Jumper

05/11/2008 | Categoria: Críticas

Doug Liman tenta criar franquia em filme com personagens pouco carismáticos e um protagonista yuppie sem qualquer atrativo emocional

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

A seqüência de abertura de “X-Men 2” (2003) integra, com honras, a galeria das melhores introduções de personagens com superpoderes já concebidas no cinema. A cena, que mostra um atentado ao presidente dos EUA, apresenta um mutante que possui o poder do teletransporte. Noturno, um ser de aparência demoníaca, tem a habilidade de romper a barreira do espaço, desmaterializando o próprio corpo e reaparecendo, numa fração de segundo, em qualquer lugar desejado, esteja a alguns metros ou a milhares de quilômetros de distância. Esta habilidade especial está no centro da ação dramática de “Jumper” (EUA, 2008), nova e decepcionante tentativa do diretor Doug Liman (“A Identidade Bourne”, “Sr. e Sra. Smith”) de criar uma franquia cinematográfica.

A origem do longa-metragem de apenas 88 minutos remonta a 2005, quando o cineasta foi contratado para desenvolver uma trilogia de filmes baseada numa novela de 1992. Durante três anos, pelo menos três roteiristas profissionais trabalharam na história, que teve andamento tumultuado. Dois dos atores principais – o protagonista da aventura e seu par romântico – foram substituídos com as filmagens já em andamento. Os problemas de bastidores, embora não sejam nenhuma novidade em Hollywood, podem ajudar a explicar o resultado artístico deficiente. “Jumper” é bobo, tem enredo inconsistente e sem verossimilhança, personagens pouco carismáticos, um protagonista yuppie sem qualquer atrativo intelectual e diálogos burocráticos.

Desde o primeiro segundo de projeção, fica claro que a intenção de Doug Liman é criar o primeiro exemplar de uma franquia. O diretor apresenta os personagens e investe na dinâmica entre eles, mas rascunha uma história incompleta, cheia de lacunas que possam ser exploradas em outros filmes. Como de hábito em filmes que inauguram séries, este é dividido em dois blocos narrativos. O primeiro conta a origem do herói, estabelece sua personalidade e seu ciclo de amizades, e cria um antagonista. A segunda parte mostra o primeiro choque entre os dois novos inimigos. “Jumper” segue nos mínimos detalhes a cartilha dos filmes modernos de super-heróis, a exemplo do primeiro “Homem-Aranha” (2002). Mas ao contrário do que ocorreu com este último e com o já citado “X-Men 2”, a estratégia não funciona.

Um problema grave da produção está no desenvolvimento deficiente dos personagens. David (Hayden Christensen), o herói de “Jumper”, não parece uma pessoa interessante ou agradável. Quando descobre o poder que possui, ele ainda é um adolescente franzino que é espancado pelo pai. Mesmo assim, foge de casa e explora a habilidade de forma hedonista, dedicando-se a roubar bancos e visitar monumentos históricos quando estes têm as portas fechadas. Ao contrário de Peter Parker ou de qualquer um dos membros dos X-Men (Wolverine, Noturno), ele não possui uma personalidade complexa ou dilemas morais ricos. O filme também falha em mostrar as motivações de Roland (Samuel L. Jackson), agente secreto líder de uma agência de segurança especializada em caçar mutantes como David. O ator negro, munido de uma terrível peruca branca, não passa de um burocrata no cumprimento do dever. Ambos são unidimensionais.

Doug Liman ainda introduz dois elementos extras nesta equação. O primeiro deles é um segundo “jumper”, Griffin (Jamie Bell), um rapaz que se dedica a mostrar a David que ele não está sozinho, mas faz parte de uma comunidade de mutantes que é caçada há séculos pelos chamados “paladinos”, a quem ele se dedica a exterminar. O outro elemento extra é a garota Millie (Rachel Bilson), paixão de infância de David, que ele volta a procurar quando começa a se sentir sozinho. Doug Liman, porém, não desenvolve satisfatoriamente nenhuma das possibilidades dramáticas oferecidas pelos dois personagens. O diretor poderia ter aproveitado a curta duração para explicar melhor a briga secular entre “jumpers” e “paladinos” (algo na linha de longas como “Underworld” ou “Highlander”), ou para dar uma personalidade consistente à garota (cujos valores pessoais e desejos íntimos jamais ficamos conhecendo), ou mesmo para desenvolver melhor o rebelde Griffin. Não faz nada disso.

Na verdade, um dos pontos mais problemáticos está na falta de investimento em um componente essencial dos filmes de super-heróis. Todo roteirista ou diretor sabe que, para vender bem à platéia a idéia de que uma pessoa normal é capaz de ações impossíveis, precisa criar personagens céticos e trabalhar este ceticismo no filme, em manobras chamadas tecnicamente de “suspensão da descrença”. Sam Raimi sabia disso, e dedicou metade do primeiro “Homem-Aranha” a mostrar o próprio Peter Parker duvidando de suas capacidades, e aprendendo desajeitadamente a utilizá-las. Liman não explora este ceticismo, e por isso não o filme permanece com uma rusga de inverossimilhança até o final.

Ao invés disso, o cineasta prefere se concentrar em longas cenas de ação, explorando à exaustão o visual emblemático de pontos turísticos internacionais – há abundantes tomadas aéreas das pirâmides do Egito e do Coliseu de Roma, onde uma das melhores seqüências de perseguição/luta é encenada. Boa parte desses momentos agitados, porém, soam totalmente gratuitos, sem nenhuma função na narrativa. É o caso do episódio em que Griffin rouba uma Mercedes de uma concessionária e sai dirigindo como louco pelas ruas de Tóquio, numa exibição inútil de sua habilidade no manejo do teletransporte (exibição que funciona também como cartão de visitas da equipe de efeitos especiais). Desta forma, “Jumper” resulta num longa-metragem que tem a cara de seus personagens: é agitado e bonito, mas vazio e desinteressante como um balão de gás.

O DVD carrega o selo da Fox no Brasil. A edição tem boa qualidade de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1), e uma pá de extras, incluindo comentário em áudio do diretor, cenas cortadas, seis featurettes sobre as gravações, os efeitos especiais e comparações com a graphic novel que deu origem ao filme, e mais testes de pré-visualização das cenas de teletransporte.

– Jumper (EUA, 2008)
Direção: Doug Liman
Elenco: Hayden Christensen, Samuel L. Jackson, Jamie Bell, Diane Lane
Duração: 88 minutos

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