Dupontel, Jo Presta
Duração: 97 minutos

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