Jardineiro Fiel, O

21/03/2006 | Categoria: Críticas

Fernando Meirelles se firma entre os diretores do primeiro time com fusão de história de amor adulta e thriller político contundente

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Os leitores dos diários de filmagem de “O Jardineiro Fiel” (The Constant Gardener, Inglaterra, 2005), escritos pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles, devem ter ficado com a impressão de que a escalação da atriz britânica Rachel Weisz para o principal papel feminino era uma imposição dos produtores. Nos textos, publicados pelo site mineiro Cinema em Cena (link no final), Meirelles confessa ter gostado muito do teste da atriz, mas afirma que ela era velha demais para interpretar uma garota de 22 anos. Os diários não fazem referência ao momento de definição da intérprete, mas se houve interferência de alguém, foi para o bem, pois a escolha se revela perfeita. Rachel Weisz possui o magnetismo, a energia e o charme de Tessa Quayle, a ativista que, se não é a mente, certamente representa o coração do filme que sucede “Cidade de Deus” na filmografia de Meirelles.

“O Jardineiro Fiel” era esperado com muita expectativa por cinéfilos do mundo inteiro, a mesma turma que colocou “Cidade de Deus” entre os 20 melhores filmes de todos os tempos na prestigiosa lista do Internet Movie Database, maior banco de dados de cinema do mundo. E não decepciona. Em pouco mais de duas horas de projeção, Meirelles consegue fundir com perícia, em um produto coeso, duas tramas aparentemente impossíveis de reunir num só filme. “O Jardineiro Fiel” é uma história de amor trágica, madura e adulta e, ao mesmo tempo, um thriller contundente sobre os bastidores da indústria farmacêutica, com sérias implicações políticas.

Filmar um enredo com duas ambições tão diferentes é um risco que todo cineasta sabe ser alto. Freqüentemente, gente de habilidade comprovada na direção falha na tarefa, fazendo um filme irregular (só para citar um exemplo óbvio, “Ataque dos Clones”). Com maior freqüência, costuma-se abdicar de um dos dois “enredos”, em benefício do filme. O diretor brasileiro fez o contrário. Assumiu o projeto de um thriller comum de espionagem, ampliou a participação feminina na trama e, dessa forma, conseguiu construir um drama perfeito, envolvendo dois dos personagens mais ricos e complexos que o cinema ousou mostrar em 2005. O filme fez sucesso (a crítica norte-americana elegeu o lançamento um dos mais importantes do ano) e consolidou o nome do brasileiro. Fernando Meirelles deixou de ser promessa e se tornou o diretor brasileiro de maior cacife internacional. E merece a fama.

“O Jardineiro Fiel”, claro, mantém elos claros de ligação com “Cidade de Deus”, mas em alguns aspectos o supera. O filme inglês (o Focus Studios, dos EUA, bancou parte dos custos, mas a produção original é da Grã-Bretanha) se beneficia da experiência do diretor com tramas cronologicamente embaralhadas, por exemplo. Meirelles vai e volta no tempo com uma fluência narrativa que poucos diretores possuem. Como no blockbuster nacional, “O Jardineiro Fiel” tem uma estética visual meio tosca, que inclui uso abundante de câmera na mão, experiências ousadas com foco e iluminação e cenas de ação hiper-editadas e filmadas bem de perto (nesse último aspecto, apresenta uma curiosa semelhança com “A Supremacia Bourne”, outro thriller interessante de espionagem).

Por outro lado, Meirelles conseguiu amplificar o teor de denúncia social de seu trabalho, ao reduzir o abismo invisível que parecia existir entre a favela e o mundo rico, nos seus trabalhos anteriores, inclusive “Domésticas”. Uma das poucas (e mais repetidas) críticas a “Cidade de Deus” dizia que o filme não conseguia reproduzir a relação social da comunidade pobre que dá nome ao longa-metragem com a burguesia carioca. Ou seja, o filme apresentava a favela como um mundo fechado em si mesmo, o que de certa forma era verdade.

