Kanal

20/12/2005 | Categoria: Críticas

Wadja filma histórias de amor, paixão e mentiras nos esgotos da Varsóvia de 1944

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Em polonês, a palavra Kanal quer dizer esgoto. Não dá para saber porque o título original do segundo longa-metragem de Andrzej Wajda foi mantido no Brasil, já que em português o vocábulo possui um sentido bem diferente. Mas isso pouco importa: “Kanal” (Polônia, 1957) é o segundo título da trilogia do cineasta sobre a Segunda Guerra Mundial, e também o título mais violento, duro e claustrofóbico dos três. Foi o filme que tornou o diretor conhecido no mundo inteiro, a partir da vitória no Prêmio do Júri (o segundo mais importante) do Festival de Cannes, no mesmo ano.

Uma característica de “Geração”, volume inicial da trilogia, foi mantida em “Kanal”: a cinematografia virtuosa. Jerzy Lipman, mesmo fotógrafo do filme anterior, estudara com Wadja na Escola de Artes, e sabia traduzir visualmente os arroubos estéticos do diretor. Ele é o responsável pela iluminação claro/escuro magnífica das cenas da segunda metade do longa-metragem, que se passa totalmente dentro dos esgotos de Varsóvia, lembrando um pouco o final de “O Terceiro Homem”. Lipman também conseguiu abrir o filme com uma longa tomada que supera a incrível abertura de “Geração”: um plano de sete minutos que apresenta os personagens, integrantes de uma companhia de 43 homens que resiste aos alemães, nos últimos dias do levante de Varsóvia, em 1944.

Na abertura, a câmera focaliza um grupo de soldados no alto de um morro. O local está sob bombardeio. Eles descem em direção à câmera, e caminham agachados junto a uma cerca, enquanto a imagem se desloca para esquerda, num caminho aparentemente interminável até o refúgio dos soldados. Engenhosamente, Wadja incluiu nessa abertura uma informação, em off, crucial para estabelecer o tom amargo do filme: ficamos sabendo desde o início que estas são as últimas horas daqueles homens. Sabemos que eles vão morrer. A questão é descobrir como, e quando.

Cabe aqui um parêntese. O levante de Varsóvia, cujo início foi mostrado em “Geração”, está perto de acabar, de maneira trágica. Foi um dos episódios mais sangrentos da Segunda Guerra, quando os soldados alemães reprimiram com brutalidade a tentativa de libertação dos poloneses sufocados pelos campos de concentração e extermínio. Ao todo, o levante terminou com 250 mil mortos, 750 mil desabrigados e Varsóvia inteira em ruínas. A destruição da cidade foi tão monumental que em 1956, quando o filme foi feito, as ruínas verdadeiras foram usadas como locação. Ou seja, doze anos depois, os poloneses ainda não haviam conseguido reconstruir a cidade.

Como se sabe, Wadja não é um diretor típico de filmes de guerra; está mais interessado em mostrar histórias humanas, de amor, morte e mentiras, do que em filmar atrocidades simplesmente por razões políticas ou sociais. “Kanal” é o trabalho de Wadja que mais parece filiar-se ao rótulo de filme de guerra, mas ainda assim não é um filme de guerra tradicional. Na primeira metade, a companhia de 43 soldados aguarda ordens superiores enquanto represa um ataque alemão; na segunda metade, cumpre sob protestos a missão recebida – se arrastar pelos galerias de esgotos até o outro lado da cidade.

Este é um filme coletivo, que não privilegia um único personagem. Há, várias pessoas interessantes. Via de regra, os militares estão todos famintos e excitados, sabendo que têm pouca chance de sobreviver às próximas horas. Existe um oficial carrancudo que prefere se embebedar a proteger sua amante civil, além de um músico que se uniu ao grupo mas só consegue pensar na mulher e no filho que estão em casa, no meio do conflito. Os personagens mais trágicos, porém, são Margarida (Teresa Izewska) e Jacek (Tadeusz Janczar). Ela é a guia do grupo, a única pessoa que conhece bem as galerias subterrâneas de Varsóvia; ele é um soldado capaz de um ato heróico e suicida para proteger os colegas por mais algumas horas.

Eles têm mais tempo na tela do que os demais. Ao enfocar com mais cuidado os dois amantes, Wadja celebra a vida, demonstrando grande sensibilidade para histórias humanas emocionantes. Jacek não tem a menor idéia do tamanho do amor que Margarida sente por ele, mas a platéia, sim. O diretor precisa de poucas palavras para ilustrar como a tragédia da guerra afeta essa devoção – e, quando o faz, acerta na mosca com um monólogo antológico: “é mais fácil morrer quando se está apaixonado”, define a garota, em um momento aparentemente banal, mas que significa muito.

Aliás, o final da trajetória do casal é um exemplo sublime de metáfora engenhosa, feita com a intenção explícita de criticar a postura dos russos no conflito (o Exército Vermelho estava na fronteira de Varsóvia na ocasião, mas preferiu esperar que a luta contra a população local enfraquecesse os alemães, o que custou milhares de vidas polonesas). Isso foi feito, contudo, de maneira dissimulada, de forma que os censores não percebessem o artifício. Se você não entender, não se preocupe – assista aos extras do DVD. É genial.

O DVD é da Aurora e foi baseado na ótima edição da Criterior Collection. O formato de imagem (1.33:1 full) foi mantido, e o som é muito bom (Dolby Digital 1.0). Entre os extras, dois documentários de igual duração, um deles enfocando os bastidores e outro que mostra Wadja entrevistando, em 2004, um sobrevivente da companhia mostrada no filme. Ao todo são 56 minutos de material extra, que inclui ainda uma galeria de fotos.

– Kanal (Polônia, 1957)
Direção: Andrzej Wajda
Elenco: Wienczyslaw Glinski, Teresa Izewska, Tadeusz Janczar
Duração: 95 minutos.

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