Jogo de Cena

01/12/2008 | Categoria: Críticas

Eduardo Coutinho funde realidade e ficção, rompe com todos os códigos de fruição de um filme e cria obra-prima de alta voltagem emocional

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Sempre que é convidado para falar do próprio trabalho, Eduardo Coutinho recusa o rótulo de “entrevistador” que lhe atribuem. O diretor acha que os fantásticos depoimentos que pontuam cada um de seus filmes, sempre encharcados de afeto, são conversas, e não entrevistas. Seja como for, Coutinho consegue extrair histórias maravilhosas de cada personagem, histórias repletas de detalhes confessionais que a maioria das pessoas não tem coragem de contar nem ao melhor amigo. Por causa desse extraordinário dom de saber ouvir, os filmes de Coutinho sempre guardam a promessa de belas histórias humanas. O que diferencia “Jogo de Cena” (Brasil , 2007) de outros trabalhos excepcionais do documentarista é uma perspectiva totalmente inédita de recepção, uma perspectiva que rompe os paradigmas de fruição de um filme e injeta, durante toda a projeção, enormes pontos de interrogação na cabeça do espectador. “Jogo de Cena” é um filme diferente de tudo o que você já viu.

Por si só, o método espartano de Coutinho não explica tamanha inventividade. Neste caso, o diretor publicou um anúncio num jornal popular do Rio de Janeiro, convocando mulheres que tivessem boas histórias para participar de um documentário. Cartazes com esta convocação foram colados no metrô. Apareceram 83 mulheres, das quais 23 foram selecionadas e filmadas no Teatro Glauce Rocha, no Rio de Janeiro, em junho de 2006. Posteriormente, Coutinho selecionou atrizes profissionais e pediu que cada uma interpretasse um dos depoimentos, com liberdade para seguir os próprios instintos. Cada atriz recebeu o vídeo do depoimento que deveria interpretar. Em setembro, no mesmo teatro, Coutinho gravou as atrizes. Algumas delas famosas, como Fernanda Torres, Marília Pêra e Andréa Beltrão. Outras desconhecidas.

Quando apresentou o filme em Gramado, Coutinho explicou sua intenção: “estava interessado em saber como uma pessoa comum vira personagem de si mesma e se torna pública, e como uma atriz volta a ser uma pessoa comum”. O resultado, inesperado e sensacional, simplesmente implode todos os códigos de fruição de um filme, obrigando o espectador a reordenar sua percepção daquilo que está vendo a cada novo depoimento. Funciona assim: quando entra numa sala escura (ou senta na poltrona para ver a obra na TV), o espectador está participando de um acordo tácito, não-verbal, com o autor/cineasta. Ele se compromete a aceitar como verdade, ainda que num plano ficcional, tudo o que verá nas próximas duas horas. O que a obra de Coutinho realiza é um processo contínuo de desconstrução deste acordo tácito, ao mesclar depoimentos “verdadeiros” e “falsos” (assim mesmo, entre aspas) sem informar ao público a natureza de cada depoimento.

Por que as aspas? Porque Coutinho sabe, e nós também sabemos (embora nem sempre conscientemente), que todos os seres humanos mesclam, no cotidiano, um tanto de ficção à realidade física que nos envolve. Quando damos um depoimento pessoal, especialmente de foro íntimo, tendemos a realçar detalhes, esconder outros, distorcer e alterar aquilo que foi vivido. Se este processo for consciente, o depoente está mentindo. Se for inconsciente, trata-se da memória pregando uma peça. De uma forma ou de outro, o relato de casos pessoais é sempre uma representação. Ao colocar atrizes para absorver e recontar vivências de outras mulheres, às vezes com diferentes ênfases emocionais, Coutinho nos joga na cara esta natureza ficcional da realidade.

E vice-versa. Afinal, quando uma atriz absorve um depoimento de tamanha intensidade emocional, se for boa profissional, ela não se limita a repetir aquilo tudo da boca para fora. De algum modo, ela vive dentro da própria cabeça aquela ficção, que assim ganha a força emocional de um fato real. Basta ver o caso de Andréa Beltrão, encarregada de reinterpretar a história da mulher que perdeu um filho recém-nascido e continua a se relacionar com ele, como se o bebê estivesse vivo, numa dimensão imaginária. O relato da mãe é emocional, mas frio e controlado. Ao absorver a história, Andréa desaba em lágrimas (que, como explica mais tarde, foram incontroláveis – ela simplesmente não conseguiu segurar o choro, porque estava vivendo aquela dor). O que isso quer dizer? Que na cabeça de Andréa, aquilo não era pura ficção. Tinha o valor emocional de uma verdade, e portanto era real.

O maior mérito de “Jogo de Cena” é realizar, não apenas de forma brilhante e original, mas sobretudo orgânica e espontânea, a constatação irreprimível de que ficção e realidade são, na verdade, duas faces de uma mesma moeda. Como espetáculo cinematográfico, é uma jóia de primeira grandeza. Os depoimentos são belos, quentes, saborosos, cheios de pequenos detalhes que dão cor e textura à narrativa. Preste atenção ao trecho em que uma entrevistada relata a visão que teve ao voltar para casa pela primeira vez, vários meses após uma tragédia lhe roubar um filho, e abrir a geladeira – pimentões e cebolas brotando como uma selva de alimentos. É um detalhe impressionante, uma descrição vívida da realidade, o tipo de observação que transforma uma boa história em um momento inesquecível.

