Jogos Mortais

08/06/2005 | Categoria: Críticas

Thriller sobre serial killer tem abertura eletrizante, embora não mantenha consistência

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A abertura de “Jogos Mortais” (Saw, EUA, 2004) é uma das melhores que Hollywood foi capaz de produzir, dentro do gênero policial, nos últimos tempos. O filme do diretor australiano James Wan abre com dois desconhecidos acordando, quase ao mesmo tempo, dentro de um banheiro semi-destruído. Os dois parecem inteiramente aturdidos. Estão acorrentados à parede, um em cada lado do cômodo. No centro, um cadáver mergulhado em uma poça de sangue, com um gravador em uma mão e um revólver na outra. Eles não se conhecem. O que raios poderiam estar fazendo ali?

A seqüência é longa, mas eletrizante, e atira o espectador diretamente dentro de um pesadelo. Aos poucos, enquanto se acalmam, os dois prisioneiros se apresentam. Dr. Lawrence Gordon (Cary Elwes) é médico. Adam (Leigh Whannell, co-roteirista do filme) é fotógrafo. Aparentemente, eles não se conhecem, e não entendem como foram parar ali. Mas, usando apenas raciocínio lógico e interpretando a cena horrível que vêem no banheiro, os dois chegam à conclusão que são vítimas de um serial killer excêntrico que age no local.

O sujeito, conhecido pela alcunha de “Jigsaw” (quebra-cabeças, em bom português), não mata suas vítimas, mas monta verdadeiras armadilhas para forçá-las a cometer suicídios ou assassinatos. A cena do banheiro dá aos dois desconhecidos a impressão de que eles estão ali para participar de um desses intrincados jogos, em que terão que passar por muitas provações para poder sair vivos. Logo, o Dr. Gordon, que é frio e calculista e ainda por cima andou sendo considerado suspeito de ser o assassino, vai descobrir que mais vidas estão sendo ameaçadas pelo estranho matador.

A seqüência não é apenas promissora, mas pode ser considerada um verdadeiro marco em filmes do estilo. Ela foge à clássica abertura de filmes sobre assassinos seriais, que quase sempre mostram o criminosos executando uma vítima. Nervosa, tensa ao máximo, é o melhor momento do longa-metragem, que a partir daí se dilui em uma narrativa cronologicamente fragmentada, mostrando passagens da vida dos dois encarcerados, os crimes anteriores do assassino e trechos da investigação policial conduzida por dois detetives encarregados de perseguir o matador.

Existem duas inspirações evidentes da história, bolada em dupla pelo diretor e pelo co-protagonista. Uma delas é “Seven”, o thriller de David Fincher, referência obrigatória para quase todos os filmes que enfocam a atividade de um assassino em série. O método utilizado pelo criminoso para matar, cheio de truques e charadas, é muito similar ao da genial mente do crime de John Doe, o pregador assassino do filme de Fincher. Toda a parte visual de “Jogos Mortais” também bebe dessa fonte: cenários urbanos caóticos, apartamentos decadentes, luzes artificiais e grande número de cenas noturnas.

A outra inspiração é o thriller “Cubo”, de Vicenzo Natali, um pequeno filme alternativo que virou cult. Naquele longa-metragem, um grupo de pessoas que não se conhece acorda, em um dia qualquer, trancado dentro de uma estranha construção em forma de quadrado, repleta de cômodos. Cada cômodo possui várias saídas, mas o grupo só pode utilizar uma, pois as outras levam a mortes horríveis. A premissa de “Cubo” é resgatada na ótima seqüência inicial, de forma muito mais crível. A montagem acelerada no estilo “videoclipe de músicas de metal alternativo”, usada por Cubo, também bate ponto aqui.

Um dos problemas de “Jogos Mortais” é que o longa-metragem jamais apresenta uma idéia realmente original, limitando-se a exibir uma colagem de referências visuais ou temáticas que remetem a imagens da cultura pop. O assassino, por exemplo, aparece quase sempre utilizando máscaras e roupões em cores berrantes, como se fosse um músico da banda de Marilyn Manson. As cenas situadas dentro do apartamento do fotógrafo remetem a “Janela Indiscreta” (o uso do flash da máquina fotográfica na tentativa de se proteger contra o agressor). Há várias cenas assim.

Além disso, o filme vai se perdendo à medida que ruma ao final. Como em praticamente todos os casos de filmes do gênero, a descoberta da identidade do criminoso acontece perto do final, e não chega realmente a surpreender um espectador acostumado ao gênero. E há uma polêmica reviravolta final que, se tem um quê de original, também contribui para jogar uma cortina de fumaça sobre as motivações do assassino – um problema que “Seven”, para citar um dos melhores exemplos, soube resolver com inteligência e estilo.

Apesar dos problemas, “Jogos Mortais” fez sucesso relativo nos EUA e ganhou boas críticas, no círculo dos cinéfilos apaixonados por cinema violento. Por causa disso, ganhou sinal verde para que uma continuação fosse produzida. A verdade é que “Jogos Mortais”, não é ruim, mas não passa da obra de um “copycat”, um diretor eficiente que ainda não encontrou voz própria e, por isso, ainda se dedica a copiar os trabalhos de colegas experientes.

A edição em DVD, da LK-Tel, mantém o formato (widescreen) e conta com trilha de áudio no formato DTS, bem interessante. Um comentário em áudio do diretor e do ator/roteirista Leigh Whannell integra o pacote, com um clip da banda pesada Fear Factory e um featurette (3 minutos) de bastidores.

– Jogos Mortais (Saw, EUA, 2005)
Direção: James Wan
Elenco: Leigh Whannell, Cary Elwes, Danny Glover, Monica Potter
Duração: 102 minutos

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