Jules e Jim

25/09/2006 | Categoria: Críticas

Filme de Truffaut é um conto romântico ardoroso e cheio de vida, que fala de amor, de amizade e do medo de perdê-los

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Para muita gente que não conhece bem o cinema europeu, os diretores da nouvelle vague francesa foram intelectuais metidos a besta, que faziam filmes lentos, verborrágicos e incompreensíveis. Um pensamento desses não é apenas um estereótipo simplista, mas chega a ser uma heresia injusta e incorreta, especialmente para com um cineasta tão inovador e sentimental como François Truffaut. Quem duvida disso deveria checar urgentemente “Jules e Jim – Uma Mulher para Dois” (Jules et Jim, França, 1962), um conto romântico ardoroso e cheio de vida, que fala dos diferentes tipos de amor e amizade (e do medo de perder ambos) que todos nós vivemos em algum momento de nossas vidas.

Transposição para o cinema de um romance francês que Truffaut encontrou num sebo, o filme transpira o espírito libertário e de amor livre que os jovens viveram na década de 1960, na Europa e nos EUA. Pontuando a história com uma técnica ágil e visceral, que influenciaria nove em cada dez cineastas alternativos de duas décadas adiante, Truffaut usa lirismo e ousadia – em temática e narrativa – para construir o triângulo amoroso definitivo das telas de cinema. É um filme repleto de paixão, cheio de vontade de viver, e aborda um tema difícil com tamanha delicadeza que fica difícil não se apaixonar pelos personagens.

A história se passa no ambiente boêmio de Paris, no início do século XX, e possui uma narração em off tipicamente literária, roubada diretamente do romance de Henri-Pierre Roché. O austríaco Jules (Oskar Werner) e o francês Jim (Henri Serre) são dois amigos inseparáveis que adoram a vida noturna. Eles têm pendor artístico, gostam de mulheres, bebida e poesia. São jovens e vivem intensamente. Quando conhecem Catherine (Jeanne Moreau), ambos se apaixonam. Ela é intensa, atrevida, sexualmente avançada, e de personalidade forte. Jules, o mais tímido, pede que Jim abra caminho. O amigo concorda, mas as coisas não são tão simples assim.

A narrativa do filme acompanha os três personagens durante duas décadas de incontáveis idas e vindas amorosas, interrompidas por uma guerra mundial (defendendo nações rivais, Jules e Jim têm mais medo de matar um ao outro durante uma batalha do que de morrer). A narrativa é muito ágil, e ficou famosa por utilizar truques revolucionários de edição que Hollywood só teria coragem de usar duas décadas depois: imagens congeladas que interrompem a narrativa, telas divididas e montagem fragmentada (a chamada jump cut, que joga fora as partes mortas de uma conversa).

Truffaut considerava o longa-metragem um dos prediletos de sua filmografia, e dizia sempre que o filme foi feito para celebrar a intensidade e a fugacidade das paixões mais incendiárias – ou seja, ele quis fazer um filme sobre o medo que uma pessoa apaixonada tem de perder o amado para outro. Nisto, foi extremamente bem sucedido: “Jules e Jim” é uma montanha-russa emocional, repleta de vales e picos, altos e baixos, momentos de euforia e depressão. Tudo no filme é intenso, inclusive as esplêndidas atuações do trio de atores principais. Truffaut celebra com exatidão aquilo que é o amor – a felicidade e o medo, a angústia e a euforia.

Embora acompanhe mais de perto os dois amigos do título, dois homens cuja retidão moral e fidelidade aos princípios libertários impedem que o sentimento que ambos nutrem por Catherine interfira na amizade sólida que os une, a narrativa de “Jules e Jim” capta perfeitamente o fluxo emocional instável de Catherine. É ela (“uma força da natureza”, define Jules, com absoluta perfeição, a certo momento) que regula o tom emocional do filme. “Jules e Jim” deveria ser programa obrigatório para qualquer um que já viveu um triângulo amoroso.

O DVD da Versátil é bastante frugal, embora traga uma cópia do filme com excelente qualidade de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) e som razoável (Dolby Digital 2.0). Um trailer e um curto segmento-homenagem (3 minutos) são os únicos extras.

– Jules e Jim – Uma Mulher para Dois (Jules et Jim, França, 1962)
Direção: François Truffaut
Elenco: Jeanne Moreau, Henri Serre, Oscar Werner, Vanna Urbino
Duração: 106 minutos

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