Jackie Brown

08/02/2007 | Categoria: Críticas

Menos ágil e mais cerebral, terceiro filme de Tarantino mantém as melhores qualidades do autor

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Em 1997, a expectativa da comunidade cinematográfica sobre o terceiro trabalho de Quentin Tarantino era tão grande que estava fadada à decepção. Talvez o autor de “Pulp Fiction” tivesse sido criticado mesmo se tivesse feito uma obra-prima inigualável. Não é o caso de “Jackie Brown” (EUA, 1997), mas o filme está longe, muito longe de ser ruim. Pelo contrário. Sem dar bola para os que dele esperavam um trabalho inovador, Tarantino aprontou uma homenagem saudosista a um subgênero B quase desconhecido, investindo numa narrativa mais sóbria, em tom menor. “Jackie Brown” confirma a maturidade de um dos poucos cineastas cntemporâneos que merece ser chamado de autor.

O filme inicia a trajetória de Tarantino como uma espécie de mártir cinematográfico. Mártir? Explico: depois do sucesso avassalador de público e crítica, Tarantino sabia que os olhos de todo mundo que ama cinema como ele estariam voltados para qualquer coisa que fizesse, nos anos seguintes. O autor de “Cães de Aluguel” decidiu, portanto, resgatar filmes, gêneros e autores obscuros, que aprendeu a amar quando era atendente de videolocadora em Los Angeles e passava o dia vendo longas-metragens desconhecidos.

“Jackie Brown” é uma homenagem explícita ao blaxploitation, um subgênero de filmes produzidos por e para negros, na década de 1970, no auge do contra-movimento racial que pregava a união das raças. Tarantino trouxe de volta a Hollywood uma das grandes musas do movimento, a atriz Pam Grier. Também escolheu a dedo as pérolas da trilha sonora, resgatando inúmeras canções grudentas de mestres da soul music: Bobby Womack, The Supremes, Foxy Brown, entre outros. Depois, o diretor faria o mesmo com os filmes asiáticos de artes maciais em “Kill Bill”.

Em “Jackie Brown”, Pam Grier interpeta a personagem-título. Ela é uma aeromoça que trabalha numa companhia mexicana vagabunda e voa entre EUA e México, transportando dinheiro ilegal para um traficante de armas. Certo dia, Brown é presa por dois policiais, Ray Nicolette (Michael Keaton) e Mark Dargus (Michael Bowen), carregando grana e uma pequena quantidade de cocaína. Os tiras, no entanto, não querem deixá-la presa; desejam que ela participe de um flagrante contra o chefão, Ordell Robbie (Samuel L. Jackson). E usam a prisão para chantageá-la.

A situação dela não é nada boa. Aos 44 anos, ela está em liberdade condicional e sabe que, caso fique na cadeia, estará arruinada. Curiosamente, depois que tem a fiança paga pelo traficante, ela é apanhada na prisão pelo tímido agente penitenciário Max Cherry (Robert Forster) e desperta no sujeito solitário e de meia idade uma paixão platônica fulminante. No meio dessa confusão toda, ela ainda tem frieza suficiente para armar um golpe engenhoso e tentar ficar com uma bolada de U$ 500 mil. Se der certo, terá o futuro garantido.

“Jackie Brown” tem a narrativa menos complicada do que os dois filmes anteriores de Tarantino, pois caminha sem reviravoltas cronológicas até o terço final. Essa estratégia irritou muitos espectadores, que esperavam do cineasta um filme mais bagunçado, mais estridente (para a platéia jovem, mais louco). O resultado final, visto com o distanciamento necessário, é uma delícia para cinéfilos. Tarantino mostra que independe de malabarismos narrativos para prender a atenção do espectador. A história rola tranqüila, traduzida em imagens com longos takes do fotógrafo Guillermo Navarro (maravilhosa a abertura, que cita “A Primeira Noite de um Homem”). Não há ação física, e os diálogos, como de praxe, são espontâneos, bem-humorados, brilhantes.

O golpe de mestre de Tarantino chega mesmo no terço final, quando o cineasta efetua um verdadeiro truque de prestidigitação e põe em prática o golpe de Jackie Brown. A platéia, meio às escuras, é premiada com a narração da mesma cena de três pontos de vistas diferentes, que vão, pouco a pouco, revelando todos os detalhes do plano audacioso da aeromoça. Trata-se de uma seqüência inspirada no grande “Rashomon”, do cineasta japonês Akira Kurosawa, um dos grandes mestres de Tarantino.

Espalhadas no meio do filme estão ainda outras pérolas, como o estranho relacionamento entre dois parceiros de Ordell, o caladão ex-presidiário Louis Gara (Robert De Niro) e a surfista maconheira Melanie Ralston (Bridget Fonda) – todas as cenas entre os dois são hilariantes. Outro grande momento de “Jackie Brown” é o exótico comercial “Garotas com Armas”, que Ordell assiste deliciado. É o cinismo de Tarantino em sua melhor forma, gozando da obsessão dos norte-americanos com armas de fogo e mulheres de peitos enormes. Filmaço.

O DVD nacional da Versátil, muito longe da edição de colecionador dupla lançado nos EUA e repleta de extras, é bem fraco. As imagens têm cortes laterais (fullscreen). O som é ótimo (Dolby Digital 5.1). O único extra é uma entrevista de 20 minutos feita com Tarantino e o ator Robert De Niro.

– Jackie Brown (EUA, 1997)
Direção: Quentin Tarantino
Elenco: Pam Grier, Samuel L. Jackson, Robert Forster, Robert De Niro
Duração: 151 minutos

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