Jogo de Sedução

02/12/2004 | Categoria: Críticas

Romance trágico ou thriller eletrizante? Filme de Matthew Parkhill é promissor início de carreira

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Alguém pode imaginar porque cargas d’água o mexicano Gael Garcia Bernal foi escalado para interpretar um ator brasileiro desempregado, à procura de trabalho em Londres? Isso é o que acontece no filme “Jogo de Sedução” (Dot the I, Inglaterra/Espanha, 2003). Parece uma excentricidade, levando em consideração que há brasileiros de verdade, com cacife e talento comprovados, capazes de levar a tarefa a cabo – o nome de Rodrigo Santoro, que filmava na Inglaterra durante a mesma época o badalado “Simplesmente Amor”, vem à cabeça. Bem, eu tenho uma teoria para explicar essa bagunça.

Você pode perguntar o que tem a ver essa teoria com o fato de “Jogo de Sedução” ser, ou não, um bom filme. É uma pergunta justa, e você vai ter que acompanhar um raciocínio meio longo para entender a conexão entre as duas coisas. Antes, para os mais apressados, acho importante dizer que “Jogo de Sedução” é um ótimo filme, que trafega entre o romance trágico e o thriller eletrizante de maneira firme e inteligente, com um único deslize no final. Um deslize feio, é verdade.

Mas vejamos: no filme, escrito e dirigido pelo diretor estreante Matthew Parkhill, Bernal interpreta Kit, o tal ator. Enquanto janta com dois amigos em um restaurante francês, o rapaz observa a festa de despedida de solteira de Carmen (Natalia Verbeke). A garota, que trabalha como garçonete e eventualmente dança em uma boate, vai casar em poucos dias com um rico sujeito inglês, Barnaby (James D’Arcy). Ela parece feliz, vestida como Charles Chaplin, com bigode e tudo.

A certo momento, o garçom interrompe a farra e pede que a noiva cumpra uma tradição francesa. Ela precisa escolher um cliente e dar-lhe um beijo na boca, o último beijo de solteira. Carmen escolhe Kit. Quando os dois se beijam, saem faíscas. A paixão é instantânea, e de parte a parte. Está formado um triângulo amoroso inusitado, em que nada é exatamente o que parece ser. Em termos de enredo, isso é tudo o que o espectador deve saber antes de assistir a “Jogo de Sedução”.

Quase tudo, durante os primeiros 60 minutos de exibição, leva a crer que estamos vendo uma clássica história de amor trágica. Exceto por um detalhe: a narrativa visual é entrecortada, a todo instante, com cenas gravadas em uma câmera digital amadora, que mostram os mesmos momentos de uma perspectiva diferente da narrativa “oficial”. É como se toda a vida de Carmen e Kit estivesse sendo espiada e registrada por algum voyeur, alguém que tem acesso irrestrito aos dois, se esconde atrás de paredes e janelas, e flagra cada instante da intimidade da dupla. Quem seria?

Esse é o toque de gênio de Matthew Parkhill. Ao incluir essas cenas em um formato diferente (as imagens obtidas em vídeo digital são tremidas e ligeiramente fora de foco), ele cria uma tensão que jamais estaria no filme de outra maneira. As cenas lembram constantemente a platéia de que algo esquisito está acontecendo àqueles dois – e queremos estar lá, vendo tudo, quando o mistério for revelado.

Além disso, como as cenas caseiras interrompem o fluxo visual do filme freqüentemente, emprestam ao relacionamento entre Carmen e Kit um senso de urgência. Isso ajuda na química entre os dois atores, que já é intensa. Dessa forma, o filme funciona. Verbeke e Bernal estão esplêndidos, e qualquer um seria capaz de jurar que eles são mesmo um casal ardentemente apaixonado, vivendo os primeiros – e últimos – momentos juntos. Ponto para a fotografia do brasileiro Affonso Beato, que trafega entre o elegante e o decrépito, sempre ao sabor da sensação exigida pelo filme.

Paralelamente a tudo isso, Parkhill vai plantando pequenos detalhes que não encaixam na narrativa. São coisas minúsculas, que podem passar despercebidos a uma platéia desatenta, mas reforçam a sensação de que existe algo errado com o namoro. Por exemplo: como é que Kit, um sujeito desempregado, arruma grana para jantar em um refinado restaurante francês? Por que ele vive andando com uma câmera digital (que registra imagens estranhamente familiares às que vemos espiando os dois, o bom espectador vai observar)? O que significa a cicatriz que Carmen tem no pulso? Qual a relação entre o ex-namorado obsessivo que ela deixou na Espanha e o misterioso voyeur de identidade desconhecida?

O filme administra magistralmente esses detalhes, construindo uma teia complicada de relações entre os três amantes (a certo momento, o papel aparentemente passivo de Barnaby no caso começa se tornar mais importante). O problema está nas respostas. Matthew Parkhill soube criar suspense com eficiência rara nos dias de hoje, mas perdeu a mão ao revela à platéia (e aos protagonistas) a solução dos mistérios que criou. E é nesse ponto que entra a teoria sobre a nacionalidade de Kit.

Uma das perguntas (talvez a única) que “Jogo de Sedução” não responde é a língua falada pelos personagens. Como explicar que um mexicano e uma argentina contracenem sozinhos durante boa parte do filme e falem exclusivamente em inglês? Qual o sentido de ter dois atores jovens de talento, muito conhecidos na Espanha e na América Latina, e não lhes deixar falar a língua-mãe? Por que não colocar nos papéis dois atores norte-americanos, já que falar inglês parece ser prerrogativa básica do enredo?

Minha teoria é de que houve interferência do estúdio no enredo para forçar a adoção do inglês como língua oficial de “Jogo de Sedução”. Como se sabe, norte-americanos não gostam de legendas. Daí a mudança da nacionalidade de Kit, de mexicano para brasileiro (ele explica a um personagem, em uma cena do filme, que brasileiros não sabem falar espanhol, e é por isso que não conversa com Carmen nessa língua). Essa deve ter sido apenas uma das adaptações feitas no enredo para ajustar a trama ao desejo do estúdio. E posso apostar que essas adaptações acabaram por deixar o final confuso e pouco coerente, o que decepciona bastante.

De qualquer forma, “Jogo de Sedução” tem uma excelente primeira hora de projeção. O filme, que fez grande sucesso no festival independente de Sundance em 2003, lembra um pouco o estranho “Retrato de Uma Obsessão”, provavelmente porque ambos tratam o elemento voyeur de forma contemporânea, cruzando-o com o fator tecnologia e inserindo as duas coisas em um contexto social urbano e jovem. Isso parece abrir uma estrada inteira de indagações e questionamentos sobre a natureza da imagem no século XXI. E filmes que conseguem apontar para esse tipo de reflexão, mesmo com defeitos, são muito promissores.

O DVD nacional do filme tem um curto documentário, trailer e o filme com boa qualidade de imagem (widescreen) e som (Dolby Digital 5.1).

– Jogo de Sedução (Dot the I, Inglaterra/Espanha, 2003)
Direção: Matthew Parkhill
Elenco: Gael Garcia Bernal, Natalia Verbeke, James D’Arcy, Tom Hardy
Duração: 92 minutos

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