Isto é Spinal Tap

03/08/2006 | Categoria: Críticas

Falso documentário sobre turnê de banda de rock é um dos filmes mais engraçados de todos os tempos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Embora seja uma das comédias mais engraçadas jamais produzidas em qualquer lugar ou época, “Isto é Spinal Tap” (EUA, 1984) é o tipo de filme que exige um certo tipo de público para funcionar plenamente. Gostar de música e ter alguma familiaridade com os bastidores do show business é garantia de um dos mais altos índices de gargalhadas por minuto que o cinema é capaz de oferecer. E se você não saca nada de música nem gosta de rock, bem, ainda assim vai rir um bocado deste falso documentário que cativa pela simplicidade, espontaneidade e inteligência.

O longa-metragem nem é tão longo assim – apenas 82 minutos. Em resumo, o filme acompanha uma turnê norte-americana da banda de rock pesado Spinal Tap, um quarteto com duas décadas de existência. Claro, a banda não existe de verdade, embora boa parte do público original não soubesse disso quando a obra chegou aos cinemas, em 1984; o diretor, Rob Reiner, chegou a receber cartas questionando o motivo de ele ter escolhido um grupo tão desconhecido para estrelar o filme. A estética simples e direta, com câmera fixa (ou na mão) e entrevistas intercaladas com números musicais, reforça a impressão.

O sucesso conquistado foi tão grande, porém, que – ironia das ironias – a banda acabou fazendo turnês e gravando álbuns de verdade. A intenção de Rob Reiner, obviamente, não era essa, e sim satirizar o universo roqueiro em geral, mostrando os bastidores do rock como um universo de fantasia adolescente. A fauna humana que habita esse mundo, quando vista com objetividade e sem olhar de fã, parece um tanto ridícula, desde os penteados e roupas até as idéias e a forma infantil e egocêntrica de se expressar.

A sátira funciona e é maravilhosa, sobretudo, porque “Isto é Spinal Tap” jamais faz chacota do seu objeto. Sim, é uma comédia que brinca com os egos inflados dos roqueiros em geral, mas satiriza esse universo com carinho. Nesse sentido, a cena mais esclarecedora (e uma das mais hilárias) é aquela em que o guitarrista Nigel Tufnel (Christopher Guest) tenta explicar ao documentarista Marty DiBergi (Rob Reiner) que um dos segredos do sucesso do grupo é o fato de que a escala dos botões de volume dos amplificadores vai até 11, ao invés do tradicional 10.

Aliás, o número de piadas, gags e referências a pessoas e situações reais é tão grande que impressiona. Há pelo menos sete ou oito momentos de alto calibre cômico, material para gargalhar por vários minutos. Uma boa comédia normal contém em geral duas ou três dessas piadas, mas este filme se supera, e é por isso que é tão bom. Os exemplos são tantos que citá-los todos seria impossível, mas atente, por exemplo, para as várias situações curiosas que remetem à maldição dos bateristas da banda (todos os que assumem o instrumento acabam morrendo misteriosamente, como aquele que sofreu combustão espontânea em plano palco, restando apenas “um glóbulo verde em cima dos tambores”).

Além disso, os números musicais que aparecem de tempos em tempos geralmente concluem piadas bem boladas que são construídas cuidadosamente ao longo da projeção, como é o caso daquele em que o grupo estréia um novo cenário baseado no monumento druida de Stonehenge. A cena em si conclui uma brincadeira genial que vai sendo preparada no decorrer de diversas seqüências anteriores. E a música até que é razoável – a canção em que os músicos saem de casulos alienígenas não apenas serve de fundo musical para a piada, mas é um hard rock interessante.

É uma pena que parte dessas piadas só vão ser compreendidas por pessoas que têm algum conhecimento de música. Um dos momentos mais engraçados, por exemplo, acontece quando o quarteto toca em uma base aérea, já perto do final do filme. No meio de uma canção, uma interferência nas ondas de rádio que transmitem o som da guitarra aos amplificadores faz o equipamento captar a conversa dos controladores de vôo; de repente, ao invés de acordes distorcidos, ouvimos apenas a voz monocórdia de um sujeito recitando latitudes, longitudes e códigos de aviões, enquanto o resto da banda continua tocando e os quatro se entreolham, abismados, sem entender o que ocorre. É simplesmente sensacional.

A edição brasileiro em DVD, da Universal, contém apenas o filme, com qualidade OK de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfico) e som (Dolby Digital 5.1). Não há extras, mas existe um problema: um defeito na conversão da fita master para o formato de imagem NTSC alterou ligeiramente a velocidade de exibição do filme, fazendo-o correr mais rápido do que o normal, como um antigo disco de vinil tocado de maneira ligeiramente acelerada. Somente os mais atentos vão perceber a diferença, mas é por isso que a cópia brasileira em DVD tem apenas 79 minutos.

– Isto é Spinal Tap (EUA, 1984)
Direção: Rob Reiner
Elenco: Christopher Guest, Michael McKean, Harry Shearer, Rob Reiner
Duração: 82 minutos

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