Johnny Vai à Guerra

27/05/2006 | Categoria: Críticas

Dalton Trumbo assume a direção para criar um libelo anti-guerra que bate forte na burocracia militar

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O escritor Dalton Trumbo foi um dos homens mais malditos na história de Hollywood. Permaneceu por mais de dez anos na lista negra dos estúdios por ser, supostamente, um comunista. Durante um ano inteiro desse período, ele esteve na cadeia, sob a mesma acusação. E, embora fosse um roteirista talentoso, tinha dificuldade para arrumar trabalho mesmo depois de receber os créditos oficiais pelo maravilhoso texto do épico “Spartacus”(1960). Por isso, é espantoso que ele tenha conseguido produzir “Johnny Vai à Guerra” (Johnny Got his Gun, EUA, 1971), um angustiante libelo anti-belicista que bate forte na hipocrisia militar.

É verdade que o processo de transformação do livro (publicado em 1938) em filme foi turbulento e demorado. A idéia original partiu do cineasta espanhol Luis Buñuel, que desejava dirigir o filme. Em 1961, Trumbo e Buñuel chegaram a escrever uma versão do roteiro, mas não conseguiram financiador para a obra. Enquanto o espanhol abandonou a idéia, Trumbo foi em frente. Reescreveu o texto inúmeras vezes, enquanto batia à porta de todos os estúdios norte-americanos, grandes e pequenos. Recebeu dezessete negativas, mas em 1971, finalmente, conseguiu que um produtor independente aceitasse bancar a obra.

Embora seja um filme que trata das conseqüências nefastas dos conflitos bélicos, não dá para rotular o longa-metragem de filme de guerra, até porque há pouquíssimas cenas de batalhas dentro da trama. O que Dalton Trumbo fez foi imaginar a pior situação possível para um recruta ferido no front, para a partir daí alfinetar sem piedade a burocracia militar que manda soldados para a morte como bois em um matadouro. No processo, também arrumou espaço para discutir a situação sob um prisma mais humanista, abordando corajosamente a eutanásia, então um tema tabu. O filme é claro na pergunta: até que ponto alguém tem o direito de decidir sobre a vida e a morte de outra pessoa?

O protagonista é Joe Bonham (Timothy Bottoms), rapaz ingênuo de uma pequena cidade rural que se alista como voluntário para lutar na I Guerra Mundial. No front, é atingido por uma bomba e perde braços, pernas e parte do rosto. Desta forma, fica impossibilitado de se comunicar com as pessoas – ele não ouve, não vê, não fala e não tem mãos ou pés para fazer sinais. Os médicos militares acreditam que ele teve danos cerebrais, o que não é verdade. Com a consciência intacta, mas sem meios de informar isso aos outros, Joe mergulha em um mundo de delírios, sem conseguir distinguir sonhos, memórias ou realidade.

Transportar uma trama dessas – que acontece basicamente dentro da mente de um personagem incomunicável – para a linguagem audiovisual era um enorme desafio. Dar à narrativa o ponto de vista de Joe, por exemplo, significaria ter grandes porções do filme com a tela negra e nenhum som. Sendo assim, Trumbo precisou usar uma narração em off (contendo os pensamentos do rapaz) e colocar a câmera em um ponto de vista externo, ou seja, mostrando tudo o que se passa em torno dele, enquanto Joe se esforça e experimenta momentos de verdadeiro desespero, tentando compreender os eventos que o cercam e arrumar uma maneira de se comunicar com as pessoas.

Embora não fosse um cineasta com pleno domínio das imagens – como roteirista, Trumbo sempre foi um homem de palavras – o diretor novato fez um excelente trabalho. Optou, por exemplo, em inverter uma convenção clássica do cinema, ao mostrar o tempo presente em preto-e-branco, enquanto o passado, os sonhos e os delírios são coloridos. A estratégia é perfeita, já que a falta de cor nas cenas mais recentes enfatiza o desespero do protagonista, que agora vive mergulhado na escuridão. O contraste com os momentos felizes que ele já viveu, mostrados em colorido vibrante, é intenso.

Além disso, há momentos excepcionais, com as duas cenas em que o ator Donald Sutherland entra em cena, interpretando uma espécie de versão high tech de Jesus, um Cristo hippie que dá conselhos a Joe e tenta ajudá-lo a diferenciar os sonho da realidade, em seqüências cheias de humor delirante. A primeira vez em que o recruta consegue sentir o sol é outro momento emocionante, capaz de provocar lágrimas nos mais sensíveis – a tela esclarece até tornar-se amarela, como se houvesse uma explosão nuclear dentro do quarto, efeito que sublinha um momento raro e fugaz de felicidade do protagonista. Timothy Bottoms tem uma performance muito boa, e sua narração é excelente, cheia de calor humano, paciência e compreensão.

Como se não fosse suficiente, o final amargo é um desafio aberto ao militarismo. Na verdade, o único senão do longa-metragem é o tom de didatismo que marca presença em alguns momentos, tornando a narrativa um tanto convencional, certinha demais. Nas mãos de Buñuel, é provável que o filme fosse ainda mais delirante e anárquico, o que teria sido uma maravilha. Mas esse pequeno pecado não impede que “Johnny Vai à Guerra” seja um excelente filme, e um dos mais originais libelos anti-guerra produzidos pelo cinema.

A Aurora é a distribuidora responsável pelo lançamento. É um disco simples, mas com o filme em ótima qualidade de imagem (wide 1.66:1, proporção original) e som (Dolby Digital 2.0). Não há extras.

- Johnny Vai à Guerra (Johnny Got his Gun, EUA, 1971)
Direção: Dalton Trumbo
Elenco: Timothy Bottoms, Donald Sutherland, Jason Robards
Duração: 108 minutos

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4 comentários
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  1. É mto bom. Nos remete a pensar na irresponsabilidade dos burocratas, que de trás de suas mesas, determinam o início de conflitos que seriam resolvidos em uma mesa de negociações, não se preocupando com a vida (s) daqueles que, literalmente, vão para a frente de batalha. Também nos traz a memória a eutanásia, conflito que envolve a relação entre pessoas próximas e a dor da perda versos a dor de ver um sofrimento continar. É um filme que nos remete a uma constatação grotesca, mas inevitavel: precisamos nos politicamente ativos e influenciar nas negociações que se apresentem.

  2. Um filme assustador e poético na mesma intensidade, produzido com o mínimo de recursos e o máximo de paixão. Um libelo pacifista comovente e obrigatório para quem gosta de cinema.

  3. Johnny Vai à Guerra http://t.co/dQO4LpaX

  4. [...] excelente resenha de Rodrigo Carreiro do Cine [...]

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