Jejum de Amor

01/09/2005 | Categoria: Críticas

Comédia alucianada sobre Jornalismo é pioneira em acelerar o ritmo dos diálogos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Um filme também pode deixar uma pessoa cansada. “Jejum de Amor” (His Girl Friday, EUA, 1940) é um excelente exemplo da afirmação. A comédia cínica de Howard Hawks tem um ritmo tão alucinado, tão hiperativo, que não há como não deixar escapar um suspiro de alívio quando o último minuto de projeção termina. Mais surpreendente ainda é que um longa-metragem com essa característica tenha sido feito em 1940, quando os filmes tinham um tempo diferente. Dito isso, resta afirmar que “Jejum de Amor” é muito bom.

A produção de Howard Hawks foi baseada em uma peça teatral de grande sucesso na Broadway. Ela seria, nos anos 1970, filmada por Billy Wilder com o título original, “A Primeira Página”. Para transplantar a ação do palco para a película, Hawks fez modificações bastante radicais, e tomou uma decisão crucial, que teria enorme repercussão em Hollywood nos anos seguintes: decidiu que os diálogos dos atores tinham que capturar o ritmo da vida, a maneira como as pessoas falam fora das telas. Para isso, ele decidiu acelerar o ritmo dos diálogos.

Até então, os filmes de Hollywood eram mais lentos, porque os cineastas acreditavam que precisavam dar tempo para o público absorver tudo o que estava sendo dito na tela. Por isso, a regra era clara: em um diálogo, um ator só começa a falar quando o outro termina, e assim por diante. Em “Jejum de Amor”, Howard Hawks foi pioneiro e quebrou com esse paradigma. Os atores falam atropelando uns aos outros, deixam frases pela metade ou por dizer, iniciam um raciocínio sem concluir o anterior. Mais ou menos como acontece na vida real. Essa técnica seria adotada de imediato nos filmes noir e, aos poucos, viraria hegemônica.

Na ânsia de capturar o ritmo agitado da vida, Hawks talvez tenha ido longe demais. Ele filmou tudo em longos planos sem cortes, e deu aos atores a oportunidade de improvisar boa parte das falas. O resultado foi o já citado ritmo alucinado, super-veloz. São tantas as gags e piadas que “Jejum de Amor” parece ter bem mais do que os 92 minutos que possui, pois quando termina a audiência já está exausta, na tentativa de acompanhar as ações sem perder nenhum detalhe.

E isso é preciso, sim, porque “Jejum de Amor” é uma comédia, mas não uma comédia inofensiva e sem conteúdo. O filme é, na realidade, um conjunto de vários filmes: uma comédia devastadora sobre a instituição do casamento, um drama sobre a pena de morte e sobretudo uma reflexão importante sobre a natureza do Jornalismo. O enredo, talvez por lidar com tantos temas e de maneira tão original, é muito simples: um editor ganancioso (Cary Grant) tenta manter uma boa repórter (Rosalind Russell) sob seu comando a todo custo, sendo que para isso precisa destruir o noivado da garota.

Por que? Ora, porque ela é a ex-mulher dele, e ele ainda está apaixonado. Nesse caso, ele conseguiria dar um duplo golpe, mantendo o seu melhor repórter e reconquistando a garota que ama. A oportunidade surge com a notícia de que um homem condenado à morte pode ser executado no mesmo dia. Como o editor tem certeza de que o sujeito é inocente, convence a ex-mulher a ir entrevistá-lo, na esperança de reverter a situação e conseguir um furo jornalístico.

O retrato do Jornalismo feito por Hawks é implacável, mas contraditório. O diretor mostra os jornalistas como verdadeiros abutres, ávidos por notícias polêmicas e com nível de preocupação zero por valores como ética e moral. Os repórteres que estão na sala de imprensa do tribunal, por exemplo, passam o tempo jogando cartas e fazendo piadas sobre o prisioneiro que está à beira da morte, sem qualquer preocupação com o destino do homem ou com a verdade por trás das aparências. Por outro lado, os perfis de Walter Burns (o editor) e Hildy Johnson (a repórter) sugerem que o Jornalismo é uma vocação, um sacerdócio, uma tarefa que só pode ser bem executada por aqueles que nasceram o talento necessário.

As duas visões teriam impacto tremendo sobre os filmes que Hollywood produziria, nas décadas seguintes, sobre o Jornalismo. De “A Montanha dos Sete Abutres”, de Billy Wilder, até a comédia “O Jornal”, de Ron Howard, todos os longas sobre o tema pagam tributo a “Jejum de Amor”. Mas o original ainda se mantém um degrau acima dos demais, ajudado pelo entrosamento perfeito da dupla Cary Grant (brilhando como um canalha charmoso) e Rosalind Russell. O timing dos dois chega às raias da perfeição e garante ao filme o status de clássico.

Existem duas versões nacionais em DVD do filme. A primeira leva a assinatura da Columbia. O filme está em formato original (fullscreen 4×3) e tem trilha de áudio Dolby Digital 2.0. Há um comentário em áudio do crítico Todd McCarthy e quatro featurettes (Grant, Russell e Hawks ganham segmentos exclusivos), tudo sem legendas. O segundo lançamento é da Works DVD e contém apenas o filme, com as mesmas especificações do disco da Columbia.

– Jejum de Amor (His Girl Friday, EUA, 1940)
Direção: Howard Hawks
Elenco: Cary Grant, Rosalind Russell, Ralph Bellamy, Gene Lockhart
Duração: 92 minutos

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