Joelho de Claire, O

19/10/2007 | Categoria: Críticas

Eric Rohmer mistura “Ligações Perigosas” com “Lolita” em típica ciranda amorosa guiada pelas palavras

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Um dos clichês mais injustos do cinema europeu é aquele que impinge aos filmes realizados pelos diretores da nouvelle vague francesa (Truffaut, Godard, Chabrol) os rótulos de chatos e verborrágicos. Quem classifica assim toda a produção dos franceses atira no mesmo saco gente de estilos completamente distintos – o experimental e engajado Godard, o afetuoso Truffaut, o cerebral Chabrol – e demonstra clara incapacidade de distinguir autores verdadeiros de operários da direção. De qualquer forma, é provável que um consumidor clássicos de produtos da grife Hollywood encaixe neste rótulo justamente as obras de Eric Rohmer.

Nos filmes do mais prolífico autor da nouvelle vague, quase nada acontece. Os personagens falam sem parar e agem muito pouco. O estilo de cinema praticado por Rohmer é diametralmente oposto à dramaturgia clássica adotada pelos grandes estúdios. O francês prefere a palavra à ação, enquanto os personagens dos blockbusters quase sempre calam as bocas e saem correndo. “O Joelho de Claire” (Le Genou de Claire, França, 1970), quinto dos seis títulos que compõem o conjunto temático batizado de “Contos Morais”. O enredo traça uma ciranda amorosa bem típica da obra de Rohmer, com três ou quatro personagens disputando uma espécie de jogo afetivo repleto de paqueras e segundas intenções.

A trama lembra um cruzamento de “Ligações Perigosas” com “Lolita”. O protagonista é o diplomata Jerome (Jean-Claude Brialy). A uma semana do casamento, ele passa férias sozinho em um lago no leste da França. Junto com a amiga escritora Aurora (Aurora Cornu), Jerome descobre que uma esperta adolescente de 16 anos chamada Laura (Béatrice Romand) está apaixonada por ele. A dupla decide então manipular os acontecimentos para que ele possa seduzir a garota. A intenção, um tanto cruel, é registrar os sentimentos dela e obter material para o novo livro que a escritora está escrevendo. Ao mesmo tempo, parece ser a última chance para que Jerome exercite um pouco seus dotes masculinos, já que ele está bem perto de casar em definitivo.

Como as coisas nunca acontecem do jeito que as pessoas planejam, Laura acaba se revelando uma adolescente extremamente madura. Grande parte do charme do longa-metragem decorre exatamente da inversão de papéis que se estabelece na relação entre a menina e o diplomata, pois ela parece muito mais adulta do que ele, que está sempre às voltas com joguinhos sexuais típicos da juventude. Para completar, Jerome acaba desenvolvendo uma obsessão exótica pela meia-irmã de Laura, uma loirinha inocente chamada Claire (Laurence de Monaghan). Está armado um triângulo amoroso pouco convencional, com potencial concreto para deixar qualquer purista chocado. Se for o seu caso, passe longe deste filme.

Como de hábito na obra de Eric Rohmer, os personagens (sempre em férias) se lançam em longas conversas sobre amor e sexo, quase todas as vezes em ambientes cercados de muita natureza. Não há quase nenhuma ação física, e isso torna o andamento da trama quase impossível de prever. Por causa dessa característica, o ritmo é bem mais lento do que o normal, o que pode incomodar muita gente. Por outro lado, os diálogos de Rohmer (que também escreveu o roteiro) garantem a atenção dos cinéfilos, pois os papos são invariavelmente deliciosos, cheios de descrições vívidas e dilemas morais instigantes. Com cirandas afetivas como esta, Rohmer acabou por se tornar um dos diretores que melhor soube radiografar em celulóide as idiossincrasias do comportamento afetivo da geração dos anos 1970 e 80.

Além disso, o trabalho é maravilhoso também do ponto de vista estritamente técnico. “O Joelho de Claire” é cuidadosamente estruturado em capítulos, cada um correspondendo aos acontecimentos de um dia. Esta característica, associado às longas tomadas de composição sofisticada (cortesia do grande fotógrafo Nestor Almendros, colaborador freqüente do cineasta francês) e à ausência de trilha sonora, dão ao conjunto uma atmosfera leve e frívola, passando a impressão de despojamento e improvisação, algo bem distante da realidade. Sabe-se que Rohmer utilizava uma marcação rígida das cenas e gostava que os diálogos se ativessem ao roteiro original. O resultado alcançado confirma o grande talento do francês na direção de atores.

O DVD nacional, lançado pela Europa Filmes, é espartano: imagem apenas razoável (tela cheia, formato original), áudio apenas OK (Dolby Digital 2.0) e, como extra, apenas o filme em formato MP4, para ser tocado em iPods e aparelhos portáteis, mas com áudio em francês e sem legendas.

– O Joelho de Claire (Le Genou de Claire, França, 1970)
Direção: Eric Rohmer
Elenco: Jean-Claude Brialy, Aurora Cornu, Béatrice Romand, Laurence de Monaghan
Duração: 105 minutos

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