Nesse sentido, “O Jardineiro Fiel” é melhor. O contraste entre mundo rico/mundo pobre é trabalhado pelo diretor na relação existente entre os dois personagens principais. Tessa (Weisz), a ativista jovem e impetuosa, passa os dias nas gigantescas favelas do Quênia. É lá que se sente em casa, caminhando entre as crianças com a naturalidade de uma moradora da área. Justin Quayle (Ralph Fiennes), o marido, é um tímido e introspectivo diplomata. Entre jantares de gala e palestras na ONU, ele relaxa cuidando do jardim. Duas pessoas não poderiam ser mais diferentes, embora se amem profundamente.

Essa diferença é ilustrada por Meirelles em uma curta e aparentemente inofensiva cena, que no entanto exemplifica a sutileza e a riqueza da narrativa. Na tal seqüência, Tessa e Justin saem de um hospital e vêem, caminhando apinhada na rua de Nairóbi, um garoto e a avó que estavam há pouco dentro do centro médico. Eles sabem que a dupla está iniciando um trajeto de 40 quilômetros, a pé. Eles brigam. Tessa deseja dar uma carona aos dois, ainda que isso signifique um longo desvio de rota. Justin argumenta que ela está fraca e precisa chegar logo em casa. Eles brigam novamente. A cena demarca de maneira brilhante as diferenças entre ambos. No final do filme, será retomada em outra seqüência que mostrará o quanto a investigação do crime muda o diplomata.

Como escrevi antes, se Tessa é o coração, a fonte de calor humano do longa-metragem, Justin é a mente. O filme narra a jornada dele. Logo na abertura, Tessa é assassinada numa estrada do deserto do Quênia. As circunstâncias levam as pessoas a acreditar que ela tinha um caso com um médico negro (Hubert Koundé) que lhe acompanhava nas missões ativistas, a essa suspeita é alimentada por todos os que acompanham o caso, inclusive os amigos do casal.

Justin também tem motivos para suspeitar de adultério. Ele não vigiava as atividades da esposa de perto, mas suspeitava que ela estivesse investigando algo sério, e decide checar o caso por conta própria. A jornada, é evidente para o espectador, ocorre mais pela necessidade que Justin sente de compreender melhor a esposa, de conhecer a verdadeira Tessa, ainda que postumamente. É uma necessidade lógica para alguém que perdeu um ser amado. Os resultados da investigação, contudo, são inesperados, e colocam o diplomata no centro de uma grave denúncia envolvendo testes de medicamentos potencialmente perigosos em famílias africanas humildes.

Fernando Meirelles filmou no Quênia e usou moradores das favelas africanas como figurantes, em repetição do método arrojado que dera certo em “Cidade de Deus”. Novamente, acertou na mosca. Há imagens contundentes, arrasadoras, em “O Jardineiro Fiel”. Às vezes, uma única tomada possui mais crítica social do que muitos filmes de Hollywood. Tome como exemplo o curta e impressionante plano que encerra a cena em que Justin aborda um rico industrial, num campo de golfe.

A câmera focaliza os personagens a longa distância, mostrando-os conversando em um enorme gramado pontuado por árvores frondosas. Ouve-se um trem à distância, e então a câmera faz um giro de 180 graus, passando por uma linha férrea e mostrando que os trilhos dividem o magnífico campo de golfe de uma favela gigantesca, com casebres se amontoando e um verdadeiro formigueiro humano nos corredores estreitos. A imagem é silenciosa, mas nossa consciência grita.

