Josey Wales, o Fora-da-Lei

25/01/2007 | Categoria: Críticas

Citado como primeiro grande filme de Clint Eastwood, faroeste usa estilo contido do diretor para contar uma história de vingança

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

“Josey Wales, o Fora-da-Lei” (The Outlaw Josey Wales, EUA, 1976) foi o filme que consolidou o nome de Clint Eastwood como cineasta de talento, e principal diretor a honrar, nos anos 1970 e depois, a tradição dos grandes faroestes épicos nos Estados Unidos. Apesar de ter feito anteriormente um ótimo exemplar do gênero (o sobrenatural “O Estranho Sem Nome”, de 1973), Eastwood ainda carregava a pecha de ser um astro do estilo, mas não um cineasta. Aqui, ele oferece um bom exemplo do estilo seco e econômico de direção que desenvolveria, em uma história que se apresenta como variação de um dos temas mais tradicionais dos westerns: o da vingança familiar.

O filme abre com um pequeno prólogo que sintetiza a direção contida adotada por Eastwood. A guerra civil nos EUA está no fim, e somos apresentados a Josey Wales (o próprio diretor), um pacato agricultor, vivendo uma vida idílica com esposa e filho pequeno. A chegada de um bando de soldados selvagens destrói a harmonia do lugar; eles queimam a casa e matam a família, deixando o homem sozinho. Wales não perde tempo: empunha uma pistola e começa a aprender a atirar com as duas mãos. Ele se junta a um bando de renegados e em pouco tempo se torna um lendário pistoleiro de velocidade incomparável (“um relâmpago”), levando uma vida nômade e solitária que acaba virando uma fuga sem rumo, já que tem a cabeça posta a prêmio.

A apresentação do personagem é feita de modo simples e rústico, e a única concessão de Eastwood a um estilo mais enfeitado é a utilização de closes fechados em rostos, artifício certamente aprendido nos filmes que fez com Sergio Leone. Em poucos minutos, construindo a história com traços firmes e amplos, Eastwood nos diz tudo o que há para dizer sobre Josey Wales. É um homem íntegro, melancólico e de poucas palavras. No fundo, enterrado atrás da cicatriz que lhe corta o rosto e simboliza a dor interior, existe um sujeito pacífico e tranqüilo, impedido pelas circunstâncias de usufruir desta característica.

Ele vaga pela terra seca – as paisagens do deserto são extraordinárias – como um fantasma errante e, sem cerimônia, possui o hábito de cuspir fumo no rosto dos cadáveres dos matadores que lhe cruzam o caminho (é bem provável que, caso o filme fosse feito 20 anos mais tarde, o estúdio forçasse Eastwood a eliminar estas cenas, por causa da onda politicamente correta que varreu Hollywood a partir dos anos 1980). O filme é estruturado como um road movie a cavalo, em que o renegado solitário trava uma série de encontros com almas bondosas que, como ele, penam pelo deserto em busca de algum conforto espiritual.

Como se tornaria hábito na obra de Eastwood, não há qualquer tipo de julgamento dos personagens; eles apenas existem. O longa-metragem apresenta ainda uma visão bastante honesta e realista da questão do índio, enfatizando a existência de uma ligação afetiva e emocional muito forte do protagonista com a raça, cujos bandos estão sendo confinados a reservas cada vez menores naquela segunda metade do século XIX, um dos períodos mais sangrentos da história norte-americana. De fato, existe em Josey Wales um sentimento de identificação com os índios. Como ele, os pele-vermelhas são um povo impedido pelas circunstâncias de viver da maneira pacífica que gostariam. Um belo filme, que faz par feito com o futuro clássico “Os Imperdoáveis” (1992).

O DVD da Warner é um disco simples e muito bom. O filme, restaurado e com som remasterizado, tem boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1), além de um documentário (30 minutos) e uma introdução em vídeo do próprio diretor. Pena que o material extra vem sem legendas.

– Josey Wales, o Fora-da-Lei (The Outlaw Josey Wales, EUA, 1976)
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Clint Eastwood, Chief Dan George, Sandra Locke, Bill McKinney
Duração 135 minutos

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