Janela Secreta

25/10/2004 | Categoria: Críticas

Suspense minimalista e eficiente traz mais uma grande atuação de Johnny Depp como um escritor com bloqueio criativo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O romancista Stephen King escreveu vários livros em que o protagonista é um escritor com bloqueio criativo. Fez isso tantas vezes, na verdade, que em certo momento da carreira começou a ser acusado de ser um deles, e utilizar o recurso de reescrever sempre o mesmo livro, apenas para continuar fugindo desse fantasma literário. Talvez a melhor das histórias que ele escreveu sobre o tema seja a novela que inspirou “Janela Secreta” (Secret Window, EUA, 2004). Ela foi transformada em um suspense eficiente e econômico pelo roteirista e diretor David Koepp.

O escritor Mort Rainey (Johnny Depp), portanto, é o personagem emblemático de Stephen King. O bloqueio criativo que ele enfrenta, contudo, tem uma causa evidente. Rainey é um homem em depressão porque não se recuperou ainda da traição da mulher, Amy (Maria Bello), que o abandonou para ficar com Ted (Timothy Hutton).

Morando numa cabana em um lago, no meio de um bosque deserto, Mort passa o dia cochilando no sofá e resmungando com um velho cão. Até o dia em que um caipira esquisito, John Shooter (John Turturro), bate à porta da casa para acusar Rainey de ter plagiado um conto. O estranho logo revela ser pouco amistoso e dado a excentricidades que beiram a violência física, mas não a materializam.

A apresentação dos personagens e da situação dramática de “Janela Secreta” é de uma eficiência contagiante. David Koepp, que escreveu os roteiros de “Homem-Aranha” e “O Quarto do Pânico”, dispensa apresentações demoradas e faz tudo em duas seqüências. O filme abre com a cena em que Mort descobre Amy num motel, com Ted. A seguir, na melhor tomada de todo o filme, o diretor apresenta de uma só tacada o cenário, o estado de ânimos do protagonista e a trama.

É uma proeza técnica. A câmera sai do bosque, atravessa todo o lago, entra na cabana de madeira pela tal janela secreta (uma abertura que ficara escondida atrás de um móvel antes que Amy a descobrisse, como mostrado em um flashback mais adiante), sobrevoa o salão de trabalho do escritor, mostra de relance o computador com poucas linhas escritas e pára sobre o sujeito, dormindo no sofá. A campainha toca. É John Shooter. Menos de cinco minutos e a platéia já sabe qual a situação emocional de Rainey e compreende que ele se meteu, sem querer, em um problema. Concisão e didatismo, algo que muitos cineastas da atualidade desconhecem.

Há uma influência óbvia do suspense “O Quarto do Pânico”, que Koepp escreveu, em “Janela Secreta”. A trilha sonora de Philip Glass, minimalista e usada com economia, também é baseada em toques repetidos e quase percussivos de violoncelos, como no filme de David Fincher. A tonalidade de terra da fotografia de Fred Murphy, caprichando nas cores marrom-avermelhadas, também remete ao longa urbano de Fincher. A própria tomada de abertura parece demais com a famosa cena da câmera que percorre todo o apartamento da personagem de Jodie Foster.

Como diretor, Koepp conduz bem a ação, criando situações de suspense com eficiência e aproveitado o excelente desempenho de Johnny Depp, mais contido do que o habitual. A composição criada pelo ator para Mort Rainey lembra o cruzamento de uma criança carente com um cientista louco, o que faz a platéia simpatizar com ele de imediato. O personagem cria um contraste interessante com o tipo rude de John Turturro, o que ajuda bastante o filme quando ele ruma para um final surpreendente (e diferente do livro!).

“Janela Secreta” possui o tipo de final de Hollywood abomina e, por isso, vem se tornando cada vez mais raro em obras de suspense. Isso faz do filme um excelente exemplar do gênero. Pena que, para chegar até ele, o longa-metragem precise passar por uma cena crucial que é praticamente decalcada do livro de Stephen King, o que se revela o erro mais evidente de Koepp.

Ocorre que, no romance, o autor abusa do estilo que o fez famoso, criando um diálogo mental do protagonista com ele mesmo. A solução encontrada por David Koepp para mostrar isso na tela é equivocada e verborrágica, o que reduz o impacto da seqüência e destoa da economia de diálogos que o filme sustenta o tempo inteiro. Além disso, Koepp mostra pouco timing para a comédia, e quando tenta fazer a platéia rir falha grotescamente (ainda bem que isso só ocorre duas vezes). Fora isso, “Janela Secreta” é um ótimo filme de suspense.

– Janela Secreta (Secret Window, EUA, 2004)
Direção: David Koepp
Elenco: Johnny Depp, John Turturro, Maria Bello, Timothy Hutton
Duração: 97 minutos

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