Kill Bill: Volume 1

16/02/2005 | Categoria: Críticas

Tarantino mistura animação, faroeste e kung fu para transformar violência em coisa bela

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Muita gente quebrou a cabeça pensando no que o cineasta Quentin Tarantino estava aprontando, nos seis anos em que esteve longe dos holofotes. Poucos podiam imaginar que ele apareceria, em 2003, com uma homenagem a uma trinca de subgêneros outrora malditos na indústria cinematográfica: os filmes de artes marciais, os faroestes italianos (conhecidos como western spaghetti) e as animações japonesas. Pois foi isso que o diretor mais importante dos anos 1990 aprontou em “Kill Bill: Volume 1” (EUA, 2003).

De certa forma, não é exagero dizer que o longa-metragem é muito diferente dos três trabalhos anteriores de Tarantino e, ao mesmo tempo, tem o carimbo do cineasta em cada polegada de celulóide. Em uma palavra: estilo. “Kill Bill: Volume 1” é o primeiro filme do arquiteto de “Pulp Fiction” que se rende às longas seqüências de lutas coreografadas. Nem por isso abandona o bom humor, as tramas que vão e voltam no tempo e a violência estilizada, elementos que sempre fizeram parte do seu mundo particular.

Duas características saltam aos olhos de imediato. A primeira é confirmação do talento inigualável de Tarantino para descobrir pérolas musicais desconhecidas das décadas de 1960 e 1970. “Kill Bill” tem uma canção do maestro Bernard Hermann (assobiada por uma personagem em cena-chave, e tema de um filme de 1968), tem um clássico menor do mestre italiano Ennio Morricone, tem punk-rockabilly japonês, tem flamenco com arranjos de cordas e metais, tem pop furioso e black music setentista para dançar coladinho. A música sublinha lindamente o clima introspectivo, melancólico até, do filme.

Outro aspecto que Tarantino ressalta é o fabuloso dom de realizar um coquetel de cultura pop capaz de fazer os irmãos Wachowski (“Matrix”) corarem. O enredo da película evoca os filmes de Bruce Lee (a roupa utilizada por Uma Thurman na metade final), longas de Godzilla (cenas aéreas de Tóquio foram feitas usando maquetes da cidade construídas para filmes do lagartão), o seriado de TV “Besouro Verde” (as máscaras negras dos capangas japoneses da atriz Lucy Liu) e faz várias referências a filmes anteriores do cineasta: cigarros Red Apple, cenas com personagens trancados em porta-malas de carros, o fetiche por pés (“Levanta, dedão!”).

No aspecto narrativo, o filme é puro Tarantino. A história, por exemplo, não segue nenhuma ordem cronológica. A Noiva (Uma Thurman) é uma assassina profissional que, grávida, sofre um atentado no dia do casamento. O autor do massacre é o pai da criança, Bill (David Carradine, cujo rosto não aparece na tela). Ele mata todo mundo na igreja, menos a própria garota, que sobrevive e entra num coma de quatro anos. Depois de acordar, ela parte para a vingança. Não só contra Bill, mas também contra todos os outros assassinos que participaram do massacre.

Como se vê, o filme parte de um fiapo de trama. Nesse sentido, Tarantino segue a lição do mestre italiano Sergio Leone (talvez a maior influência nesse trabalho), que fazia longos épicos (“Três Homens em Conflito”) com roteiros minimalistas e quase sem diálogos. O que importa em “Kill Bill” não é a história, mas o estilo. Ele está em toda parte: nas roupas, nas canções, nos automóveis e motos, nas armas, no sangue, na neve, na iluminação – na cor e na falta dela. Também está no uso de diferentes tecnologias narrativas.

Uma das melhores cenas do filme, por exemplo, narra a história da assassina O-Ren Ishii (Lucy Liu, a verdadeira vilã dessa primeira parte) em forma de animação japonesa, com música de toques mexicanos. É belíssima e impressionante, estabelecendo com perfeição o clima surreal e extremamente violento – mas uma violência estilizada, de desenho animado, em que o sangue jorra de cabeças cortadas como um hidrante sendo aberto – do longa-metragem. O diretor parece afirmar essa violência estilizada ao retirar a cor da seqüência mais sangrenta do longa-metragem.

A rigor, o filme parece se passar em um universo paralelo, em que os personagens possuem a profundidade de um pires. Eles não existem fora da dimensão da tela, mas é essa mesma a intenção de Tarantino. À moda de cineastas italianos como Sergio Leone e Dario Argento, o estilo é tudo o que importa. No mundo de Tarantino a polícia não existe, homens usam máscaras no meio da rua como se isso fosse normal, mulheres podem pegar quantos aviões quiserem sem ter fonte de renda, os carros são sempre novos e transados, e só existe música bacana. É tudo de mentirinha, mas deliciosamente camp, exagerado, com senso de humor e refinamento cinematográfico de primeira qualidade.

Se é mesmo verdade que um cineasta só se torna um autor maiúsculo quando consegue erguer um universo particular onde se passam seus filmes, Tarantino reafirma mais uma vez seu ingresso nesse clube exclusivo. Mesmo que a distribuidora Miramax tenha feito a burrada de dividir o filme em duas partes, com objetivos puramente comerciais, “Kill Bill” vai entrar no currículo de Tarantino como um grande filme de ação. O cineasta é um raro diretor que consegue transformar a violência em algo engraçado e/ou esteticamente belo. Se isso é bom ou ruim, fica a cargo do espectador decidir – mas que é competente, isso é.

Se você vai assistir ao filme em DVD, é bom ficar ligado. Existem duas versões brasileiras do disco, ambas muito parecidas, mas com uma diferença crucial: o formato da tela. A versão para locadoras apresenta tela cheia, no formato 4 x 3, mais quadrado e com grandes cortes laterais nas imagens. A versão para venda direta tem formato widescreen anamórfico, ou 16 x 9, o que garante fidelidade aos belos enquadramentos originais do filme de Tarantino.

Como material extra, há um pequeno documentário de bastidores com cerca de 20 minutos, e dois clipes da banda punk japonesa feminina The 5 6 7 8’s, que toca no filme (pouco antes da luta com os homens mascarados). As duas versões têm trilhas de áudio DTS 5.1 e Dolby Digital 5.1, em inglês, e DD 2.0, em português.

– Kill Bill: Volume 1 (EUA, 2003)
Direção: Quentin Tarantino
Elenco: Uma Thurman, Lucy Liu, Sonny Chiba, Vivica A. Fox, Julie Dreyfus
Duração: 111 minutos

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