Juramento de Vingança

21/02/2006 | Categoria: Críticas

Primeira grande produção assinada por Sam Peckinpah é um dos filmes menos autorais do diretor

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Depois de fazer sucesso com “Pistoleiros do Entardecer” (1962), Sam Peckinpah acabou coroado como o renovador de um gênero – o western – que murchava a olhos vistos. O prestígio recém-adquirido o levou a ser contratado para capitanear uma grande produção estilo que a Columbia andava planejando. “Juramento de Vingança” (Major Dundee, EUA, 1965) nascera como um projeto para o grande John Ford, mas o mestre dos faroestes estava envolvido com outros longas-metragens e não pôde aceitar a oferta. Desse modo, o estúdio não pestanejou e entregou a produção nas mãos daquele jovem que parecia redefinir o futuro do gênero.

Logo a Columbia se arrependeria da oferta. Peckinpah mexeu no roteiro original de Harry Julian Fink e Oscar Saul, introduzindo o tema do senso de honra mantido pelos homens do período, e tomou uma decisão arriscada: filmar todo o longa-metragem em locações reais, no México. Na prática, isso encareceu bastante o custo geral do filme, revelando-se um pesadelo logístico. Imagine o que significa conseguir cama e comida para duas dúzias de atores e mais cinco dezenas de técnicos em um lugar inóspito como o deserto mexicano, nos arredores da cidade de Durango?

Para completar, durante as filmagens, Peckinpah começaria a mostrar sua personalidade irascível, entrando em brigas intermináveis com o astro Charlton Heston, bebendo quantidades colossais de uísque todas as noites, dormindo pouco e enfrentando os desafios da direção com uma tremenda ressaca, dia após dia. Vendo o caos que reinava nos sets, os executivos da Columbia entraram em desespero. Começaram a apertar o orçamento e pressionar para que o diretor cumprisse os prazos. Depois de ver o filme montado, exigiram muitos cortes. No final, nem Sam Peckinpah e nem o público gostaram do resultado. O filme rendeu pouca bilheteria e isso reavivou os rumores de que o western não tinha mais futuro em Hollywood.

Assim como outras obras do cineasta, “Juramento de Vingança” mereceu, com um tempo, uma revisão crítica que agregou novo valor ao título. Embora continue sendo considerado um dos menos autorais produtos a receber a chancela do nome de Peckinpah, o longa-metragem ainda é um épico de faroeste bem feito e com algumas inovações. Na verdade, a primeira experiência do diretor com grandes produções contém algumas das marcas registradas que marcaram sua obra posterior, embora a mais lembrada delas – a hiperviolência estilizada – não dê as caras aqui.

Para começar, o ritmo geral do filme é bastante veloz, por culpa de uma edição bem mais rebuscada do que o normal. Cada plano de “Juramento de Vingança” dura, em média, algo em torno de quatro segundos e meio, bem menos do que o normal em Hollywood. Via de regra, diz-se que Sam Peckinpah foi um dos grandes responsáveis pela aceleração das tramas em Hollywood, já que os filmes começavam a ficar cada vez mais rápidos naquela época. “Juramento de Vingança” prova que isso é verdade. Além disso, a decisão de filmar em locação mostra-se acertada, com o uso de cenários naturais de grande beleza e, também, de construções rústicas que davam charme extra ao filme, como a cadeia em que se passa a primeira parte da produção.

Outra marca registrada de Peckinpah pode ser notada no enredo, construído sobre dois antagonistas ligados por laços sentimentais e por um forte código de honra. Quase todos os filmes de Peckinpah enfocam homens que foram amigos no passado, se transformaram em inimigos no presente, mas mantêm um respeito mútuo muito grande. Eles são o major Amos Dundee (Charlton Heston), chefe de uma cadeia na fronteira do Texas (EUA) com o México, e o amigo de infância Benjamin Tyreen (Richard Harris). Depois de lutarem em lados contrários na Guerra Civil, os dois se reencontraram em situações distintas; Dundee agora é o homem forte da prisão onde Tyreen aguarda o enforcamento por matar um guarda.

Um ataque de índios a uma companhia do Exército norte-americano vai tratar de reunir os dois ex-amigos em uma operação única. Após o massacre, que abre o filme, Dundee decide formar um pelotão, formado basicamente por prisioneiros a quem é oferecida a liberdade, para caçar e matar o bando de apaches responsável pela carnificina. No grupo que sai da cadeia em busca dos índios, estão atores que marcaram muitos dos filmes futuros de Peckinpah: James Coburn (“Pat Garrett e Billy the Kid” e “A Cruz de Ferro”), Warren Oates (“Meu Ódio Será sua Herança” e “Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia”) e Ben Johnson (“Meu Ódio Será sua Herança”). Era a turma de cachaceiros que acompanhava o diretor nas noitadas após as filmagens.

No geral, embora não tenha nenhuma cena antológica e ainda não possua o tom amargo e nostálgico dos filmes posteriores de Peckinpah, “Juramento de Vingança” amarra uma trama simples e eficiente em torno de três longas seqüências de ação, e antecipa as jornadas suicidas que marcaria quase todos os protagonistas de películas de Sam Peckinpah. Amos Dundee, nesse sentido, é um perfeito antecessor de Billy the Kid e Pike (de “Meu Ódio…”). Pode não ser uma obra-prima, mas é um faroeste acima de média.

O DVD de “Juramento de Vingança” não foi lançado no Brasil. A edição da Região 1 (EUA) é da Sony Pictures, e traz o filme em versão restaurada, com 12 minutos a mais do que a exibida nos cinemas – um detalhe importante é que a edição original do diretor, com 152 minutos, continua inédita. O enquadramento é o original (widescreen 2.35:1 anamórfico), e o som tem boa qualidade (Dolby Digital 2.0). Não há extras.

– Juramento de Vingança (Major Dundee, EUA, 1965)
Direção: Sam Peckinpah
Elenco: Charlton Heston, Richard Harris, James Coburn, Ben Johnson
Duração: 136 minutos

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