Johnny e June

28/05/2008 | Categoria: Críticas

James Mangold filma a vida do cantor Johnny Cash usando romance com colega como foco narrativo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A melhor seqüência de “Johnny e June” (Walk the Line, EUA, 2005) reproduz, com alguma liberdade artística, um momento lendário do nascimento do rock’n’roll, em 1956. Trata-se do teste de audição que o cantor Johnny Cash (Joaquin Phoenix) fez para o produtor Sam Phillips (Dallas Roberts), proprietário da gravadora Sun Records. No estúdio, em frente ao impaciente executivo, Cash tenta executar um gospel que fazia sucesso na época, mas é interropido por Phillips, que o desafia a tocar algo novo, “com alma”. O jovem pára, respira fundo, e desfila o futuro clássico “Folsom Prison Blues”. Ganha um contrato, e meses depois já é uma estrela do nascente rock’n’roll, pegando a estrada nas cansativas e intermináveis turnês da turma que gravava para o histórico selo de Memphis, incluindo dois rapazes então desconhecidos, chamados Elvis Presley e Jerry Lee Lewis.

Na realidade, Cash não fez um único teste com Sam Phillips, e nem ouviu um discurso tão duro do produtor responsável pelo nascimento do rock’n’roll. O que o cineasta James Mangold realiza, na cena, é aquilo que todo bom cinema precisa fazer: ele condensa, através de artifícios cinematográficos, vários acontecimentos em um só momento, dramaticamente poderoso. No filme, durante uma única execução da música, o cantor percorre um caminho que na verdade levou meses para acontecer: começa hesitante, vai ganhando confiança a cada nova estrofe e acaba virando o imponente Johnny Cash, a lenda, o “Homem de Preto”, ao final da canção.

“Johnny e June” é a cinebiografia deste monstro sagrado da música norte-americana. Embora tenha ficado mais famosos nos círculos do country, Cash sempre transitou no limite entre esse estilo, o blues e o rock, cantando uma música mais dura, primitiva e rascante do que a fase adocicada que fez a fama de Elvis Presley. Por isso, nunca ficou muito conhecido no Brasil. Nesse sentido, a curiosidade que “Johnny e June” deve provocar no público brasileiro é limitada, já que muita gente não faz idéia da importância deste camarada para o desenvolvimento do rock.

O filme de James Mangold tem boas cenas, como a citada acima, mas biografa o artista de alma torturada de maneira apenas regular. Talvez percebendo que a trajetória de Johnny Cash é bastante similar à carreira de tantos outros gênios do rock já biografados antes no cinema (de Ray Charles a Tina Turner), Mangold optou por buscar um foco narrativo diferente. O cerne do longa-metragem é a paixão do artista pela cantora country June Carter (Reese Whiterspoon). Assim, os bons e maus momentos da carreira de Cash – as descompromissadas turnês iniciais, os grandes shows em Las Vegas, a prisão por porte de drogas, o vício em anfetaminas – são narrados como pano de fundo para os desesperados esforços do cantor, na tentativa de conquistar June.

A iniciativa parece interessante por buscar a originalidade, mas não esconde que “Johnny e June” é apenas uma cinebiografia eficiente, convencional, que repisa um terreno já mostrado em outros filmes. É verdade que o arco dramático da carreira de Cash contribui bastante para o sabor requentado do filme, pois o cantor levou uma vida muito parecida com a de vários artistas contemporâneos seus. Como Ray Charles, por exemplo, Cash vinha de uma família rural pobre, se sentia culpado pela morte de um irmão ainda na infância, alcançou grande sucesso nos anos 1960, enfrentou problemas com drogas e teve um casamento arruinado em virtude do estilo de vida caótico. Quem viu “Ray”, a biografia de Charles dirigida por Taylor Hackford, corre o risco de achar “Johnny e June” parecido demais com o antecessor para merecer elogios.

Apesar dessa sensação de dèja vu, o grande vacilo de James Mangold não está no modo como ele conta a carreira de Cash, já que não havia como fugir das similaridades entre a vida do mito country e a de outras estrelas da música pop. O problema é que Cash era um homem contraditório e complexo, um cantor sombrio e torturado, que militava em um estilo de música famoso por celebrar a alegria. Em “Johnny e June”, essa faceta mais complexa de Cash não aparece.

Mangold perde a chance de explorar, por exemplo, os sérios conflitos pessoais que o cantor enfrentava por ser um homem profundamente religioso, leitor da Bíblia, levando uma vida repleta de mulheres e bebida, que considerava devassa e carnal. Para se ter uma idéia, Cash chegou a escrever um livro sobre Paulo, o soldado romano que se converteu ao cristianismo e virou apóstolo, fazendo um curioso paralelo entre o santo e sua própria trajetória. Esse fato não entrou no filme.

Por outro lado, “Johnny e June” oferece um par de desempenhos extraordinários. Joaquin Phoenix, que já havia aparecido como bom ator dramático em filmes como “Gladiador” e “A Vila”, mostra aqui sua faceta de cantor, agregando uma voz grave e poderosa (é ele mesmo quem canta as canções do “Homem de Preto” na trilha sonora) a uma boa capacidade de representação. Reese Whiterspoon se revela a atriz ideal para viver a divertida June (em certo momento, quando diz que “sempre foi espevitada”, ela poderia estar se referindo a si mesmo, já que essa é a persona que sempre projetou em filmes como “Legalmente Loira”). Ainda por cima, também canta de verdade. Os dois dão show nos muitos números musicais.

Como se não bastasse, o filme conta com um trunfo extra, que é o espetacular acervo de canções clássicas de Cash, relativamente desconhecidas no Brasil. O responsável pela trilha sonora, T-Bone Burnett, é um expert em country, tendo criado uma das melhores compilações do estilo já mostradas em um filme, no sensacional “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, dos irmãos Joel e Ethan Coen. Aqui, Burnett realiza um trabalho discreto, apesar recriando os arranjos originais das músicas em bases instrumentais adequadas para Joaquin Phoenix brilhar. Um filme OK – e só.

A Fox lançou três versões em DVD. O disco para locadoras é simples e eficiente, com imagem OK (widescreen 2.35:1 anamórfica) e som legal (Dolby Digital 5.1). A edição de colecionador é dupla e tem um disco só de extras, com um longo documentário em seis partes. O disco 1 tem ainda comentário em áudio de James Mangold. Já a edição com o selo Cine Reserve traz um corte do filme mais longo (17 minutos), e dois novos featurettes no disco 2.

– Johnny e June (Walk the Line, EUA, 2005)
Direção: James Mangold
Elenco: Joaquin Phoenix, Reese Whiterspoon, Robert Patrick, Ginnifer Goodwin
Duração: 136 minutos

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