Junto com a montadora Jordana Berg, Coutinho nos brinda com uma sacada genial: a cada novo depoimento, ele nega o código de fruição construído pelo anterior e abre uma nova perspectiva de recepção, jamais permitindo que o espectador estabeleça uma lógica para compreender o que está vendo. O filme abre com a história de uma jovem mãe que perdeu o filho alguns dias após o nascimento. Andréa Beltrão vem a seguir, repetindo o mesmo depoimento e acrescentando comentários sobre sua própria interpretação. Assim, o espectador imagina que esta será a estrutura do documentário:
um relato “real”, seguido de uma versão “ficcional” do mesmo episódio, e mais um comentário da atriz sobre as dificuldades e prazeres do que acabou de fazer. Certo?

Errado. Quando Fernanda Torres aparece pela primeira vez, e começa a contar uma história de adolescente sobre visita a um terreiro de umbanda, ficamos desconcertados. Aquela história não havia aparecido antes na boca de uma desconhecida, como havia ocorrido com Andréa Beltrão. O que isto quer dizer? Que Fernanda está citando uma passagem da própria vida? Talvez sim, talvez não… é uma história tão rica em detalhes que parece real. Coutinho repete esta estratégia a cada novo depoimento, reordenando sucessivamente o real e o ficcional, e sempre acrescentando novos dados que o espectador precisa processar e absorver, antes de compreender. Paira, acima dessa estratégia narrativa genial, uma questão mais ampla: será que isto – a procedência, a origem de cada história – realmente interessa, dentro da perspectiva de entrelaçamento da ficção com a realidade, que é o grande tema do filme?

Outro bom exemplo da originalidade da narrativa acontece no meio da projeção. Uma mulher negra e desconhecida conta uma longa história sobre uma gravidez oriunda de uma relação sexual fortuita num ponto de ônibus. Ela finaliza com uma frase quase despretensiosa: “assim ela falou”. E o espectador, que até ali tinha certeza absoluta de que aquela história estava saindo da boca da pessoa que a viveu originalmente, fica sem saber se aquela mulher era ou não uma atriz (aliás, que ótima atriz!). Assim, a cada novo depoimento, Coutinho derruba as premissas que ele mesmo construiu anteriormente, obrigando o espectador a reorganizar mentalmente suas expectativas sobre o que está vendo. Isso dura até que você, membro da platéia, perceba que está desesperadamente tentando antecipar a narrativa, e que Coutinho, sabendo que você ia tentar isso, brinca com você à maneira de Alfred Hitchcock. É por isso que o simples ato de assistir ao filme vira uma experiência única, diferente, estimulante e enriquecedora.

Muita gente imagina que este tipo de operação de desconstrução dos paradigmas de recepção de filmes só pode ser tentada em obras cerebrais, difíceis, cuja apreciação não envolve prazer. “Jogo de Cena” desmonta mais este mito, porque mostra que um filme único também ser emocionante, fazer rir e chorar, a partir de uma estética de simplicidade franciscana. Afinal de contas, todos os depoimentos têm exatamente o mesmo e prosaico cenário: as cadeiras vermelhas vazias do teatro onde Coutinho recebe cada mulher. A monotonia visual foi obtida intencionalmente por Coutinho – ele queria que o espectador se concentrasse exclusivamente em cada depoimento, nas palavras e na linguagem corporal de cada mulher a aparecer na tela. Veja o filme junto com uma platéia, que reage a ele de forma extremamente emocional, com gargalhadas e lágrimas, e confirme que o objetivo foi alcançado plenamente.

Curiosamente, há elementos recorrentes em “Jogo de Cena”. Quase todos os depoimentos giram em torno de temas e palavras-chave profundamente freudianos – relações entre pais e filhos, morte, gravidez, sonhos, Deus – mas a abordagem é sempre simples e calorosa, sem qualquer tentativa de psicologizar personagens tão ricos. Ao final de “Jogo de Cena” (que, aliás, termina num depoimento devastador que prega a última e mais atordoante peça no espectador), sobra uma única certeza: Eduardo Coutinho não é apenas o maior documentarista brasileiro, rótulo que lhe grudaram há anos e que se revela não apenas insuficiente, mas também injusto e até preconceituoso (porque parte da premissa de que o documentário é uma espécie de segunda divisão do cinema). É, certamente, um dos melhores e mais talentosos diretores do mundo.

O DVD da Videofilmes, simples, vai além do filme, que tem ótima qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 2.0). Há comentário em áudio que reúne Coutinho, o colega João Moreira Salles e o crítico Carlos Alberto de Mattos, além de cenas das pré-entrevistas com as personagens do filme.

– Jogo de Cena (Brasil , 2007)
Direção: Eduardo Coutinho
Com Fernando Torres, Andréa Beltrão, Marília Pêra
Duração: 105 minutos

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