Jogos Mortais 2

29/03/2006 | Categoria: Críticas

Seqüência de sucesso requenta as mesmas referências em nova trama sobre serial killer que mata com armadilhas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

O sucesso de público criou uma aura de cult, e por isso uma continuação para o suspense “Jogos Mortais” era apenas questão de tempo. E os fãs nem precisaram esperar muito. Menos de um ano se passou entre o lançamento nos cinemas do primeiro longa-metragem e de “Jogos Mortais 2” (Saw 2, EUA, 2005), sua continuação. A pressa dos produtores para aproveitar a boa aparição nas bilheterias da obra original se reflete na trama, que é rasa e pouco inspirada, reciclando o material do primeiro filme com o uso das mesmas fontes. Em outras palavras: se “Jogos Mortais” era derivativo e pouco original, sua continuação é inferior porque requenta a mesma trama, adicionando apenas uma dose reforçada de violência gráfica, para a delícia dos aficionados.

O assassino é o mesmo Jigsaw (Tobin Bell), mas agora não existe mais mistério em torno da identidade dele. No final do primeiro filme, descobrimos que ele era um moribundo morrendo de câncer que encontrou, nas intrincadas armadilhas mortais, uma forma de se vingar da humanidade por estar à beira da morte. Dessa vez, o alvo principal dele é um detetive, Eric (Donnie Whalberg). Após um crime tramado pelo assassino em série, Eric tem seu nome marcado na cena do crime e acaba descobrindo que se tornou o alvo em potencial do novo atentado tramado pelo criminoso.

O enredo que os roteiristas Leigh Whannell (ator e escritor do primeiro longa) e Darren Lynn Bousmann (diretor desta segunda parte) bolaram é trivial, quase vulgar. Aos desvendar uma pista encontrada no local do primeiro crime, Eric segue para o esconderijo antigo do criminoso e o encontra lá, esperando. Então, o detetive percebe que foi atraído para uma armadilha. Através de monitores de TV, ele descobre que Jigsaw fechou um grupo de pessoas dentro de uma casa caindo aos pedaços. Eles têm apenas três horas para encontrar a saída do lugar, antes de serem asfixiados por um gás venenoso. Detalhe importante: o filho do detetive está entre as possíveis novas vítimas.

O filme narra duas histórias paralelas. Dentro da casa, os jovens despertam do sono narcotizado e descobrem a situação aterrorizante. Eles precisam driblar as armadilhas deixadas pelo assassino até achar a saída. Dessa forma, vão encontrando a morte de tempos em tempos. Algumas das seqüências de morte podem, desde já, reivindicar lugar entre os momentos mais inquietantes dos últimos tempos. Em certo momento, um dos encarcerados é obrigado a entrar numa banheira repleta de seringas e agulhas para procurar um objeto. É impossível não ficar tenso quando um diretor submete seus personagens a tamanha violência sádica.

Do outro lado dos monitores, a película acompanha os esforços do detetive e da equipe que ele chefia, na tentativa de convencer o assassino a revelar a localização da casa decrépita. O filme finge ser narrado em tempo real (ou seja, o tempo que transcorre na tela corresponderia ao mesmo tempo do lado de cá da projeção, um recurso bem raro no cinema atual), mas o diretor trapaceia aqui ou acolá, acelerando ou atrasando o relógio quando bem entende. A parte visual é semelhante ao filme nº 1: cortes rápidos, movimentos de câmera cheios de estilo, iluminação de tonalidade ocre, cenários decrépitos.

A rigor, não há nenhuma novidade em “Jogos Mortais 2”, sob nenhum ângulo que se examine o filme. O maior destaque do longa-metragem vai mesmo para as seqüências que mostram as armadilhas funcionando. Nesse sentido, o filme é curioso, porque exibe um prazer quase sádico de submeter os personagens a torturas abomináveis, mostradas em cenas longas, que causam certa angústia no espectador. O já citado mergulho na banheira de agulhas, que parece durar para sempre, é um desses momentos. Outra armadilha mostra uma garota enfiando as mãos num lugar de onde elas não poderão sair ilesas – e essa cena também é excessivamente longa. Dá para entender porque o diretor Darren Lynn Bousmann fez isso, já que existe um público de adolescentes excitados que conseguem tirar prazer desse tipo de exibição dantesca. Mas muita gente pode considerar tais momentos exageradamente violentos.

A chave para entender porque “Jogos Mortais 2” é inferior ao primeiro está no exame das referências da dupla de roteiristas. Os mesmos dois longas-metragens que serviram de inspiração para o original são emulados aqui, um em cada uma das histórias paralelas. O grupo trancado dentro de uma casa de vários cômodos que precisa escapar de armadilhas para se manter vivo remete ao italiano “Cubo”. Já a trama paralela, com o detetive tentando obrigar o assassino serial a revelar o paradeiro de suas vítimas, é copiada de “Seven”, de David Fincher. Originalidade zero. Isso significa que nem mesmo nas suas referências cinematográficas os produtores da franquia souberam se renovar. A parte boa é que um assassino morrendo de câncer não pode durar muito, o que deve reduzir o número de prováveis seqüências dessa franquia derivativa. Tudo bem, nós podemos passar sem ela.

O DVD é um lançamento da Paris Filmes. O disco é fraco: contém apenas o filme, sem qualquer material extra. Para completar, o som está em apenas quatro canais (Dolby Digital 2.0) e a imagem aparece cortada nas laterais (1.33:1), o que mutila o enquadramento original.

– Jogos Mortais 2 (Saw 2, EUA, 2005)
Direção: Darren Lynn Bousmann
Elenco: Donnie Whalberg, Shawnee Smith, Tobin Bell, Franky G
Duração: 93 minutos

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