Jogo Subterrâneo

03/11/2006 | Categoria: Críticas

Roberto Gervitz faz filme urbano, elegante e intimista sobre a solidão nas grandes metrópoles

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O romântico e solitário drama urbano “Jogo Subterrâneo” (Brasil, 2005) teve uma carreira discreta nos cinemas brasileiros. Não foi bem no circuito de festivais, não chamou a atenção do público nem dos críticos, não conseguiu deslanchar no exterior e sumiu nas prateleiras dos fundos das locadoras e lojas de DVD com rapidez. Tal esquecimento é tremendamente injusto, e não faz jus a um dos projetos cinematográficos mais consistentes, interessantes e originais a aparecer no Brasil em muito tempo.

Diversas razões podem explicar o fenômeno. Para começar, o diretor Roberto Gervitz é um semi-desconhecido, alguém que não tem laços com o primeiro escalão de pessoas que lidam com cinema no Brasil. Ele passou 20 anos sem filmar longas-metragens, e é mais conhecido por trabalhos em publicidade (lembra da série “Gente que Faz”, que Gervitz desenvolveu para um banco brasileiro nos anos 1990?). O elenco do filme também não inclui nenhuma grande estrela global, do tipo que poderia ajudar a despertar o interesse da audiência

Para completar, “Jogo Subterrâneo” é um filme urbano e intimista, lento e delicado, passando ao largo das temáticas que têm dominado o cinema brasileiro contemporâneo. Não há nele favelas nem sertão, praias nem mulher pelada. Como não faz denúncia social, não conta piadas e nem exibe imagens do Brasil para gringo ver, o longa-metragem simplesmente foi esquecido pelas cabeças pensantes do cinema nacional. Uma pena: “Jogo Subterrâneo” aborda com elegância e bom gosto a temática universal da solidão das grandes cidades, em uma história romântica e triste sobre os estranhos meios de encontrar o amor dentro do isolamento das metrópoles.

Roberto Gervitz levou sete anos para transformar em filme a idéia de adaptar o conto do escritor argentino Júlio Cortázar. Fascinado com a idéia do acaso, Cortázar trabalhou a idéia criando o pianista Martin (Felipe Camargo), um homem solitário e calado, na casa dos 40 anos. Martin passa as noites tocando em casas noturnas, e os dias praticando um jogo curioso no metrô de São Paulo. Todas as manhãs, ele desenha um trajeto imaginário ligando estações aleatórias e escolhe a esmo uma mulher bonita, passando a segui-la, para ver se ela repete o trajeto imaginário que ele criou. No dia em que a escolhida fizer exatamente o mesmo trajeto desenhado horas antes, Martin acredita que terá encontrado a mulher de sua vida.

A produção desenvolve três histórias a partir de encontros ocasionais no metrô. A principal enfoca a relação de Martin com Ana (Maria Luiz Mendonça), uma garota misteriosa que encanta o músico e o impele a quebrar, pela primeira vez, as regras do jogo. Ao mesmo tempo, aborda os encontros com a escritora cega Laura (Júlia Lemmertz) e com a artista plástica Tânia (Daniela Escobar), mãe de uma garotinha autista que engata uma amizade diferente com o músico. Ao contrário do que pode parecer, Gervitz demonstra maturidade e firmeza na direção, conduzindo o enredo com simplicidade e sem jamais se perder entre as três histórias.

Grandes destaques do filme são a fotografia de Lauro Escorel e a música de Luiz Henrique Xavier. Escorel faz um excelente trabalho de iluminação, criando seqüências de coreografia impecável (toda a parte do metrô) e utilizando filtros especiais para dar ao visual uma tonalidade verde-azulada de luz artificial, fria e solene, que dá ao metrô de São Paulo a aparência distante e austera de um escritório decadente. A música, por sua vez, conduz a trama com linhas melancólicas com um toque de jazz regado a álcool.

Juntas, música e fotografia dão ao filme uma atmosfera melancólica que enfatiza a solidão dos personagens. É uma história de amor urbana, sim, mas se passa numa cidade impassível, brutal, que não dá bola para amantes. Talvez por causa desse caráter de romantismo no lixo, e também pela ambientação (São Paulo, metrô, imagens de praia como fuga possível do caos urbano), o filme lembra bastante “Terra Estrangeira”, de Walter Salles, só que sem o tom solene e épico que todas as obras do diretor de “Central do Brasil” possuem.

Por fim, a direção de atores é outra virtude. Gervitz consegue do elenco atuações muito boas – até mesmo a garotinha Thávyne Ferrari, que faz um papel difícil, desempenha com correção. O maior destaque fica com Felipe Camargo, extremamente à vontade num papel duro, quase mudo e de poucas expressões faciais (“tenho a testa larga, não sou bonito e nem feio”). No todo, um filme interessante e muito eficiente dentro de sua proposta de romantismo feito de concreto e luz artificial.

O DVD simples, mas caprichado, é um lançamento Disney Vídeo. O filme aparece com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1). Há diversos extras: um making of, uma seção com cenas inéditas, entrevistas com a equipe, um trailer e uma galeria de storyboards.

– Jogo Subterrâneo (Brasil, 2005)
Direção: Roberto Gervitz
Elenco: Felipe Camargo, Maria Luiz Mendonça, Daniela Escobar, Júlia Lemmertz
Duração: 107 minutos

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