Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes

04/07/2006 | Categoria: Críticas

Estréia do inglês Guy Ritchie busca inspiração em Tarantino e é um filme pop divertido

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Antes de ser conhecido como marido da cantora Madonna, Guy Ritchie era um promissor cineasta que, ao filmar thrillers pop com doses generosas de humor, ganhou a alcunha de “Quentin Tarantino da Inglaterra”. Pode não ser um apelido muito lisonjeiro, mas cabe como uma luva no estilo frenético de direção do inglês, cuja carreira, infelizmente, não decolou, já que ele, principalmente depois do casamento com a popstar norte-americana, passou a se dedicar a trabalhos bissextos, em geral projetos egomaníacos, histéricos e sem graça. “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” (Lock, Stock and Two Smoking Barrels, Inglaterra, 1998), estréia de Ritchie, é seu melhor filme.

A história é bem simples, mas o diretor a complica utilizando alguns elementos bastante caros ao autor de “Cães de Aluguel”, filme com o qual o début de Guy Ritchie guarda muitas semelhanças. Ele quebra a narrativa, por exemplo, em três tramas paralelas, que convergem aos poucos para uma única história no final, e também gosta de brincar com a cronologia, indo e voltando no tempo diversas vezes. Como Tarantino, Guy Ritchie também ambienta a história no submundo do crime, mostrando gângsteres e ladrões de calibres variados filtrados por um olhar pop inconfundível.

O elemento pop, aliás, bate especialmente forte na fase da montagem, que usa um monte de efeitos sonoros engraçadinhos para acelerar a ação, e também na trilha sonora, repleta de canções interessantes, alternando clássicos como The Stooges e bandas obscuras no estilo de Ocean Colour Scenes. Dá para dizer que, em “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes”, Ritchie lembra um pouco um cozinheiro de aluguel: utiliza os ingredientes do chef Tarantino sem, no entanto, acrescentar qualquer tipo de tempero pessoal, o que torna a obra talvez derivativa em excesso, embora muito divertida.

Das três histórias paralelas, a que tem mais tempo de tela mostra quatro rapazes de classe média interessados em ganhar dinheiro sem fazer força. Eles juntam as economias, reúnem 100 mil libras e mandam o mais talentoso deles (Nick Moran) para a mesa de pôquer de um conhecido mafioso local (P.H. Moriarty), com a esperança de saírem ricos do lugar. Mas Eddy é depenado e, ao contrário, deixa o covil dos jogadores zonzo e com uma dívida de 500 mil libras, que deve ser paga em no máximo uma semana. As outras duas tramas envolvem um grupo de traficantes que planta maconha num apartamento no centro de Londres, e uma dupla de meliantes encarregada de roubar duas armas raras (os “canos fumegantes” do título) para um colecionador.

É compreensível que o filme tenha sido recebido com entusiasmo pela parcela do público ligada em cinema moderninho. “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” passa mesmo a impressão de uma obra renovadora: é charmoso, espirituoso e cheio de momentos divertidos, apresentando ainda uma galeria de personagens impagáveis, como o assassino (Vinnie Jones) que carrega o filho pequeno junto de si para que o pirralho aprenda os segredos do ofício desde criança.

Por outro lado, uma análise mais detalhada expõe os truques de Guy Ritchie como um show de mágica visto por trás do palco: boa parte da graça de “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” é mera cortina de fumaça. A alta velocidade da ação não deixa espaço para que o espectador perceba como a coisa toda é inverossímil, e o cineasta inglês abusa ao extremo do velho recurso da narração em off, algo que sempre depõe contra o filme. Se você está à procura de diversão descompromissada e quer dar boas gargalhadas, este filme é para você. Se procura cinema inovador, melhor tentar de novo.

O DVD da Columbia é simples e contém apenas o filme. O enquadramento original (widescreen anamórfico) foi respeitado e a trilha de áudio é muito boa (Dolby Digital 5.1). Não há extras.

– Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (Lock, Stock and Two Smoking Barrels, Inglaterra, 1998)
Direção: Guy Ritchie
Elenco: Jason Flemyng, Dexter Fletcher, Nick Moran, Jason Statham
Duração: 103

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