Apesar de conter comentários sociais ou políticos, como o descrito acima, em quantidade e densidade abundantes, “O Jardineiro Fiel” é sobretudo um filme de personagens. Justin Quayle é um dos protagonistas mais interessantes dos últimos anos. Introspectivo, decerto, mas também emocionalmente distante, frágil até. Só depois da morte da mulher, ele começa dolorosamente a perceber que jamais a conheceu de verdade – sequer conseguia perceber a dimensão do amor que ela sentia por ele. Meirelles apresenta a trágica jornada desse homem de maneira firme; sua consciência vai mudando lentamente, à medida que a investigação prossegue e novos fatos vão se avolumando.

Tessa, por sua vez, é uma figura feminina fascinante. Ela é dura, de personalidade forte, agressiva, mas na intimidade de revela doce, carinhosa, até mesmo carente. Na primeira metade da trama, Meirelles dá corda ao espectador e explora esses detalhes, criando muitas cenas de flashbacks com base nas memórias de Justin. Quando ele espia o conteúdo dos e-mails da esposa, involuntariamente encontra um pequeno vídeo feito por ela que demonstra o quanto ela o ama. Ela adora ele, mas está se envolvendo em coisas perigosas, e por isso permanece emocionalmente distante, a fim de preservá-lo. É um sinal de amor, embora para ele parecesse outra coisa.

Para completar, os dois atores interpretam com pequenos toques que enriquecem ainda mais os personagens. Perceba, por exemplo, como o tímido Justin fala sempre com um tom de voz baixo e quase não revela emoções. É um homem contido até na hora em que recebe a notícia da morte da esposa. Quando conversa pessoalmente, mesmo com amigos, o diplomata jamais toca no interlocutor, uma característica típica de quem é muito tímido. Tessa, ao contrário, é desenvolta, olha diretamente nos olhos, fala com energia juvenil e está sempre fazendo um carinho naqueles com quem conversa – um aperto de mão, um toque nos cabelos, um abraço. São detalhes que conferem credibilidade ao longa-metragem como um todo.

Para não dizer que “O Jardineiro Fiel” é perfeito, duas observações devem ser feitas. A primeira foi repetida por alguns críticos dos EUA: dizem que falta envolvimento emocional na história. De certa forma é verdade, embora isso seja facilmente explicado pela condição de narrador que é assumida por Justin – e uma história contada por um homem introspectivo dificilmente seria emocionalmente envolvente. Outro ponto discutível é o final. Sim, a jornada põe Justin diante de uma perspectiva de vida muito diferente, mas é discutível se essa mudança seria capaz de provocar uma ação tão radical de um homem ponderado como diplomata. Nada disso conspurca a excelência da obra.

Por fim, é imperativo louvar a excelente montagem não-linear do longa-metragem. Via de regra, é possível dizer que existem três tipos de diretores: (1) os que concebem o filme antes das filmagens, durante a construção do roteiro e dos storyboards, como Alfred Hitchcock; (2) aqueles que delineiam o filme durante as filmagens, mudando a trama conforme as performances dos atores, a exemplo de Wong Kar-Wai; e (3) os diretores que saem das filmagens apenas com uma idéia do filme e o modificam constantemente durante a montagem, até chegar a um formato final, caso de George Lucas. Fernando Meirelles é um entusiasta do terceiro time – e, se continuar a fazer filmes como “O Jardineiro Fiel”, logo se tornará referência fundamental para quem defende que a edição tem papel fundamental numa narrativa imagética.

A Universal lançou o disco no Brasil em uma edição interessante. A cópia do filme está ótima (imagens no enquadramento original, wide anamórfico, e som Dolby Digital 5.1). Entre os extras, uma galeria de cenas cortadas (10 minutos, inclusive com uma longa seqüência passada no Canadá e retirada da montagem final) e dois featurettes, um enfocando o trabalho de John Le Carré e outro mostrando as filmagens no Quênia.

– O Jardineiro Fiel (The Constant Gardener, Inglaterra/EUA, 2005)
Direção: Fernando Meirelles
Elenco: Ralph Fiennes, Rachel Weisz, Danny Huston, Hubert Koundé
Duração: 129 minutos

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