Karatê Kid

22/08/2010 | Categoria: Críticas

Refilmagem de clássico adolescente gasta 140 minutos para registrar fiapo de trama que é basicamente veículo para promover filho de Will Smith ao status de astro-mirim

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

A primeira informação que chama a atenção no remake de “Karatê Kid” (EUA, 2010) é o tempo de duração: praticamente duas horas e meia, uma metragem fora dos padrões, tradicionalmente reservada a épicos históricos, filmes dramáticos que lidam com temas “sérios” ou longas com múltiplos personagens que exigem tempo para serem desenvolvidos. Obviamente, “Karatê Kid” está longe dessas três categorias, consistindo basicamente de um filme de amadurecimento cujo clímax envolve uma espécie de variação da história bílica de Davi e Golias, disparando uma catarse coletiva na platéia mais jovem.

Há algo de errado com os 140 minutos? Tecnicamente, é claro que não. Contudo, há uma regra tácita do cinema de entretenimento que é claramente deixada de lado aqui: a duração de um filme deve ser proporcional à importância e/ou complexidade de sua trama. Todo cineasta iniciante aprende, ainda nos primeiros passos da carreira, que economia é fundamental nessa profissão. Quando não há nada de interessante (para alguém com mais de 18 anos) ou complexo acontecendo na tela, é melhor cortar a cena. Essa lição, infelizmente, não foi aprendida pelo diretor e pela equipe criativa desse filme.

“Karatê Kid” tem um fiapo de enredo – garoto americano vivendo na China se apaixona por menina local e precisa enfrentar os valentões locais num torneio de kung fu, após ser treinado pelo zelador do prédio onde mora, para ganhar respeito – e personagens tão arquetípicos que arranham os clichês: o herói (Jaden Smith) é um rapazinho ingênuo de coração bom; o mentor (Jackie Chan), um homem respeitável que arrasta na lama após uma tragédia pessoal; o interesse romântico (Wen Wen Han) não consegue enfrentar o rigor de uma educação formal; o vilão (Zhenwei Wang) é um jovem agressivo e arrogante; e assim por diante. Nada de novo, como se vê.

De certa forma, é no mínimo irônico que na refilmagem de um dos filmes adolescentes mais populares do anos 1980 os protagonistas lutem não o esporte explicitado no título, mas sim kung fu, que é muito mais popular nos Estados Unidos do que o caratê (a favor dos produtores, vale informar que o título do longa-metragem na Ásia foi o equivalente ao português “Sonho do Kung Fu”). Esse é um dos aspectos do filme que o diferenciam do original, além do elenco multiracial – na versão de 2010, afinal, o protagonista é negro, algo que não acontecia na obra de 1984.

Aliás, os atores consistem num aspecto fundamental do filme, já que todo o projeto foi organizado pelo ator e astro Will Smith, que assina como produtor, com um objetivo claro: transformar seu filho – co-protagonista ao lado do pai do dramalhão “À Procura da Felicidade” (2006) – numa estrela de Hollywood. Ao que parece, o objetivo foi plenamente alcançado, já que “Karatê Kid” ultrapassou a bilheteria de US$ 200 milhões na terra do Tio Sam, apesar de ter custado cinco vezes menos do que isso. De qualquer forma, todo o elenco (inclusive o pirralha Smith) está bem, dentro dos limites que a profissão de ator oferece em filmes do gênero.

De resto, o filme não compromete. Não há grandes exageros nas seqüências de luta, coreografadas corretamente pelo diretor norueguês Harald Zwart (“Que Mulher é Essa?”, de 2001); as filmagens em Pequim fornecem o exotismo necessário nos cenários e figurinos para a história funcionar (nesse departamento, desconte as manjadíssimas tomadas aéreas dos personagens visitando pontos turísticos da China, inclusive a Grande Muralha); e Jackie Chan injeta carisma num papel pequeno e murcho. Como diversão para adolescentes, é passável. Pelo menos para aqueles que conseguirem ficar sentados numa poltrona por duas horas e meia.

– Karatê Kid (EUA, 2010)
Direção: Harald Zwart
Elenco: Jaden Smith, Jackie Chan, Taraji P. Henson, Wen Wen Han
Duração: 140 minutos

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