Jogos de Poder

24/06/2008 | Categoria: Críticas

Sátira política adulta usa mise-en-scéne teatral e diálogos inteligentes para achar as origens do anti-americanismo no Oriente Médio

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Em 1980, Charlie Wilson era um jovem deputado democrata que representava o estado do Texas, um dos mais conservadores dos EUA, no Congresso norte-americano. Festeiro e paquerador, não era político dos mais atuantes da instituição, até que acabou nomeado membro de um dos subcomitês de defesa. Em pouco tempo, Wilson se transformou no principal artífice de uma milionária campanha de venda de armas para que a população nativa do Afeganistão pudesse combater as tropas soviéticas, que então ocupavam o país. “Jogos de Poder” (Charlie’s Wilson War, EUA, 2007) documenta a transformação do congressista de garotão inconseqüente em líder político de respeito. Só que o filme está mais interessado nos aspectos políticos da história do que na jornada íntima do protagonista.

Dirigida pelo veterano Mike Nichols, a produção faz parte de uma safra incomum de filmes políticos oriundos da indústria de entretenimento. Pela primeira vez na história da indústria cinematográfica, os cineastas dos EUA tiveram coragem de refletir sobre uma situação política em andamento, ao invés de esperar que a polêmica esfriasse para então se pronunciar. Na temporada 2007, um grande número de filmes procuraram entender e comentar o papel dos Estados Unidos na situação política do Oriente Médio. De críticas abertas e carrancudas (“Redacted”) até melodramas de olhar infantil (“O Caçador de Pipas”), foram muitos os longas-metragens que se debruçaram sobre o problema, com resultados bem distintos.

Sátira política de mise-en-scéne teatral, baseada em diálogos espertos e atuações calculadas, “Jogos de Poder” é talvez o mais adulto de todos os filmes dessa safra. Oferece, também, a visão mais original. Com roteiro inteligente escrito pelo premiado dramaturgo Aaron Sorkin, o filme recua para o início da década de 1980, a fim de explicar como os EUA influenciaram, sem querer, no avanço do terrorismo e no recrudescimento do anti-americanismo que caracterizam o jogo político contemporâneo no Oriente Médio no século XXI. Para alcançar este objetivo, a ação dramática reconstitui os bastidores da política externa norte-americana naquela década. O resultado alcançado é parecido com o estudo da Alemanha pré-nazista que o diretor sueco Ingmar Bergman realizou em “O Ovo da Serpente” (1976).

Como o título original indica, a trama gira em torno de Charlie Wilson. Mas “Jogos de Poder” não tenta – ainda bem – transformar o personagem num patriota empedernido. O deputado é mostrado como um galanteador inconseqüente, amante de bons vinhos e mulheres bonitas. Ele não tinha a menor idéia de onde ficava o Afeganistão, ou o que podia fazer para ajudar o país, que então vivia uma fase violenta por causa da ocupação soviética. Charlie só passou a prestar atenção no tema por interferência de uma insistente financiadora de campanha, a milionária Joanne (Julia Roberts). E não o fez por altruísmo, mas por farejar no tema uma oportunidade eleitoral, uma saída para uma enrascada pessoal (ele estava prestes a ser investigado por associação com um traficante de cocaína) e uma chance de dificultar a vida dos odiados soviéticos.

Graças à insistência incansável da milionária, que inclui um pouco de chantagem e até mesmo um jogo sexual nada ortodoxo, Wilson viaja ao Paquistão, e ganha a chance de visitar pelos campos de refugiados na fronteira dos dois países. Ao poucos, vai percebendo o tamanho do problema, e aprendendo a usar o cargo no subcomitê de defesa para interferir nele. Charlie inicia uma campanha para aumentar a ajuda financeira ao Afeganistão, estacionada em US$ 5 milhões anuais. Em poucos anos, a campanha acabaria por inundar o Afeganistão com armas modernas, criando uma cultura de violência no país que era inexistente até então. Orgulhoso, Charlie capitaliza o sucesso de sua atuação nas sombras, mas não consegue enxergar com clareza que esta mesma atuação, tão benéfica naquele momento, poderia se voltar contra o país alguns anos depois.

Graças ao roteiro bem cuidado, Mike Nichols faz um excelente trabalho ao evitar qualquer indício de maniqueísmo ou simplificação no enredo. Cada um dos envolvidos na campanha, inclusive o explosivo agente da CIA encarregado do Oriente Médio (Philip Seymour Hoffman), tem um motivo pessoal, particular e intransferível para fazer o que faz. Ninguém ali age por altruísmo, por amor à pátria ou por puro idealismo. Um grande destaque está nos diálogos, maduros e com fino senso de sarcasmo, que evitam a exposição desnecessária e soam bem realistas. Como na política real, as pessoas não dizem exatamente aquilo que querem dizer. Elas sugerem, deixam informações implícitas, fazem chantagens, pressionam e intimidam, mas sempre com rostos sorridentes e postura cordial.

O elenco premiado (três atores donos de Oscar e mais dois com indicações no currículo) dá conta dessa sutileza com naturalidade, como se fosse tarefa fácil. Tom Hanks e Julia Roberts têm boa química pessoal, e criam um jogo sexual subliminar que encaixa muito bem no enredo, mas o grande destaque mesmo fica por conta de Philip Seymour Hoffman, que rouba a cena tanto nas seqüências mais vigorosas (a explosão de raiva com o chefe na CIA) quanto nas mais sutis e carregadas de significados ocultos (a conversa final com Hanks, na sacada de uma mansão, em que expressa o medo do que pode ocorrer num futuro distante, graças às sementes de violência plantadas com sucesso na terra árida do Oriente Médio). Por ter bem menos humor do que seria esperado, evitar o caminho fácil do cinismo e exigir do espectador bom conhecimento histórico da política externa norte-americana, “Jogos de Poder” pode ser um filme difícil, mas está acima da média.

O DVD da Universal traz o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– Jogos de Poder (Charlie’s Wilson War, EUA, 2007)
Direção: Mike Nichols
Elenco: Tom Hanks, Julia Roberts, Philip Seymour Hoffman, Emily Blunt
Duração: 97 minutos

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