Jogador, O

03/10/2006 | Categoria: Críticas

Robert Altman cria um bem-humorado conto de mistério sobre os bastidores de Hollywood.

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Ao longo de uma carreira longa e repleta de momentos brilhantes, o diretor Robert Altman se notabilizou como uma exceção na indústria cinematográfica. Remando contra a maré da maioria dos cineastas, Altman foi se especializando em narrativas que priorizavam o elemento coletivo ao individual. Ou seja, em boa parte dos filmes que dirigiu, não existe um protagonista, mas um grupo – às vezes dezenas – de personagens que interagem, em inúmeras histórias cruzadas. “O Jogador” (The Player, EUA, 1992) tenta adaptar o estilo fragmentado de Altman a um bem-humorado conto de mistério sobre os bastidores de Hollywood.

Sob diversos aspectos, o longa-metragem é um típico filhote de Robert Altman, e tem diversas características facilmente perceptíveis nos filmes dele. Vejamos: possui um elenco numeroso e cheio de rostos famosos, muitas vezes fazendo pequenas pontas não creditadas; está embebido de um humor negro sutil e elegante, embora mordaz; tem pelo menos trinta personagens com diálogos, número muito acima da média das produções dos grandes estúdios. Por outro lado, não há aqui os radicalismos de “Nashville” (1975) e “Short Cuts” (1993), os dois filmes mais bem-sucedidos na tarefa de filmar as atividades de um grupo de pessoas, sem seguir necessariamente apenas uma.

Existe um protagonista evidente em “O Jogador”. Ele é Griffin Mill (Tim Robbins), produtor de cinema que vem de sucessivos fracassos e está por um fio no confortável cargo executivo que exerce num grande estúdio. O filme conta a história dele e segue o ponto de vista dele, que está em quase todas as cenas. Sob intenso estresse, Mill tem que lidar com um concorrente promissor (Peter Gallagher) que lhe ameaça o cargo, enquanto procura descobrir a identidade de homem que lhe tem enviado cartões postais ameaçadores. A “investigação” do executivo, contudo, pode lhe custar muito caro.

Trata-se de uma produção bem mais acessível do que os trabalhos mais atrevidos de Altman. A rigor, o que ele cria aqui é uma comédia de humor negro disfarçada de thriller. A estrutura narrativa é mais clássica, embora o roteiro inteligente insista em realizar aquilo que Altman conhece melhor: radiografar os hábitos e as vicissitudes de uma comunidade específica. O diretor fez isso com o mundo da moda (“Pret-a-Porter”), com uma cidade (“Nashville”), com um bairro chique de Los Angeles (“Short Cuts”). Em “O Jogador”, realizou a mesma coisa, mas em um filme com aparência mais, digamos, normal.

Altman brinca com a estrutura narrativa do thriller para tecer comentários divertidos – e muitas vezes venenosos – sobre os bastidores de Hollywood. Anos depois, em 2001, ele faria o mesmo ao sujar com sangue o ambiente de uma festa de casamento rica (“Assassinato em Gosford Park”). O filme em si é um verdadeiro banquete de citações a longas-metragens e personagens de Hollywood (atores, produtores, roteiristas, executivos), e o exercício de “caça ao tesouro” – ou seja, procurar citações escondidas – pode ser irresistível para muitos cinéfilos.

Há outros acertos. A virtuosística seqüência inicial, com oito minutos sem cortes em que a câmera percorre diversos grupos de pessoas, dentro de fora de um complexo de edifícios com estacionamento único, não apenas apresenta o mundo dos personagens, mas também cita explicitamente a abertura de “A Marca da Maldade” (1958). Há um núcleo principal de personagens fictícios – Tim Robbins, Fred Ward, Greta Scacchi, Whoopi Goldberg, Lyle Lovett – que contracena indistintamente com cerca de 50 personagens reais, a exemplo de John Cusack, Burt Reynolds e Cher. E há até mesmo um “filme dentro do filme”.

Apesar de não ser tão brilhante quanto as melhores obras de Altman, “O Jogador” tem qualidades suficientes para ser considerado um dos longas-metragens mais interessantes a abordar os bastidores da indústria mais rica do cinema. Mesmo não sendo especialmente inovador, ainda é um prato cheio para os cinéfilos interessados na história do cinema, e o olhar venenoso que lança a Hollywood o coloca lado a lado com obras geniais que enfocaram o mesmo tema, como “Crepúsculo dos Deuses” (1950). Não é pouco.

Embora não tenha sido lançado no Brasil, o filme está disponível em DVD numa boa edição norte-americana da New Line. O disco contém uma cópia de imagem (widescreen 1.85:12 anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1) muito boas, mais um comentário em áudio que reúne Altman e o roteirista Michael Tolkin, uma entrevista com o cineasta (16 minutos), galeria com cinco cenas cortadas e um guia com uma lista das aparições de celebridades.

– O Jogador (The Player, EUA, 1992)
Direção: Robert Altman
Elenco: Tim Robbins, Greta Scacchi, Peter Gallagher, Fred Ward
Duração: 123 minutos

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