Kick-Ass – Quebrando Tudo

31/10/2010 | Categoria: Críticas

Sátira deslavada ao universo dos super-heróis constrói uma espécie de fábula pop, irreverente e ultra-violenta para o século XXI

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

A principal abordagem dada por diretores de cinema aos filmes de super-heróis, no século XXI, consiste em colocar esses seres extraordinários no ambiente mais realista possível. Praticamente todos os filmes de sucesso a explorar o filão, incluindo as séries “Homem-Aranha” (Sam Raimi) e “Batman” (Christopher Nolan), utilizaram essa abordagem. A lista é interminável, e inclui a adaptação de “Watchmen”, clássico gibi a inaugurá-la, ainda nos anos 1980 (o filme não é tão clássico assim). Este “Kick-Ass – Quebrando Tudo” (EUA/Reino Unido, 2010) vem se juntar à lista, acrescido de um saudável humor negro que lhe empresta um molho de irreverência capaz de destacá-lo entre tantos produtos parecidos.

A primeira incursão do diretor britânico Matthew Vaughn no universo dos super-heróis buscou inspiração numa revista em quadrinhos (até aí, nenhuma novidade) assinada por Mark Millar e John Romita Jr, dois grandes nomes da arte seqüencial. Foi co-produzida por Brad Pitt, teve orçamento reduzido de US$ 28 milhões e apostou num elenco parcialmente desconhecido, formado principalmente por adolescentes. De nomes conhecidos, apenas Nicolas Cage e Mark Strong (ambos ótimos, o segundo cada vez mais à vontade em papéis de vilão propositalmente caricatural e maniqueísta).

A meninada, apoiada no bom roteiro co-escrito por Vaughn (com Jane Goldman), segura bem as pontas. O enredo lembra uma fusão do primeiro “Homem-Aranha” (2002) com “Watchmen” (2009), e não é de estranhar que os dois filmes sejam profusamente citados ao longo da trama, seja através de alusões narrativas, nos figurinos, na paleta de cores vibrante (muito próxima do universo dos quadrinhos) e até mesmo nos diálogos. Boa parte do humor do filme vem do pastiche, com zilhões de citações facilmente reconhecíveis pelos cinéfilos (“Taxi Driver”, “Por uns Dólares a Mais” e por aí afora).

O estilo de direção de Matthew Vaughn – cenas curtas, muitas fusões e truques visuais nas trasições entre cenas, música pop, alternância de câmera lenta e cortes rápidos nas cenas de ação, humor negro – é claramente inspirado em Guy Ritchie, para quem ele produziu dois longas-metragens. Apesar da falta de originalidade, funciona muito bem nesse tipo de filme, ainda mais quando acrescido de uma irreverência e de um senso de movimento ausente no ex-marido de Madonna. De todo modo, é a aposta corajosa de apostar na ultra-violência com molho pop e humor negro ajuda o espectador a perdoar qualquer pecadilho menor e embarcar sem medo na diversão proposta pelo filme.

A trama gira em torno de Dave (Aaron Johnson), adolescente nerd que, cansado de ver a violência à sua volta ser encarada como normal por uma sociedade que nada faz para combatê-la, decide comprar uma roupa de herói – um traje grotesco que poderia perfeitamente ser usado pela Seleção Brasileira dos ninjas, se tal agremiação existisse – e sair pelas ruas combatendo o crime. A coisa não dá muito certo, mas o coloca nas televisões e o põe em contato com um ex-policial (Nicolas Cage) que treina sua filha de 11 anos (Chloe Moretz) para combater o barão das drogas da cidade (Mark Strong). A cena em que Cage treina tiro ao alvo na própria filha, usando colete à prova de balas, é uma das melhores do longa-metragem.

Em sua sátira deslavada ao universo dos super-heróis, “Kick-Ass” enfileira uma série de momentos divertidos – a seqüência de abertura é hilariante – e constrói uma espécie de fábula pop e irreverente para o século XXI. Vale mencionar que Vaughn optou por não fazer um filme para crianças, e transforma as cenas de ação num banho de sangue que, promovido por uma criança de 11 anos vestida com um pavoroso uniforme rosa-choque, provoca gargalhadas em qualquer ser vivo com senso de humor. Aliás, o contraste entre o humor negro e a fotografia límpida, clara e multicolorida funciona que é uma beleza. “Kick-Ass” tem lugar garantido em qualquer lista dos melhores de 2010.

– Kick-Ass – Quebrando Tudo (EUA/Reino Unido, 2010)
Direção: Matthew Vaughn
Elenco: Aaron Johnson, Chloe Moretz, Nicolas Cage, Mark Strong, Christopher Mintz-Plasse
Duração: 117 minutos

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