Jesus Camp

28/02/2007 | Categoria: Críticas

Documentário sobre campo de férias para crianças evangélicas revela face oculta sobre o americano médio

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Boa parte das pessoas que já visitou os EUA acredita que conhece o país. Eis uma verdade: você pode ter ido dezenas de vezes aos Estados Unidos, e assistido a milhares de filmes sobre o modo como funciona a sociedade por lá, mas não dá para dizer que realmente conhece os americanos enquanto não sair do circuito das grandes cidades (Los Angeles, Nova York, Washington). Na América do Norte, a maioria da população vive fora dos grandes centros, e estas famílias são vem diferentes da maioria liberal que mora nas metrópoles. Um retrato acurado e assustador desses habitantes do interior pode ser conferido no excelente documentário “Jesus Camp” (EUA, 2006).

Este é um filme perfeito para fazer uma sessão dupla de cinema com a comédia “Borat”, lançada nos cinemas na mesma safra de 2006. Aparentemente, os dois títulos podem parecer antagônicos – um é comédia politicamente incorreta, outro é documentário que se leva extremamente a sério – mas ambos têm o mérito inegável de arrancar a máscara de hipocrisia e bom-mocismo que adorna o rosto do americano médio, e mostrar o preconceito velado que existe por trás dela. Sob certa perspectiva, “Jesus Camp” é quase um filme de terror, na maneira como retrata o fundamentalismo religioso que caracteriza uma parte da população protestante (a religião da maioria dos habitantes dos EUA).

Ao construir um relato de objetividade quase jornalística sobre o cotidiano de um acampamento de férias para crianças evangélicas, no estado de Dakota do Norte, as diretoras Heidi Ewing e Rachel Grady jogam luz sobre um fenômeno impressionante, que faz parte da essência do norte-americano: a crença delirante de que os Estados Unidos são o país escolhido por Deus para liderar o planeta. A maneira como a população evangélica mais fanática lida com este conceito, misturando religião com curandeirismo e política, acaba fazendo-os fechar os olhos para toda e qualquer cultura estrangeira. Uma das conseqüências disso é que três em cada quatro habitantes do país não tem passaporte (o dado não está no documentário, mas diz muito sobre a relação dos EUA com o resto do mundo).

Ainda mais fechada para dentro de si mesmo após os atentados de 2001, esta parcela mais conservadora e radical dos norte-americanos parte do princípio de que precisa reagir, com o mesmo rigor, à cultura fundamentalista dos muçulmanos, a quem vê como inimigos em potencial. O que isto significa? Que os americanos “verdadeiros” devem doutrinar suas crianças desde cedo para serem soldados a serviço de Jesus. O filme (cujo título significa literalmente “Acampamento de Jesus”) mostra como funciona um desses lugares, onde meninos de 6 anos aprendem que Harry Potter é tentação do demônio, que o evolucionismo de Darwin é uma mentira inventada por cientistas ateus, que o planeta Terra foi criado por Deus há seis mil anos, e que o aquecimento global é um mito.

Parece inacreditável que exista gente pensando assim no país mais poderoso do mundo? Pois isto não é nem o começo dos horrores muito reais de “Jesus Camp”. Quem acredita que os rituais de exorcismo da Igreja Universal do Reio de Deus são o exemplo mais cabal de lavagem cerebral através da distorção (no pior sentido possível) dos ensinamentos cristãos precisa ver de perto o que os casais evangélicos norte-americanos fazem com seus filhos, ao mandarem os garotos passar férias nesses lugares. “Jesus Camp” se concentra principalmente em cinco personagens: três assustadas crianças freqüentadoras do acampamento, a coordenadora do lugar – uma senhora gorda, na casa dos 40 anos, que não está nem aí para o aquecimento global, “pois Deus fez o mundo por um tempo finito” – e um radialista cristão, cuja presença no filme é dispensável. As cenas com ele parecem ter sido incluídas apenas assegurar à platéia que nem todos os cristãos dos EUA são malucos ou ignorantes.

Como se vê, é perceptível o esforço das diretoras para deixar o documentário o mais imparcial possível, mas as imagens falam por si – e algumas das seqüências têm potencial para deixar qualquer pessoa de cabelo em pé, como as inaceitáveis sessões de reza, em que os gritos e lágrimas são parte essencial para “expulsar os demônios”. O filme funciona perfeitamente em dois níveis distintos, tanto na escala íntima (o retrato de cada uma das crianças é vibrante, revelando com clareza a confusão que há por trás de cada uma daquelas cabecinhas doutrinadas) quanto na macro-escala (fica evidente que as ligas evangélicas têm um projeto político e olham firmemente para um futuro a longo prazo, o que é alarmante). Como cinema e como alerta político, “Jesus Camp” é programa de primeira classe.

O documentário não foi lançado nos cinemas brasileiros, e por enquanto ainda não ganhou lançamento por aqui em DVD. O disco norte-americano tem ótima qualidade (vídeo em formato 1.33:1, áudio em Dolby Digital 2.0) e dois extras: comentário em áudio das diretoras e galeria de cenas cortadas. Legendas em inglês.

– Jesus Camp (EUA, 2006)
Direção: Heidi Ewing e Rachel Grady
Documentário
Duração: 84 minutos

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