JFK – A Pergunta que Não Quer Calar

04/04/2008 | Categoria: Críticas

Embora delirante, versão de Oliver Stone para o assassinato de Kennedy realiza trabalho técnico admirável

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

O dia 22 de novembro de 1963 vai permanecer na história internacional como a data de um dos mais controversos assassinatos políticos de todos os tempos. Na ocasião, morria o presidente mais popular da história recente dos Estados Unidos, John F. Kennedy. Cercados de detalhes obscuros e fatos inexplicáveis, tanto o crime como a investigação que se seguiu contribuíram para que fosse criado, em torno do fato, um clima conspiratório avassalador. A maior parte da população norte-americana jamais engoliu a versão oficial de que a morte foi obra de um atirador solitário. Reunindo as inúmeras teorias conspiratórias em uma narrativa dinâmica e coerente, o cineasta Oliver Stone representou o papel de reabilitador da “verdade” ao lançar “JFK – A Pergunta que Não Quer Calar” (EUA, 1991).

Quando foi lançado, em 1991, “JFK” trouxe consigo um enorme rastro de polêmica que jamais abandonou Oliver Stone. O diretor foi acusado, por boa grande parte dos comentaristas políticos dos EUA, de mentir. Ele teria deliberadamente apresentado como verdades uma série de boatos, suspeitas e desconfianças, jamais provadas, a respeito do caso Kennedy. Até mesmo alguns críticos cinematográficos, que ressaltaram a excelente quantidade do filme, fizeram ressalvas quanto ao conteúdo bombástico da narrativa. A chave para reabilitar a obra foi dada por Roger Ebert. O veterano crítico de Chicago afirma que “JFK” apresenta uma espécie de “verdade emocional” para a morte de Kennedy. Em outras palavras, o filme de Oliver Stone reúne todas as teorias conspiratórias disponíveis sobre o caso em uma história coerente, e dá ao público norte-americano aquilo que as autoridades responsáveis pela investigação nunca conseguiram: respostas.

Do ponto de vista estritamente cinematográfico, há inúmeras qualidades no filme de Stone. O diretor consegue reunir, em pouco mais de três horas, uma quantidade absurdamente grande de personagens, tramas paralelas e fragmentos de informação, e constrói a partir desta mixórdia interminável de impressões um todo firme e coerente. Para dar cabo desta tarefa extraordinária, fundamental mesmo foi a escolha do ponto de vista. Stone decidiu narrar o caso do ponto de vista de Jim Garrison, promotor da cidade de New Orleans. Ele não fez parte da investigação oficial, e trabalhava numa cidade localizada a milhares de quilômetros de Dallas, onde Kennedy morreu. Mesmo assim, Garrison (interpretado por Kevin Costner) se revela a o protagonista perfeito. Ele representa com propriedade os incrédulos e desconfiados milhões de norte-americanos que nunca engoliram muito bem as lacunas e erros da investigação oficial.

Garrison era um homem obsessivo. Graças ao poder lhe conferido pelo cargo público, ele pôde montar uma investigação informal sobre o assassinato do presidente, devido às conexões entre o principal suspeito do crime – o militar Lee Harvey Oswald (Gary Oldman), casado com uma russa – e a cidade de New Orleans. Com uma pequena equipe de investigadores, Garrison passou anos verificando pistas, localizando testemunhas, analisando documentos. Ele levou a julgamento um próspero empresário local (Tommy Lee Jones), sob a acusação de conspiração para acobertar os supostos assassinos de Kennedy. O caso foi derrotado na Justiça, mas o longa-metragem se transformou numa vitória pessoal. Nos EUA, qualquer pesquisa popular comprova que os americanos acreditam mais na versão de Oliver Stone do que no resultado da investigação oficial.

Analisada friamente, a conclusão de Stone Parece mesmo delirante, quase paranóica. Indica um vasto complô, envolvendo setores da CIA, do FBI, da Casa Branca, da máfia e da comunidade de cubanos exilados nos EUA, como responsável pelo assassinato e pelo subseqüente acobertamento. É difícil acreditar em uma conspiração tão gigantesca, mas Oliver Stone demonstra tamanha habilidade na manipulação dos dados que sua versão da história soa convincente. Longo, eloqüente e apaixonado pela polêmica, “JFK” é um típico filme de Oliver Stone.

