Janela Indiscreta

15/06/2004 | Categoria: Críticas

Hitchcock supera dificuldades técnicas com brilhantismo e cria um dos suspenses mais antológicos de todos os tempos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Os grandes conhecedores da obra de Alfred Hitchcock não costumam incluir “Janela Indiscreta” (Rear Window, EUA, 1954) na galeria das maiores obras-primas criadas por ele. Esse posto pertence a dois filmes posteriores, “Psicose” e “Um Corpo que Cai”. Quase todos os pesquisadores de cinema são unânimes em ressaltar os méritos técnicos da produção desse eletrizante suspense que reuniu dois dos maiores ícones da Hollywood do período, James Stewart e Grace Kelly. Pouca gente, no entanto, vai além e discute o enredo em minúcias. O que é uma pena, pois “Janela Indiscreta” se mantém, mesmo após 50 anos, como um dos suspenses mais inteligentes já produzidos.

As experiências técnicas do filme de 1954 são uma continuação lógica do balé cinematográfico que foi “Festim Diabólico”, feito seis anos antes. Naquele filme, Hitchcock tentou produzir uma espécie de peça de teatro filmada, colocando a platéia diretamente dentro do palco, como um personagem invisível. Ele mesmo tratou de desancar o filme, taxando-o de fracasso – um exagero evidente. Na época de “Janela Indiscreta”, contudo, o mestre do suspense já estava no pleno domínio de seu extraordinário dom narrativo. Assim, sentiu-se livre para ousar novamente.

O elemento mais destacado do filme, não há dúvida, é o cenário. O alicerce do enredo depende disso, pois o texto parte da premissa de que todo o filme será mostrado do ponto de vista de um único personagem, o fotógrafo L.B. Jeffries (Stewart), que nunca sai de casa. Com o habitual rigor, Hitchcock estabeleceu essa premissa de forma rígida e seguiu uma regra inflexível: é proibido trapacear. Por causa disso, foi obrigado a criar uma série de artifícios, de forma a permitir a compreensão plena da obra pelo espectador, sem prejudicar a credibilidade da trama.

Para começar, o cineasta precisava explicar porque Jeffries jamais deixava o apartamento. Resposta: ele tem uma perna quebrada e está preso a uma cadeira de rodas. Dessa maneira, sem nada a fazer, ele passa os dias observando o cotidiano dos vizinhos, até que desconfia, pela estranha movimentação ocorrida em certa madrugada, que um deles matou a própria esposa. Essa curiosidade voyeur gera outra dificuldade: como exibir os acontecimentos em apartamentos distantes, de forma a permitir que o protagonista (e também o espectador) compreenda tudo? A resposta, dessa vez, é a profissão de Jeffries, como bem observou o crítico francês André Bazin.

Jeffries é fotógrafo e isso lhe permite possuir, sem que o espectador ache estranho, um potente par de binóculos e uma lente grande angular, equipamentos que permitem ver de longe em detalhes. Além disso, um filme desse tipo exige uma coreografia rica e extremamente rígida de todos os coadjuvantes, pois, vistos de longe, eles precisam criar ações baseados na expressão corporal; lembre-se de que o protagonista vê tudo, mas ouve quase nada. Assim, o trabalho de coordenação dos movimentos da vizinhança (o casal recém-casado, a balzaquiana solitária, os donos do cão que dormem no alpendre) é simplesmente magnífico.

Uma outra dificuldade, essa mais complicada, seria imprimir ao filme o ritmo correto; Jeffries precisa parecer entediado, mas a platéia jamais. Os cineastas normalmente usam a trilha sonora para acelerar a ação e sublinhar os momentos certos. Só que o uso de canções quebraria o postulado rígido que Hitchcock estabelecera para si mesmo. Ele solucionou isso criando personagens que se relacionam com música no dia-a-dia. Um vizinho é pianista, há uma bailarina que vive cantarolando canções. Isso dá ao filme uma trilha sonora natural e perfeitamente compatível com os diferentes humores do fotógrafo.

“Janela Indiscreta” se tornou, assim, um dos raros filmes a utilizar o som de forma diegética durante 100% do tempo. Essa palavra significa que a fonte de origem do som está dentro do filme, e não fora; ou seja, o protagonista está ouvindo o mesmo que o espectador. Normalmente, não é assim; ou você imagina que, durante as batalhas épicas de “O Senhor dos Anéis”, Frodo e Aragorn lutam escutando música?

Levando em conta toda a parafernália estética que Hitchcock utilizou para construir o filme, portanto, seria de se esperar um filme com trama frouxa ou que recorresse a trapaças, aqui e acolá, ao postulado de ter a platéia ao lado do protagonista. Só que isso simplesmente não ocorre.

O roteiro de John Michael Hayes, escrito sob supervisão de Hichcock, é encantador, magnético, espetacular. Consegue tecer uma trama de mistério complexa sem jamais deixar de lado os diálogos ágeis e mordazes. Para isso, o texto inclui na trama uma namorada para o fotógrafo, Lisa Fremont (Grace Kelly), e as conversas maliciosos e repletas de duplos sentidos driblam a rígida censura da época, fazendo comentários jocosos sobre uma mulher liberal que não tem pudor de se jogar de joelhos e pedir, por favor, para dormir com um homem.

Por tudo isso, “Janela Indiscreta” pode (e deve) ser visto várias vezes sem perder o frescor, revelando sempre detalhes novos. O DVD brasileiro tem excelente qualidade, incluindo um documentário de quase uma hora que disseca os bastidores, uma coleção de cartazes e fotos e o trailer da produção, tudo com legendas em português, além de som Dolby Digital 2.0 e imagens restauradas no corte original. Imperdível.

- Janela Indiscreta (Rear Window, EUA, 1954)
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: James Stewart, Grace Kelly, Thelma Ritter, Wendell Corey
Duração: 112 minutos

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