Jogada de Risco

04/04/2007 | Categoria: Críticas

Ouvido privilegiado de PT Anderson para diálogos é a maior qualidade do filme de estréia dele

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

“Jogada de Risco” (Hard Eight, EUA, 1992) não parece um filme de estreante. Exibindo segurança invejável na condução da história e olho privilegiado para longas tomadas em que a câmera segue personagens em movimento, o talentoso diretor Paul Thomas Anderson mostrava, com a produção independente, que chegava para se firmar como um dos mais autorais cineastas de sua geração nos Estados Unidos. Mas a melhor qualidade do longa-metragem é a incrível capacidade de Anderson para construir diálogos fascinantes, ditos por personagens extremamente bem desenvolvidos.

O filme que colocou PT Anderson no mapa nasceu de um curta-metragem chamado “Coffee and Cigarettes”. Em 1995, o autor botou o filminho embaixo do braço e foi fazer laboratório no Festival de Sundance, onde escreveu novos tratamentos que ampliaram a história para um drama de longa duração, envolvendo jogadores profissionais na região dos cassinos de Reno, cidade no meio-oeste dos EUA que é uma espécie de Las Vegas de segundo escalão. O trabalho de Anderson chamou a atenção, mas como os grandes estúdios não estavam interessados em uma história sem ação física, acabou sendo financiada pelos atores que se mostraram interessados em trabalhar no longa, especialmente os já famosos Gwyneth Paltrow e Samuel L. Jackson.

A história é sobre a relação paternal que se estabelece entre dois homens. Sydney (Philip Baker Hall) é um experiente e solitário jogador profissional em cassinos da região. John (John C. Reilly) não passa de um vagabundo sem dinheiro que é salvo da miséria pelo primeiro. O filme se concentra em examinar a relação inusitada entre esses dois homens – Sydney demonstra amor, compreensão e paciência de pai, para com o mais jovem, enquanto este é pura admiração e respeito diante do veterano – ameaçada por dois outros integrantes da fauna noturna que habita os cassinos: a garçonete Clementine (Paltrow) e o vigilante Jimmy (Jackson). Não vale a pena revelar mais do que isto.

O crítico Roger Ebert escreveu que em “Jogada de Risco” não importa a história, mas os diálogos. Verdade. O roteiro, de autoria do próprio diretor, é uma jóia rara. Vale a pena observar como cada um dos quatro personagens principais tem uma característica particular que distingue aquilo que fala dos demais. Sydney fala pouco, mas sabe olhar atrás das aparências, mais ou menos como o personagem de Harvey Keitel em “Pulp Fiction” (1994); John é ingênuo e facilmente manobrável; Clementine sorri de modo esquivo e manipulador, tendo opiniões firmes e teimosia latente; e Jimmy possui a ginga de um malandro que mente compulsivamente. O filme toma muito cuidado com as palavras. Cada personagem usa um vocabulário distinto e possui uma linguagem corporal única. E isto não é apenas raro, mas ótimo.

O filme não foi lançado no Brasil em DVD. A edição norte-americana é excelente: além do filme (imagens wide 2.35:1 anamórficas, áudio Dolby Digital 2.0), há uma cena deletada, três cenas criadas durante o processo de elaboração do roteiro em Sundance, e dois comentários em áudio, um unindo o diretor e Baker Hall, e o outro com vários membros do elenco e da equipe técnica.

– Jogada de Risco (Hard Eight, EUA, 1992)
Direção: Paul Thomas Anderson
Elenco: Philip Baker Hall, John C. Reilly, Gwyneth Paltrow, Samuel L. Jackson
Duração: 102 minutos

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