As qualidade cinematográficas são inegáveis. O roteiro não apenas comprime uma quantidade inacreditável de informações e personagens numa história clara, mas também desenvolve um protagonista coerente. Jim Garrison é mostrado como um americano típico: ambicioso, inteligente, honesto e apaixonado pela família. Como milhares de compatriotas, ele fica obcecado pelo caso – e tem os meios para conduzir uma investigação pessoal sobre ele, ainda que isto lhe cause problemas profissionais e o afaste da família. A fotografia de Robert Richardson e a edição de Joe Hutshing e Pietro Scalia, ambas premiadas com o Oscar, são extraordinárias. O primeiro usa bitolas de todos os tipos (8mm, 16mm, vídeo, Super Oito) para distinguir trechos no presente de flashbacks, reconstituições informais, reportagens jornalísticas e vídeos caseiros, ajudando o espectador a não se perder no meio de tanta informação. Os outros dois reúnem todas essas informações visuais num todo eletrizante.

Se os méritos técnicos são inquestionáveis, a polêmica real está no método de trabalho de Oliver Stone. Para começar, o diretor exagera no melodrama, especialmente no terceiro ato (o julgamento do empresário acusado de conspiração), durante o qual Jim Garrison consegue a proeza de se reconciliar com todas as pessoas com quem teve desavenças durante a investigação. Além disso, Stone distorce deliberadamente a personalidade do protagonista, transformando-o numa pessoa absolutamente confiável e honesta. Na vida real, não era assim. O verdadeiro Jim Garrison (que faz uma ponta no filme como o juiz Earl Warren, chefe da comissão oficial que investigou o assassinato) era conhecido como exibicionista, alguém que apostava em casos perdidos, mas que lhe davam os holofotes da imprensa. Era comum que o promotor de New Orleans fosse derrotado nos julgamentos, mas ele sempre saía deles mais famoso – e é exatamente o caso aqui.

Stone também não hesita em distorcer fatos históricos e/ou eliminar discrepâncias que ponham em cheque a versão defendida por ele. Qualquer estudioso do caso que examinar atentamente a narrativa do longa-metragem vai encontrar pequenos problemas: personagens simplificados, linhas investigativas consistentes que foram deixadas de lado, frases inexatas e uma série de outros fatores que acabam por dar razão aos críticos do filme. Stone chega ao cúmulo de apontar a suposta posição de Kennedy sobre a guerra do Vietnã, uma obsessão particular do cineasta, como razão maior para aqueles que o queriam ver morto (e Stone está errado neste ponto, algo que fica evidente para quem ver o excelente documentário “Sob a Névoa da Guerra”, de Errol Morris). Para reconhecer a grandeza de “JFK”, é preciso ter em mente de que a película não pretende ser mais do que uma narrativa possível para o caso, construída por um diretor muito talentoso, mas que acredita piamente em narrativas conspiratórias.

A versão lançada nos cinemas, com 189 minutos, curiosamente nunca saiu em DVD no Brasil. Por essas bandas há duas edições digitais, uma simples e uma dupla. As duas contêm a versão do diretor, com 206 minutos, com qualidade boa de imagem (widescreen 2.35:1 letterboxed) e áudio (Dolby Digital 5.1). Um comentário em áudio de Oliver Stone acompanha o disco. A edição dupla contém galeria de doze cenas inéditas (55 minutos, com opção de comentários do diretor) e dois featurettes abordando aspectos da investigação do caso real (45 minutos no total). O material extra não tem legendas em português. O lançamento é da Warner.

– JFK – A Pergunta que Não Quer Calar (EUA, 1991)
Direção: Oliver Stone
Elenco: Kevin Costner, Gary Oldman, Tommy Lee Jones, Sissy Spacek
Duração: 205 minutos

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