Jornal, O

18/05/2007 | Categoria: Críticas

Comédia atinge equilíbrio perfeito entre denúncia social e entretenimento despretensioso

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O cineasta Ron Howard virou alvo predileto das críticas de cinéfilos antenados depois de ganhar o Oscar com o drama convencional “Uma Mente Brilhante”. O filme com Russell Crowe não é ruim, mas claramente ambicioso – e hoje ninguém duvida de que tenha sido hipervalorizado. Houve uma época, porém, em que Howard era um cineasta eficiente e criativo, que fazia filmes mais baratos e, até sem pretender, complexos. Esse é o caso da excelente comédia “O Jornal” (The Paper, EUA, 1994), um dos melhores filmes a versar sobre o cotidiano da profissão de jornalista.

Filmes que tematizam os jornalistas em pleno exercício da profissão são comuns em Hollywood, formando quase que um subgênero de grande apelo dramático, sempre batendo ponto da cerimônia do Oscar. Existem, na verdade, dois caminhos que esse tipo de longa-metragem costuma seguir. Um, cujo maior exemplo é o suspense “Todos os Homens do Presidente”, de Alan J. Pakula, enfatiza o papel da Imprensa como guardiã da sociedade. Outro prefere discutir questões éticas da própria Imprensa – “A Montanha dos Sete Abutres”, de Billy Wilder, permanece como nome de maior destaque desse filão.

“O Jornal” une os dois tipos de filme em uma única trama, fazendo com equilíbrio perfeito uma mistura de comentário social com entretenimento despretensioso. A platéia acompanha um dia na vida de Henry Hackett (Michael Keaton), o editor metropolitano do tablóide sensacionalista New York Sun. Não se trata de um dia comum, mas da data em que ele terá uma entrevista com o editor-chefe do prestigioso diário New York Sentinel, que deseja contratá-lo para dirigir a redação. Além disso, a mulher dele, Martha (Marisa Tomei), está nos últimos dias de gravidez e, por isso, uma pilha de nervos.

Ron Howard fez um pequeno filme perfeito. “O Jornal” possui o clima exato de nervosismo e tensão que existe numa redação, contando para isso com uma excelente fotografia do mestre John Seale (“O Paciente Inglês”). Seale filmou quase todo o longa em espaços fechados e de luz artificial, o que acentua o stress do protagonista e acelera o ritmo do filme. Mas isso não adiantaria nada sem o roteiro enxuto e preciso dos irmãos David e Stephen Koepp, que introduz no dia de Henry um complicador a mais: um intrigante caso de assassinato que pode, ou não, ter sido cometido por dois adolescentes negros, e por isso tem potencial para gerar distúrbios raciais.

As seqüências que simulam reuniões da equipe da redação são a melhor coisa do filme: divertidas, barulhentas e repletas de excitação, elas mostram direitinho o que ocorre nos momentos de fechamento de um jornal diário. O texto eficiente ainda consegue abrir espaço para as histórias pessoais de Bernie White (Robert Duvall) e Alicia Clark (Glenn Close), os dois chefes diretos de Henry. Tudo isso, junto, consegue produzir um filme rico em nuanças, que aborda os conflitos éticos da profissão e a importância desse trabalho para a imensa população de leitores, sem jamais se tornar maçante e nem perder o foco e a simplicidade.

Além de tudo isso, “O Jornal” ainda possui dois trunfos. Primeiro, faz uma homenagem sincera a grandes filmes sobre Jornalismo, incluindo um repórter com o nome de Wilder, que filmou dois dos maiores filmes do gênero (“A Primeira Página” é o segundo), e escalando o ator Jason Robards (inesquecível em “Todos os Homens do Presidente”) numa participação pequena, mas inesquecível. Depois, realiza uma declaração de amor a Nova York sem precisar jogar esse fato diretamente na trama.

“O Jornal” está disponível no Brasil em um DVD simples, com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1), mas sem extras.

– O Jornal (The Paper, EUA, 1994)
Direção: Ron Howard
Elenco: Michael Keaton, Glenn Close, Marisa Tomei, Rubert Duvall
Duração: 121 minutos

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