Johnny Guitar

26/11/2007 | Categoria: Críticas

Cheio de cores explosivas, filme de Nicholas Ray é o primeiro faroeste feminista da história do cinema

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Mesmo em sua época mais prolífica (meados dos anos 1950), Nicholas Ray jamais deixou de ser considerado um dos diretores malditos de Hollywood. Os executivos da indústria de cinema olhavam para ele de soslaio, como se fosse um intruso. E era mesmo, mas também era muito mais do que isso. Ele era um visionário, um verdadeiro artista, daquela estirpe que percebe, antes de todo mundo, movimentos sociais tomando forma – e transforma essas observações em valiosos documentos de época. Pois foi nestas circunstâncias, num período marcado por episódios odiosos de censura, perseguição e proibição, que Ray criou dois grandes filmes antevendo a insurgência de dois protagonistas sociais então inexistentes: o jovem rebelde e a mulher poderosa.

Como todos sabem, Nicholas Ray radiografou o crescente abismo entre jovens e velhos, no clássico “Juventude Transviada” (1955), e o filme com James Dean se tornaria o cartão de visitas do diretor. Um ano antes, porém, ele já entrara para as fileiras dos cineastas que Martin Scorsese chamaria, anos depois, de “contrabandistas”, referindo-se aos criadores que dotavam suas obras de uma aparência de normalidade para falar, nas entrelinhas, de temas proscritos ou proibidos. Ray fez “Johnny Guitar” (EUA, 1954), um western irreal e onírico, protagonizado por duas mulheres iradas. Foi um filme que antecipou, em duas décadas, o surgimento do movimento feminista.

Apesar do título se referir a um personagem masculino, “Johnny Guitar” celebra a rivalidade mortal entre duas mulheres: Vienna (Joan Crawford), teimosa dona de um saloon com um passado repleto de homens, e Emma (Mercedes McCambridge), proprietária de um banco e defensora da moral e dos bons costumes de uma cidadezinha nos confins do Velho Oeste. Como sempre acontece nesses casos, as duas se odeiam, e aquela que está mais próxima do poder estabelecido – a virginal e odiosa Emma – está decidida a botar a rival para fora correr. Entre as duas, estão dois homens de passado obscuro (Sterling Hayden e Scott Brady) e os moradores indecisos e inoperantes do lugar.

Fugindo do realismo que predominava nos melhores faroestes da época (John Ford, Howard Hawks, Anthony Mann), Ray cunhou um faroeste atípico já a partir do visual. Ele filmou em Tecnicolor e caprichou meticulosamente na criação de um estilo feérico, onírico, que Truffaut (o cineasta e crítico francês amava o longa-metragem) chamou de “a Bela e a Fera dos faroestes”. O trabalho de cores, auxiliado pelas características técnicas do sistema utilizado, é sensacional. Como outros grandes cineastas, Nicholas Ray não usava as cores de forma gratuita, dando aos cenários e figurinos uma dimensão extra de significa a partir da escolha das tonalidades. Obviamente, a aparência brilhante e explosiva cortava o efeito de naturalismo, mas enfatizava o estado de espírito dos personagens em cada cena.

Observe, por exemplo, as camisas e vestidos utilizados pelas duas personagens femininas. Na primeira cena em que Vienna aparece, ela usa calça e camisa pretas, e passa a imagem de uma chefe dura, austera, implacável (impressão acentuada pelo ângulo de câmera, que a flagra sempre de baixo para cima, frisando o poder que ela exerce sobre todos os personagens, mostrados de cima para baixo). Em uma das seqüências mais lembradas do filme, no auge da perseguição promovida por Emma (que usa preto), Vienna aparece toda vestida de branco, tocando piano enquanto o mundo desaba em torno dela. Para o duelo final, o vermelho do fogo.

Nicholas Ray usa com sabedoria uma técnica imbatível dos grandes diretores – utilizar a paisagem para expressar o estado emocional dos personagens – e realiza um grande trabalho. Na seqüência de abertura, quando todos com função dramática importante se cruzam no saloon de Vienna, a cidadezinha é sacudida por uma tempestade que parece prenunciar os acontecimentos futuros. Claro que, para melhor curtir o resultado, é preciso dar um desconto à artificialidade dos cenários, em que as paisagens de fundo são pintadas em grandes painéis (técnica conhecida em Hollywood como matte painting). Perceba que as nuvens do céu, durante a tradicional cena de pôr-do-sol – todos os filmes de Ray têm uma –, não se movem.

Curiosamente, se “Johnny Guitar” passou à história como o primeiro filme feminista realizado em Hollywood (e logo um western, o mais masculino dos gêneros!), o alvo verdadeiro de Nicholas Ray estava logo ali, na esquina. O longa-metragem foi pensado como uma crítica sutil à perseguição promovida por políticos republicanos contra supostos cineastas comunistas, em episódio que ficou conhecido como MacCarthismo. E o verdadeiro roteirista, que jamais ganhou crédito pelo trabalho, era justamente um dos homens proibidos de exercer a profissão pela crença na ideologia vermelha: Ben Maddow. Ou seja, por baixo de todo o espetáculo de cores e cenários fulgurantes, mora um dos filmes mais engajados já feitos nos intestinos de Hollywood.

O DVD brasileiro, da Versátil, é simples e não contém extras de fôlego. A qualidade de imagem (tela cheia, 1.33:1) e áudio (Dolby Digital 2.0) está apenas razoável.

– Johnny Guitar (EUA, 1954)
Direção: Nicholas Ray
Elenco: Joan Crawford, Mercedes McCambridge, Sterling Hayden, Scott Brady
Duração: 110 minutos

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