Jovens, Loucos e Rebeldes

28/09/2007 | Categoria: Críticas

Filme é uma coleção de saborosas histórias juvenis que emulam perfeitamente a curtição da adolescência

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Você é um nostálgico de carteirinha da década de 1970? Se a resposta é sim, provavelmente já conhece a comédia “Jovens, Loucos e Rebeldes” (Dazed and Confused, EUA, 1993). Se ainda não conhece, pare agora de ler esse texto e corra até a locadora mais próxima. O filme de estréia do diretor Richard Linklater (“Antes do Amanhecer”, “O Homem Duplo”) é uma coleção de saborosas histórias juvenis que emulam perfeitamente a curtição daquela fase da adolescência em que a gente está prestes a sair do colégio. De quebra, promove uma reconstituição de época incrivelmente acurada, daquelas capazes de trazer lágrimas aos olhos dos saudosistas de plantão.

Uma breve olhada em algumas canções que estão na trilha sonora do filme é capaz de dar uma idéia da atmosfera de farra interminável do filme. Cheque só: “Sweet Emotion” (Aerosmith), “School’s Out” (Alice Cooper), “Love Hurts” (Nazareth), “Highway Star ” (Deep Purple), “Rock and Roll All Nite” (Kiss), “Paranoid” (Black Sabbath), “Show Me The Way” (Peter Frampton). A lista completa tem pelo menos cinco vezes mais canções, todas hits da década de 1970 – os produtores gastaram 20% do orçamento do filme pagando direitos de uso de todas elas. Sozinha, a trilha sonora já seria pretexto suficiente para qualquer cinéfilo que curte boa música dar uma conferida atenta no filme, mas a folha corrida do diretor também justifica a atenção.

Desde o começo dos anos 1990, Linklater vem se firmando em Hollywood como um dos mais versáteis diretores em atividade. Ele se tornou conhecido sobretudo pelas comédias românticas (“Antes do Amanhecer” e “Antes do Pôr-do-Sol”), mas já passeou por inúmeros gêneros em obras que vão da leseira despretensiosa (este “Jovens, Loucos e Rebeldes”) à crítica social engajada (“Nação Fast Food”). A lista ainda inclui coisas inclassificáveis, como as excelentes animações “Waking Life” e “O Homem Duplo”. Apesar de verde, o talento de Linklater já transparece na direção segura desta comédia leve, mas nunca boba, que olha com carinho e atenção para questões que importam para os adolescentes, abordando temas como inadequação e indecisão profissional.

A rigor, não existe um protagonista. O filme simplesmente relembra o último dia de aula dos estudantes de uma escola secundária numa pequena cidade do Texas (EUA), em 1976. A ação cobre 24 horas completas, começando no início das aulas e indo até o amanhecer do dia e seguinte. A maior parte da ação, claro, se dedica a acompanhar as festas de comemoração pelo início das férias. Cada adolescente está às voltas com seus próprios problemas. Há o grupo de alunos mais velhos que está à caça de garotas, os rapazinhos prestes a fazer a transição para escolas de nível médio, as meninas veteranas às voltas com namorados e trotes nas calouras. A atmosfera é sempre leve, divertida, descompromissada.

Um destaque quase óbvio é a enorme galeria de atores iniciantes. Boa parte deles se tornaria, aos poucos, astros de Hollywood: Ben Affleck, Matthew McConaughey, Milla Jovovich, Parker Posey, Joey Lauren Adams, Adam Goldberg e Jason London estão entre eles. Prestando bem atenção, você vai notar que Kevin Smith roubou deste filme grande parte do elenco de suas melhores obras, como “Procura-se Amy”. Como todo bom filme-mosaico, “Jovens, Loucos e Rebeldes” não dedica mais do que alguns minutos a cada um deles, mas Linklater acerta ao dar características universais, quase arquetípicas, a cada um deles. Observe o maconheiro Ron (Rory Cochrane), por exemplo: quem nunca conheceu uma figuraça como ele na juventude?

O grande truque de “Jovens, Loucos e Rebeldes” é que nem parece um filme, mas uma reprodução literal do ambiente cheio de promessas de um último dia de aula. Curiosamente, o longa-metragem foi um fracasso quando exibido nos cinemas, arrecadando menos de US$ 8 milhões nos Estados Unidos. O tempo, contudo, lhe fez bem, e a obra acabou se tornando um título cult, a ponto de conquistar um lugar na lista dos dez melhores filmes de todos os tempos de Quentin Tarantino, cineasta cujas credenciais dispensam apresentações. Em resumo, um filme para se assistir com bastante cerveja na geladeira e um balde de pipoca.

O DVD nacional, da Columbia, tem apenas o filme, com boa qualidade de imagem (widescreen 1.85: 1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Nos EUA, o Criterion lançou o filme numa embalagem luxuosa, dupla, com documentário de 50 minutos, cenas cortadas, comentário em áudio de Richard Linklater e até um livro de 72 páginas.

– Jovens, Loucos e Rebeldes (Dazed and Confused, EUA, 1993)
Direção: Richard Linklater
Elenco: Jason London, Matthew McConaughey, Ben Affleck, Milla Jovovich
Duração: 102 minutos

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