Julie & Julia

19/03/2010 | Categoria: Críticas

Nora Ephron tenta voltar aos bons tempos com comédia damática apenas morna que entrelaça duas histórias paralelas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Desde o final da década de 1980, quando Meryl Streep já tinha construídos sólida reputação como a melhor atriz de sua geração, os marqueteiros da indústria cinematográfica norte-americana tentam emplacar alguém mais jovem como sucessora. Desde 2005, especialmente depois de uma participação marcante no tocante drama “Retrato de Família”, a bola da vez passou a ser Amy Adams. Não há surpresa, portanto, na aclamação endereçada à comédia dramática “Julie & Julia” (EUA, 2009), segundo filme consecutivo em que as duas atuam juntas – e uma obra apenas morna, para usar uma metáfora culinária apropriada.

O longa-metragem anterior (“Dúvida”, de John Patrick Shanley) havia alcançado indicações das duas para o Oscar (Streep na categoria principal, Adams como coadjuvante), de forma que a reaparição de ambas numa obra de tom completamente diferente reforçaria ainda mais o ecletismo e a química entre elas. Quem se liga nesse tipo de detalhe, contudo, terá uma má surpresa ao assistir a “Julie & Julia”. Afinal de contas, as duas não contracenam juntas em uma cena sequer; cada uma protagoniza uma das duas histórias paralelas narradas com mão pesada pela roteirista e diretora Nora Ephron.

O projeto, aliás, tem muito mais a ver com esta última, praticamente esquecida em Hollywood após o fracasso estrondoso da versão para tela grande do seriado “A Feiticeira” (2005). Ephron, que se tornou conhecida após roteirizar comédias românticas com mulheres protagonistas e homens de sensibilidade aguçada (“Harry e Sally” e “Sintonia de Amor, respectivamente de 1989 e 1993, são as mais conhecidas), migrou para a direção sem o mesmo sucesso, embora tenha mantido um público fiel durante muitos anos. Em “Julie & Julia”, ela desloca um pouco o foco de interesse (mas não muito) e comete um filme interessante, que fica a meio caminho entre a comédia romântica e o drama conjugal.

O longa-metragem é uma adaptação livre de dois livros de sucesso. Cada um desses livros rendeu uma história diferente. Um deles é a autobiografia de Julia Child (Streep), autora do primeiro Best seller culinário dos Estados Unidos, nos anos 1950. O outro é uma novela escrita cinco décadas depois por Julie Powell (Adams), aspirante a escritora que num momento de frustração cria um blog que registra um desafio proposto a si mesma: cozinhar as 524 receitas integrantes do livro de Child em um ano.

Como em “O Poderoso Chefão 2”, as duas narrativas caminham em paralelo, sem se cruzarem em nenhum momento (a não ser por um breve e previsível instante no clímax, perto do final). Os pontos de contato são providenciados pela evolução dramática da caracterização das duas protagonistas: ambas são mulheres casadas com homens apaixonados e profissionalmente bem sucedidos, mas que andam à procura de um sentido na vida. Em meio a frustrações e descobertas, as duas vão conseguindo descobrir as próprias vozes. O retrato das duas mulheres ecoa os filmes anteriores de Nora Ephron e o perfil da “mulher do século XXI”, segundo o senso comum – profissional exemplar, sem jamais esquecer das obrigações conjugais.

Sim, é um tremendo de um estereótipo, mas o filme até que funciona. Em grande parte, é verdade, graças às performances das duas atrizes. Meryl Streep (novidade…) ganhou elogios unânimes pela interpretação irretocável de Julia Child. Os maneirismos físicos, a voz, o sotaque, está tudo lá – e repare como a direção de Ephon ressalta essas qualidades, filmando as cenas da atriz da maneira clássica, em planos gerais e médios de longa duração, que evidenciam a habilidade e a segurança de Streep no papel. Stanley Tucci, como o marido insosso e simpático, também dá show.

A narrativa que envolve Amy Adams, por sua vez, e contada através de um estilo de montagem mais contemporâneo (edição rápida, muitos cortes, profusão de close ups), mas a moça também se sai bem. Para boa parte dos espectadores – especialmente as mulheres – é provável que a segunda história tenha mais apelo; a empatia gerada pela cultura da Internet, que exerce grande importância na narrativa, é muito mais afeita à experiência cultura contemporânea. O problema é que a justaposição rigidamente cronometrada e a relativa ausência de conexões entre as duas histórias (há uma progressão emocional parelha, mas só isso) compromete um pouco o resultado, passando a impressão de dois filmes distintos unidos numa só projeção. De qualquer forma, só a presença de Meryl Streep já garantiria o preço do ingresso.

O DVD simples tem o selo da Sony Pictures e traz o filme com imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1) de boa qualidade.

– Julie & Julia (EUA, 2009)
Direção: Nora Ephron
Elenco: Meryl Streep, Amy Adams, Stanley Tucci, Chris Messina
Duração: 123 minutos

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